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PARA CONHECER JAYME OVALLE
Primeira biografia sobre o compositor,
verdadeiro mito da cultura nacional,
foi lançada na FLIP 2008
"Um excepcional
trabalho de garimpagem e literatura [...] Werneck é
daqueles biógrafos que pintam vários painéis
sem esquecer que a graça vive nos detalhes"
[Caldão Volpato, O Valor Econômico,
junho de 2008]
"Quem um dia vai refazer os passos de
Jayme Ovalle e identificar as numerosas marcas e impressões
digitais que deixou neste mundo, no Rio, em Nova York, em
Londres?", escreveu Otto Lara Resende em 1980. Incentivado
por Otto - um dos personagens de seu livro anterior, O
desatino da rapaziada -, na década seguinte Humberto
Werneck começou a recolher as pistas que essa figura
extraordinária havia deixado, sobretudo na obra de
seus grandes parceiros de boemia e criação artística:
Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes,
Villa-Lobos, Gilberto Freyre, Fernando Sabino, Vinicius de
Moraes, Di Cavalcanti, Carlos Drummond de Andrade. O resultado
está em O santo sujo - a vida de Jayme Ovalle,
edição da Cosac Naify.
Nascido no Pará, mas cedo transplantado
para o Rio de Janeiro, Jayme Ovalle (1896-1955) foi um artista
que infundiu doses maciças de graça e poesia
na vida de seus amigos - a linha de frente do modernismo brasileiro.
Não deixou, porém, uma obra à altura
da influência que exerceu sobre "pelo menos três
gerações", no dizer de Vinicius de Moraes,
que de Ovalle herdou a mania de usar diminutivos. Não
por acaso, Manuel Bandeira escreveu um "Poema só
para Jayme Ovalle" (um dos mais bonitos de sua obra).
Jayme Ovalle já chamava a atenção
desde a sua figura: causava espécie nos botequins do
Rio usando um antiquado e engordurado monóculo, que
lhe dava um ar de "embaixador aposentado", e tinha
fama de passar graxa de sapato no cabelo. As coisas que dizia
- sensacionais tiradas espirituosas e achados poéticos
que volta e meia iam parar em versos alheios - lhe renderam
apelidos como "o místico" e "o santo
da ladeira". Sobre esse homem "santo" - que
era vizinho e confidente das putas da Lapa - criou-se ainda
todo um folclore que os amigos alimentavam com episódios
fantasiosos.
Sem mistificar ou folclorizar ainda mais o
"mito Ovalle", Werneck traz à tona uma figura
menos conhecida - o "homem triste" que Manuel Bandeira
cantou. Contar uma boa história sem transformá-la
num espetáculo pirotécnico ou em idolatria do
biografado é uma das marcas do texto de Werneck, um
dos grandes talentos de sua geração.
Da pequena obra musical de Ovalle - não mais do que
33 composições -, uma ganharia o mundo e pousaria
nas cordas vocais de Kathleen Battle, Victoria de Los Angeles,
Maria Bethânia, Elizeth Cardoso, entre muitas outras
cantoras nacionais e internacionais: "Azulão".
Uma consulta à discografia do livro dá uma idéia
do incrível alcance dos dezesseis compassos que Ovalle
compôs, com letra de Manuel Bandeira ("Vai, azulão,
azulão, companheiro..."), que se tornariam uma
pequena jóia da música brasileira. Sua produção
musical inclui outras parcerias com Bandeira ("Berimbau"
e "Modinha") e canções como "Três
pontos de santo", impregnadas dos cantos amazônicos
da infância no Pará e do candomblé dos
terreiros cariocas.
Essa música, aprendida sem muito rigor
formal e profundamente enraizada no folclore, foi desaguar
por exemplo na obra de Villa-Lobos, que soube incorporar à
sua obra ecos das melodias desfiadas pelo amigo nas rodas
de seresta.
Outra criação de Ovalle só
não se perdeu na fumaça dos botecos porque Manuel
Bandeira a registrou numa das Crônicas
da província do Brasil (1937): a Nova Gnomonia.
Essa classificação dos tipos humanos em cinco
categorias básicas - "exército do Pará",
"dantas", "onésimos", "kernianos"
e "mozarlescos" - se tornou uma febre entre os intelectuais
dos anos 30, como Sérgio Buarque de Holanda, Bandeira,
Schmidt e, mais tarde, Vinicius de Moraes. Num belo texto
de 2004, em memória de Sérgio Buarque, o crítico
literário Antonio Candido se lembra das discussões
ardentes que os dois tinham em torno da Nova Gnomonia: "Coisas
como essas nos divertiam muito e acho conveniente mencioná-las
para dar uma idéia da fantasia livre de Sérgio,
e não apresentá-lo como se fosse um monumento
nacional, coisa que o teria horrorizado".
Embora tenha tomado aulas de inglês com
ninguém menos que Gilberto Freyre, Ovalle nunca dominou
o idioma (ainda que tenha morado em Londres e Nova York).
Mesmo assim, obstinou-se em escrever seus poemas apenas na
língua de Shakespeare. Foram os amigos e mulheres com
quem se relacionou que o ajudaram a dar forma ao seu "mundo
de poesia irrealizada", nas palavras do poeta Dante Milano.
Escritos com a ajuda de namoradas e da mulher, meia dúzia
desses poemas ganhariam belas traduções para
o português, por Manuel Bandeira e Abgar Renault.
Bandeira, o amigo que mais escreveu sobre Ovalle,
resumiu com uma imagem forte suas dificuldades de expressão:
"Você não sabe certos cães muito
inteligentes, muito afetuosos, quando começam a olhar
fixo pra gente, ganindo dolorosamente? querem falar e não
podem. Ovalle me dá essa impressão".
