24 de dezembro de 1951, Dijon, França. Diante de crianças de um orfanato, um grupo de padres promovem o suplício de um boneco de Papai Noel: com grande estrondo, enforcam e queimam o velhinho bonachão. A farra de Noel aconteceu no âmbito de uma discussão muito apaixonada, que tomou conta de todo o país, sobre a americanização dos festejos natalinos. Desde o final da Segunda Guerra, Papai Noel e a troca de presentes ganhavam enorme espaço no país, onde tradicionalmente celebrava-se somente o nascimento de Cristo. O antropólogo Claude Lévi-Strauss tomou o episódio de Dijon, clímax desse debate nacional, como ponto de partida para um ensaio brilhante em torno dos significados do Natal. Com esse livrinho inédito a Cosac Naify presenteia seus leitores e homenageia uma vez mais um dos maiores intelectuais vivos, o antropólogo que completou cem anos no dia 28 de novembro.

Papai Noel foi sacrificado em holocausto

Nem um livro divertido sobre um tema infantil, nem um texto intransponível, restrito aos iniciados na antropologia estruturalista de Lévi-Strauss. Numa só tacada, temos em O suplício do Papai Noel uma reflexão aprofundada e rigorosa de um assunto nada lateral aos grandes temas, que, para tal, não faz uso de jargões técnicos ou de demonstrações árduas. Lévi-Strauss nos brinda com uma análise amplamente acessível e um texto que combina o gênio científico ao literário.

Papai Noel veste-se de vermelho: é um rei

Tal empreendimento passa pelo cotejamento da antropologia e da história, da estrutura e do acontecimento, da permanência e da difusão. O ensaio de Lévi-Strauss gira em torno da figura do Papai Noel, de matriz arcaica, mas atualizada no Ocidente moderno. É assim que o antropólogo francês se refere à “vasta experiência de difusão” dos ritos de Natal (apontada por alguns como influência simples e direta dos Estados Unidos no mundo pós-guerra), mas para reinseri-la numa problemática que afasta entendimentos simplificados e mesmo enganosos. Nada de vestígios ou sobrevivências em contextos culturais assim tomados como passivos e amorfos; o caso da figura do Papai Noel “exprime uma disposição afetiva que já existia, só não dispunha de meios de expressão”, diz o cientista.

Não há nada de especificamente novo - sem jogo de palavras - no renascimento do Natal

Experimentamos um passeio no tempo e no espaço que desnuda o Natal, no reconhecimento de costumes ou fragmentos que se correspondem mundo afora – o papel de presentes, os pinheiros, a decoração recoberta por luzes. Topamos com uma variedade de personagens de função análoga ao do Papai Noel, passando por reis romanos, demônios velhinhos de narrativas escandinavas antigas e retomando figuras como a do velho Saturno devorador de criancinhas. Todas “alinham-se como imagens simétricas do bom velhinho Noel”, distribuidor de presentes a crianças.

Papai Noel é, em primeiro lugar, a expressão de um status diferenciado entre as crianças, de um lado, e os adolescentes e adultos, de outro

O antropólogo mostra que o caráter etário do Papai Noel - que classifica de “divindade” do ponto de vista da tipologia religiosa - engendra ritos de passagem e de iniciação, tais como os classicamente estudados por antropólogos nas várias e distantes sociedades não-ocidentais. Ritualmente, ele sempre cumpre “lembrar” a adultos e crianças, sub-repticiamente ou não, os fundamentos de sua sociedade. Ao final, escreve Lévi-Strauss, “não se trata de justificar as razões pelas quais as crianças gostam de Papai Noel, e sim as razões pelas quais os adultos o inventaram”. Ao tempo em que as crianças acreditam no Papai Noel, elas “nos ajudam a acreditar na vida”.

Não deixa de ser um dos grandes paradoxos desse curioso episódio que, pretendendo acabar com Papai Noel, os eclesiásticos de Dijon não tenham feito mais do que restaurar em sua plenitude, após um eclipse de alguns milênios, uma figura rital cuja perenidade, a pretexto de destruí-la, coube justamente a eles demonstrar

LÉVI-STRAUSS NA COSAC NAIFY

O projeto gráfico de O suplício de Papai Noel, idealizado pela diretora de arte da Cosac Naify, Elaine Ramos, brinca com a imagem de ornamento sem ir de encontro às idéias de Lévi-Strauss: a pontuação do texto é toda vermelha, cor tradicionalmente associada ao Natal, e a capa do livro, quando despida do invólucro vermelho que a protege, surpreende com a presença de todos os sinais gráficos do texto.

A constelação de sinais gráficos remete diretamente a uma identidade das obras de Lévi-Strauss na Cosac Naify. Os volumes das Mitológicas, série de livros nos quais o antropólogo analisa mitos ameríndios com base em seu método estruturalista, também compõem uma constelação, quando dispostos lado a lado. Da mesma maneira, a obra As Mil e Uma Noites Possíveis, da artista Rivane Neuenschwander, utilizada na capa de Antropologia estrutural, lançado também em novembro de 2008 pela Cosac Naify, lembra um apanhado de estrelas.

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