" ‘Chegou a hora de partir', ele anunciou. O chapéu na cabeça e a sacola de viagem na mão dispensavam a frase. O pai pediu ao motorista que buscasse Selbor, o fotógrafo. O motorista posou conosco, apoiado na balaustrada entre os pilares da varanda. Meu irmão visionário, minhas irmãs e eu paramos muito próximos uns dos outros, na entrada da casa; o pai e a mãe, na janela lateral, que futuramente não estaria mais ali. "
[Após ter escrito Satolep, Vitor Ramil descobriu que esta casa havia sido propriedade da família do escritor João Simões Lopes Neto, personagem do livro]
"Às vezes me pergunto se moramos na rua ou se é a rua que passa em nós.
Quando o leiteiro faz sua breve pausa na Praça Piratinino de Almeida e prepara a charrete para mudar de rumo e continuar a entrega, as garrafas do dia não estão mais nas portas das casas. Enquanto Satolep ainda sonha com pontes de cerração, embarcações de couro submersas, pianos desafinados no alto de figueiras, os moradores da Rua Paysandú já tomamos sol em nossas cozinhas."
[Antiga Rua Paysandú]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

"Em frente ao Palácio Municipal um homem procura emprego, sem perceber que seus sapatos furados acusam encaixes perfeitos de paralelepípedos lustrosos; um médico se atrapalha com a lembrança da paciente morta em suas mãos, sem dirigir o rosto às estátuas, platibandas e frontões que por seus olhos erguem-se ao redor; um fumante preso a uma bagana quebra juramento de último cigarro, sem notar a brisa perfumada de soja e jasmim que lhe roça o nariz (...); duas mulheres, uma delas a ralhar com uma criança, julgam-se elegantes e reservadas debaixo de cerimoniosas sombrinhas, estando expostas como cogumelos sinistros ao sol ameno deste veranico fora de estação; um padre de chapelão se enternece com a visão de um papeleiro negro que se enternece com a visão de um padre de chapelão. De todos esses cidadãos, eu, sentado no alto meio-fio, sou o único tido como alienado; eu, que respeitosamente espero a neblina e o ruflar do entardecer nos pássaros, para abençoar a todos, aconchegar-me à porta do Palácio e dormir."
[O Palácio municipal e, logo atrás, a Escola de Agronomia Eliseu Maciel]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

"O calçamento perfeito e o traçado rigoroso das ruas o excitaram pela manhã; à tarde, a delicadeza das fachadas contra o horizonte selvagem da planície o emocionou; quando escureceu, superfícies úmidas espelhadas numa geometria de sombras cambiantes puseram-no a imaginar e conceber tantas coisas que, embora falasse sem parar, não encontrava tempo de descrevê-las. Para a filmagem, porém, surpreendeu- me ao escolher como única locação o modesto Hotel Brazil, onde estava hospedado. A câmera foi posicionada na calçada oposta, parada. Para seu humor e sua leveza exuberantes reservara apenas uma prosaica caminhada pela frente do hotel. (...)"
[Hotel Brazil, ao lado do teatro Sete de Abril, onde há hoje um edifício de moradia, na praça Coronel Pedro Osório]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

" Eu me deixava levar pelo fluxo das fachadas, acesas ao leste, sombrias ao sul: o Mercado
Público, sua seqüência de portas, sua torre francesa e seu relógio alemão; ao lado, o Palácio Municipal e a esquina em que eu estivera com João Simões pela última vez; à esquerda, o Banco de Satolep e a arrogância de sua colunata; à direita, o Jardim Central, fazendo-se também ouvir pela voz de seus pássaros; atrás dele, o Hotel Brazil e o Teatro Sete de Abril, definitivamente unidos por Calvero (...) "Ali vem o Menezes Paredes, sujeito divertido e poeta único. (...) Deve ter os dentes negros pelo vinho como eu. O filho deu para esperá-lo, pobrezinho. "
[Diante das árvores, do lado esquerdo, está o antigo Mercado público, cuja torre localiza-se logo atrás. Do mesmo lado da rua está o Palácio municipal (esquina), seguido da Biblioteca pública, perto de onde o poeta Menezes Paredes estaria atravessando a rua, logo atrás do bonde, enquanto seu filho o aguarda na esquina]
" `Olha ali o Negrinho do João Simões. Deve ter saído do prédio com a umidade e ainda não voltou para o sossego do seu exemplar no alto de uma estante', eu disse. 'Sossego... Essas crianças querem tudo menos sossego. João Simões era bom demais. Aposto que o Negrinho do Pastoreio era um guri medonho. Não defendo o chicote e o formigueiro, mas umas chineladas não lhe fariam mal', ele disse, e caímos na risada."
[Biblioteca pública: "À noite a Biblioteca Pública não fecha. Não para que leitores entrem nela a toda hora, mas para que a umidade saia. A umidade em Satolep fez da Biblioteca a sua casa."]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

"Na manhã em que o fotografei, dei com ele sentado em um banco do lado sul do Jardim Central. Considerando seu estado miserável de então, ao qual eu começava a me acostumar, chamou-me a atenção sua postura ereta, elegante mesmo. Tinha, ademais, um ar de quem encontrara a paz de espírito pela contemplação das belas fachadas do outro lado da rua. As árvores, as ruas desertas, os casarões, tudo parecia arranjado para ele, sua elegância e sua interioridade".
[Sentado no banco estaria o poeta Lobo da Costa, que atualmente dá nome a esta rua. Ao fundo, ao lado da praça, o casarão onde foi realizado o lançamento de Satolep, em 13 de junho de 2008.]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

"(...) Quando as cinqüenta cortinas correm, a voz do homem que da calçada provocou a maior parte das imagens está longe das janelas do internato. Quarenta e nove meninas despertas não saberão de sua passagem. Uma delas, no entanto, vai até a janela e o vê pelas costas. 'Para ser meu primo só lhe falta, sobre o ombro, o papagaio', é o que pensa antes de tomar na fila um lugar entre duas colegas que, como ela, nem sabem que sonharam."
[Internato do Colégio São José]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

"A simetria e a luminosidade o fazem curvar-se ao sol do Meio-Dia e caminhar apressado em direção ao Jardim Central. As raras mudas de árvores de certas calçadas o fazem rir. 'A natureza incapaz de vicejar ante a face rigorosa da cidade!', grita ao passar por elas."
[Jardim central e a Fonte das Nereidas. Ao fundo, a Biblioteca pública e o Palácio municipal]
Álbum de Pelotas (1922), de Brisolara, primeira inspiração para Satolep.

" 'Movimento de homens em suspensão na cidade em repouso', murmura meu avô, preso a um embrulho de papel com tecidos que comprou a pedido de minha avó. Perfilado a seu lado, nem preciso observá-lo para saber que seus olhos estão fixos como o resto do corpo, detidos em algum ponto que lhe permita apreender a agitação crescente em todos os lados da manhã. Barba branca, terno branco, muitos o reconhecem de longe e, sabedores de que passam em branco, o saúdam sem esperar retribuição (...)."
[Em Satolep, este trecho é narrado pelo jovem que está ao lado do avô, ambos vestidos de branco, na esquina, na parte de fundo da foto]
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