Enquanto perfila esse artista em busca de se
expressar, Werneck narra andanças e casos saborosos
do personagem, da boemia desbragada da Lapa ao trabalho exemplar
na Alfândega, onde foi servidor público por anos
a fio; de Manhattan, onde era visitado por uma nuvem, à
capital britânica, que o recebeu na companhia de George
- um espevitado macaquinho que Ovalle arrematou no navio.
O autor também recupera a vida familiar
e amorosa desse homem que se deixava converter em personagem
e sobre o qual se criou um folclore peculiar, que ajudava
a deixar sua vida privada em segundo plano. Antes de se casar
com Virginia Peckham, a jovem escritora americana que lhe
daria a filha Mariana, Ovalle teve paixões poderosas.
Segundo a lenda, chegou a se apaixonar perdidamente por um
manequim de vitrine e por uma pomba, que vinha namorar com
ele em sua janela, no Rio de Janeiro. Esse episódio,
conta Vinicius de Moraes, terminaria com o autor do "Azulão"
traído por um pombo.
Ao lado da "suja" boemia, "o
místico" cultivou um catolicismo muito particular,
que incluía conversas íntimas com Deus, sessões
de auto-esbofeteamento diante da cruz ou, por exemplo, uma
oração em agradecimento ao Senhor, "por
mais uma noite de minha vida, bebendo, moderadamente, com
soda e gelo, o meu uísque".
O santo sujo traz muitas histórias
e informações novas para quem pensa já
conhecer tudo o que se escreveu sobre Jayme Ovalle. Para quem
nunca ouviu falar de Ovalle, é uma história
extraordinária, que se lê como um romance, e
que não se restringe ao limites de uma biografia individual:
é também a "biografia" de uma turma
de amigos que moldou as feições do modernismo
brasileiro. A edição traz 111 imagens, muitas
delas inéditas, além de uma discografia que
recenseia 74 gravações de músicas de
Ovalle no Brasil e no mundo.
JAYME OVALLE E MANUEL BANDEIRA NA COSAC NAIFY
Jayme Ovalle também está presente nos livros
de Manuel Bandeira publicados pela Cosac Naify. Duas das 37
Crônicas
da província do Brasil (1937) são dedicadas
ao compositor paraense: "O místico", e "A
Nova Gnomonia". O livro foi relançado em 2006,
com organização, posfácio e notas de
Júlio Castañon Guimarães.
Em Crônicas
inéditas I: 1920-1931, lançado em 2008
com organização e posfácio de Júlio
Castañon Guimarães, Ovalle é citado em
diversas passagens - inclusive de maneira cifrada, com apelidos
(como "João") que Humberto Werneck decodifica
em O santo sujo. Waldemar Ovalle, irmão do
autor do "Azulão", também é
personagem de uma bela crônica escrita após uma
visita ao amigo prestes a morrer de tuberculose, em 1929.
O "Poema só para Jayme Ovalle" ("Quando
hoje acordei, ainda fazia escuro..."), obra-prima de
Bandeira, pode ser lido e ouvido na antologia 50
poemas escolhidos pelo autor (1955), organizada pelo
próprio poeta, que inclui um CD com 29 gravações
raras em que Bandeira lê seus próprios poemas
- um deles, aquele que foi escrito "só para Jayme
Ovalle". O livro ainda inclui o também ovalliano
"Noturno da rua da Lapa" e "Berimbau"
- que está no CD lido por Bandeira e foi musicado por
Ovalle.
Ovalle também comparece nos Poemas
religiosos e alguns libertinos (1980), antologia
organizada pelo pesquisador Edson Nery da Fonseca e relançada
em 2007. É neste livro que Gilberto Freyre se pergunta,
num texto dos anos 80: "Quem mais místico, dentre
intelectuais brasileiros da época de Manuel Bandeira,
do que Jayme Ovalle? Ao mesmo tempo, quem mais sensual?".
Ainda podem ser ouvidos ecos de Ovalle na "Mensagem do
Além".
O projeto editorial em torno de Manuel Bandeira ainda prevê
novos volumes de crônicas - alguns deles inéditos
- além de outros trabalhos de Bandeira.
Humberto Werneck na FLIP 2008
Informalidade e bom-humor: este foi o tom da mesa "Conversa
de botequim", na programação da Festa Literária
Internacional de Paraty (FLIP 2008), na tarde de 3 de julho,
em que Humberto Werneck participou ao lado do jornalista Xico
Sá, colunista do jornal Folha de S. Paulo.
O mediador Paulo Roberto Pires não teve outra alternativa
a não ser se entregar ao riso arrancado pelo papo debochado
de Xico Sá e pelas tiradas espirituosas de Werneck.
O bate-papo seguiu a mesma toada quando o assunto era O
santo sujo - a vida de Jayme Ovalle: as passagens intensamente
vividas pelo poeta, amigo de Manuel Bandeira e Vinicius de
Moraes, muito contribuíram para o humor da ocasião.
Werneck leu trecho na qual Ovalle chega à Inglaterra
levando consigo um macaco, George, que ele encontrara no navio.
Para Humberto Werneck, escrever a biografia de Ovalle foi
um desafio maior do que o esperado. "Saí à
procura dos baús de Ovalle, mas o que encontrei cabia
com sobras numa mochila", contou o escritor e jornalista.
Assista
à entrevista de Jô Soares com Humberto Werneck
SAIBA
MAIS SOBRE HUMBERTO WERNECK
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A FLIP
O
passado, Alan Pauls
Tigre
de papel, Olivier Rolin
Paris
não tem fim, Enrique Vila-Matas |