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Bem-vindo a Satolep!
Convidado da 6a FLIP, o escritor gaúcho Vitor Ramil cria sua cidade imaginária, fantástica e misteriosa, em romance intimista
No caminho para o Sul, a paisagem ganha o peso
dos sonhos. A cerração, a planície, o
vento frio. Tudo isso se intensifica quando nos aproximamos
de Satolep, cidade que o gaúcho Vitor Ramil construiu
a partir de sua Pelotas natal. A história do romance
Satolep (anagrama da palavra "Pelotas"),
de Ramil, começa com um retorno. No dia do seu aniversário
de trinta anos, o fotógrafo Selbor volta à cidade
onde nasceu, a úmida e fantasmática Satolep.
No início da década de 90, depois de cinco anos morando no Rio de Janeiro, Ramil fez movimento similar e voltou a viver no Sul. Foi o momento em que começou a refletir de maneira mais vigorosa sobre sua identidade gaúcha, e lançou as bases do que viria a chamar de "estética do frio". As palavras de Selbor ("voltar... Saiba que, seja o que for, significa muito") encontram eco no famoso conto de Borges, "O sul", em que o personagem retorna à estância de seus avós maternos e, durante a jornada austral, suspeita que viajava também ao passado.
É este encontro, do narrador e seu passado, que está em jogo em Satolep; uma espécie de encruzilhada onde a herança dos tempos idos e as tensões do presente convergem sem encontrar um equilíbrio ("às vezes, o lugar onde queremos chegar fica exatamente onde estamos", reflete Selbor). Além de uma paisagem de vento, noites brancas e telhas enegrecidas, uma cidade "amiga dos silêncios e dos vazios", o protagonista do romance se depara com personagens reais da história pelotense, caso do escritor João Simões Lopes Neto, autor dos livros Contos gauchescos e Lendas do sul; do poeta, jornalista e boêmio Lobo da Costa; e do cineasta Francisco Santos, autor de um dos primeiros filmes de ficção realizados no Brasil.
O próprio narrador, Selbor, tem uma origem real. Foi inspirado em um fotógrafo que documentou amplamente a cidade de Pelotas no início do século XX. Essas fotografias, publicadas originalmente em um livro chamado Álbum de Pelotas, organizado por Clodomiro Carriconde, em 1922, foram recolhidas por Ramil e serviram como ponto de partida para o romance. Em Satolep, elas ocupam um lugar central. Selbor é o autor das fotos, "uma espécie de diário de viagem, um relato indireto dessa minha volta a Satolep". Essas imagens surgem intercaladas à narrativa, sempre acompanhadas de textos breves, instantâneos de neblina, lirismo e alucinação. Estes excertos são encontrados por Selbor dentro de uma pasta, esquecida por um rapaz na estação de trens. De maneira fantástica e misteriosa, eles parecem complementar os cliques de Selbor. "Os textos da pasta haviam sido tirados pelo rapaz a partir de imagens futuras de minha autoria", espanta-se o personagem. Esses curtos relatos seguem os passos do narrador-fotógrafo pela cidade, reservando a ele uma espécie de narrativa poética de sua trajetória.
Explorar esses escritos, sua relação com as fotos, revela-se para Selbor como uma espiral vertiginosa de busca por si mesmo. "Nascer leva tempo", sentencia Ramil. Entender o passado faz parte deste processo. A identificação entre o narrador e a cidade, que é transferida da "fotografia", do espaço, para a memória, é o motor do romance ("o homem faz a cidade, a cidade faz o homem", diz o escritor João Simões). Satolep se interpõe no caminho do narrador; está enraizada, é irremovível e condiciona os atos e sentimentos deste protagonista. O narrador e a cidade parecem feitos da mesma substância, uma certa neblina e vento frio, a "umidade que sai de noite e dorme de dia".
Além de livro, Satolep é também nome de uma música, de um disco ("Satolep Sambatown", de 2007) e de um personagem de Ramil, o Barão de Satolep, um nobre pelotense pálido e corcunda, alter-ego do músico e escritor. Pedaço de um Brasil muito particular, Satolep é presença fixa na obra de Vitor Ramil, um lugar a qual ele recorre, percorre e busca recriar para constituir a si próprio e "tornar nítido até o que não existe".
!satolep á sodniv-meB.
Vítor Ramil na FLIP 2008
A influência dos cenários do cone sul em diferentes
abordagens literárias foi o tema que reuniu os escritores
Vitor Ramil, o argentino Martín Kohan (Ciências
morais, Cia das Letras) e o norte-americano Nathan Englander
(O ministério de casos especiais, Rocco) ao
redor da mesa "A estética do frio" (com mediação
de Samuel Titan Jr.), na programação da 6a Festa
Literária Internacional de Paraty (FLIP 2008).
O título da seção é referência
direta ao ensaio escrito por Ramil em 2004 sobre as especificidades
do povo gaúcho, "os mais diferentes em um país
feito de diferenças". Kohan e Englander ambientaram
seus romances no período ditatorial argentino e este
detalhe os aproxima também de Ramil, uma vez que Argentina
e Uruguai guardam enorme semelhança em seus modos de
vida com o sul do Brasil.
No bate-papo, chamou a atenção
do público a relação que faz Vitor Ramil
entre a escrita e fotografia - para criar Satolep,
ele baseou-se em fotos antigas de Pelotas. O gaúcho
falou de sua "imaginação visual" e
da influência do repertório de imagens em seu
projeto literário.
SAIBA MAIS SOBRE VITOR RAMIL
AUTORES INTERNACIONAIS COSAC NAIFY
QUE JÁ VISITARAM A FLIP
O
passado, Alan Pauls
Tigre
de papel, Olivier Rolin
Paris
não tem fim, Enrique Vila-Matas
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