
“O estudo do antropólogo sobre o personagem de Papai Noel inscreve-se num contexto de grande mutação cultural na Europa e, numa certa medida, no Brasil e na América Latina”
* por Luiz Felipe de Alencastro
Publicado em 1952, o pequeno ensaio de Claude Lévi-Strauss sobre a lenda de Papai Noel tornou-se uma obra de referência na antropologia e na semiologia contemporâneas. No mesmo ano, ele também publicou sob encomenda da Unesco -, organismo recém criado pelos países membros da ONU para valorizar todas as culturas humanas -, Raça e História. Neste texto grave, no qual, pouco tempo depois da Shoah, procurava desmontar os argumentos fundadores do racismo nazista, Lévi-Strauss faz uma reflexão que poderia constar em O suplício de Papai Noel : “Nenhuma cultura está sozinha, ela apresenta-se sempre coligada com outras culturas”.
Na realidade, seu estudo sobre o personagem de Papai Noel inscreve-se num contexto de grande mutação cultural na Europa e, numa certa medida, no Brasil e na América Latina. Na seqüência da Segunda Guerra e da Guerra Fria, as sociedades ocidentais recebiam todo o impacto da hegemonia dos Estados Unidos e do american way of life. A França ressurgia da guerra empobrecida, ameaçada por insurreições em suas colônias e despojada de seu estatuto de grande potência mundial. Na circunstância, a reação à americanização da sociedade, da qual Papai Noel e o consumismo natalino apareciam como um símbolo, congregava uma frente que juntava católicos tradicionalistas, nacionalistas gaullistas e comunistas. Este agrupamento heteróclito, que também integrava lobistas da indústria cultural francesa interessados em manobras protecionistas, tinha ainda em sua linha de mira, a coca-cola e as revistas em quadrinhos americanas. Assim, poucos anos depois, em virtude de uma lei votada em 1949, os gibis de Tarzan e do Superman foram proibidos na França. O fato de que os anúncios da coca-cola estivessem associados, desde os anos 1930, à imagem do Papai Noel, polarizou as críticas à americanização das festas natalinas.
Partindo de um fait divers caricatural publicado por um jornal meio sensacionalista, e ocorrido em Dijon, onde o boneco do Papai Noel fora queimado na noite de Natal diante da catedral, Lévi-Strauss tira proveito desta “ocasião tão propícia” para analisar as mutações dos festejos natalinos. Mas o grande antropólogo e intelectual humanista vai muito além da narração do pitoresco. Numa impressionante análise de mitos e ritos de de diferentes culturas em diferentes épocas, ele descreve os processos de transformação e de revivescência de legendas transfiguradas no personagem de Papai Noel.
Da mesma forma, ele aponta o núcleo social do festejo natalino e da imagem de Papai Noel: a negociação implícita entre as gerações, entre os adultos e as crianças, em torno de um período curto do ano no qual os últimos “tem o direito de exigir presentes” dos primeiros. Lévi-Strauss fez estas reflexões numa época em que a França ainda possuía uma das mais fortes culturas camponesas da Europa e –, afora as greves e os movimentos sindicais –, aparecia como uma sociedade tradicional, maciçamente católica e branca.
Anos depois, num comentário sobre os acontecimentos de maio de 1968, ele fez uma observação mais incisiva e pessimista sobre as relações intergeracionais na França e no Ocidente: “estes acontecimentos me apareceram com um sinal suplementar da desagregação de uma civilização que nem sabe mais assegurar aquilo que as sociedades sem escrita obtinham tão bem: a incorporação das novas gerações”.
Ao longo de várias décadas em que viu o mundo dar muitas voltas, este grande mestre que completou 100 anos em 2008 não cessou de praticar o preceito definido em um de seus principais livros, O cru e o cozido (1967): “o sábio não é o homem que dá as respostas verdadeiras, mas é aquele que coloca as verdadeiras perguntas”.
*Luiz Felipe de Alencastro é professor titular da cátedra de História do Brasil na Universidade de Paris 4 Sorbonne. É autor de O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul [Cia. das Letras] e organizou o volume 2 da coleção História da vida privada no Brasil: Cotidiano e vida privada no Império [Cia. das Letras].