AS REFERÊNCIAS DE LIV ULLMANN

Em Mutações, Liv Ullmann comenta ou relata episódios em que figuram escritores, dramaturgos, cineastas, filmes, obras e peças que marcaram sua trajetória. Entre eles, Ingmar Bergman e seus filmes protagonizados pela atriz ocupam grande parte do relato.

Leia, abaixo, trechos do livro que ilustram referências intelectuais e pessoais de Liv.


AUTORES E DIRETORES

Ingmar Bergman [1918-2007]
“No dia em que Ingmar me dá o original, também me dá o direito de sentir que, doravante, eu compreendo melhor o papel. Ele se torna minha realidade, tanto quanto é de Ingmar. Com a ajuda dele, de seu gênio, de sua sensibilidade para escutar e observar, sei que meu conhecimento da personagem será capturado pela câmera. Filmar com Ingmar são extensões de felicidade, quando tudo se torna real. [...]”

Jan Troell, cineasta sueco
Os emigrantes e The New Land foram grandes sucessos na Escandinávia, primeiro nos cinemas e, depois, na televisão. E, ao serem apresentados nos Estados Unidos, os filmes também receberam elogios e celebrações. Agora, Jan e eu nos encontramos outra vez, depois de trabalharmos juntos na Suécia; dessa vez, na Califórnia, a fim de fazer Hannah – A esposa comprada, para a Warner Brothers. Ele estava com saudade de casa o tempo todo. [...]”

Charles Chaplin [1889-1977]
“Temos um visitante de Hollywood, Charles Chaplin, um homem sábio e amável que conheço de muitas visitas aos Estados Unidos. Ele fica encantado com nossos métodos de trabalho, diferentes daqueles a que está acostumado, nos estúdios de Los Angeles.
Enquanto tomamos café, ele entrevista Ingmar. Fico sentada ao lado deles, escutando. Ingmar fala a respeito da auréola romântica que cerca certos atores. [...]”

Peter Palitzsch [1918-2004] e Bertolt Brecht [1898-1956]
“Quando eu tinha vinte e dois anos, Peter Palitzsch, um diretor alemão, veio a nosso teatro, em Oslo. Fora o mais íntimo colaborador de Brecht e, durante muitos anos, um dos principais diretores do Berliner Ensemble, em Berlim Oriental. Quando o Muro foi construído, ele estava na Noruega, levando à cena O círculo de giz caucasiano, e preferiu não voltar. [...]”

Gunnar Heiberg [1857-1929], dramaturgo norueguês
“Acredito na vida eterna, porque a estou vivendo”, meu bisavô costumava dizer. Em sua época, as mulheres da família usavam sua vida eterna para trabalhar em favor da liberdade de seu sexo. Na maioria eram educadoras. O autor norueguês Gunnar Heiberg escreveu uma peça, Tia Ulrikke, falando de uma delas. [...]”

OBRAS

Persona [1966], de Ingmar Bergman
“Em um de seus livros, Ingmar Bergman descreve uma cena de Persona na qual escuto Bibi Andersson em um longo monólogo erótico: “Quando olhamos para o rosto de Liv, verificamos que incha sem parar. É fascinante – seus lábios ficam maiores, os olhos mais escuros, ela se torna a própria imagem da cobiça. Há uma tomada de Liv de perfil, ali, que é incomparável. Podemos ver seu rosto transformado numaespécie de máscara fria e voluptuosa... [...]”

Tove Ditlevsen [1918-1976], escritora dinamarquesa
 “Existe uma menina em mim que se recusa a morrer”, escreveu a autora dinamarquesa Tove Ditlevsen. Eu vivo, me alegro, sofro, e estou sempre lutando para me tornar adulta. Mas todos os dias, porque alguma coisa que eu faço a afeta, ouço a voz da menina, lá dentro de mim. Ela, que há tantos anos era eu. Ou quem eu pensava que fosse. [...]”
[Leia Noite de verão, de Tove Ditlevsen]

A fazenda africana [1937], da escritora dinamarquesa Karen Blixen [1885-1962]
“Tenho um encontro importante com um amigo, um escritor muito talentoso. [...] Conversamos a respeito de um filme que queremos fazer juntos. Há vários meses ele trabalha no roteiro. Foi a história de Karen Blixen que nos empolgou a imaginação. A mulher que, sob o pseudônimo de Isak Dinesen, escreveu o relato de uma história de amor com um país e assim criou uma das obras-primas literárias de nossa época. [...]”

Casa de bonecas [1879], do dramaturgo Henri Ibsen [1828-1906].
“Meu trabalho no rádio é muito mais significativo para mim: estou desempenhando Nora, em Casa de bonecas. Em sua despedida, tento colocar uma leve esperança de reunião. Minha própria despedida é ainda tão recente. Fico imaginando quantas Noras há no mundo que gostariam de ir embora, mas jamais ousam. [...]”

Britannicus [1669], de Jean Racine [1639-1699]
“A primeira noite do Britannicus. No palco, sou duas pessoas: uma tenta representar, a outra fica ao lado, criticando todos os movimentos, todas as palavras. [...]”

Diário de Anne Frank [1947]
“Quando estreei como Anne Frank, os críticos escreveram que eu era Anne. [...] eu realmente pedia emprestada a Annea sua alma, para aquelas duas horas de palco [...]. Passaram-se muitos anos antes de eu voltar a experimentar uma identificação tão completa. [...]”

O cortejo nupcial em Hardanger
“Passamos por Hardanger. É tão bonito que dói por dentro. Eu não sabia que meu país também tinha isso. Montanhas refletindo-se em plácidos fiordes cintilantes – montanhas que se elevam para um céu cheio de sol. [...] E agora eu experimento o “Cortejo nupcial em Hardanger” e entendo por que o violinista de Hardanger exprime melhor que ninguém a natureza norueguesa. [...]”

[A região de Hardanger, Noruega, foi pintada por Adolph Tiedeman (1814- 1876) e por Hans Gude (1825-1903). Até hoje simboliza o espírito norueguês.]