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FRAGMENTOS DE "MELANCHTA"

[Tradução de Caetano Veloso*]

Cada uma como pode

Rose Johnson fez com que fosse muito difícil o nascimento do seu bebê.

Melanctha Herbert, que era amiga de Rose Johnson, fez tudo o que uma mulher podia fazer. Ela cuidou de Rose, e foi paciente, submissa, tranqüilizadora e incansável, enquanto a amuada, infantil, covarde e preta Rose grunhia e gritava e uivava e fazia de si mesma uma abominação e como um simples bicho. Rose Johnson era descuidada e negligente e egoísta, e quando Melanctha teve que sair por alguns dias, o bebê morreu. Rose Johnson gostava bem do bebê bastante e talvez ela apenas se esquecesse dele um pouquinho, de qualquer modo a criança estava morta e Rose e Sam, seu marido, sentiram muito, mas aí essas coisas eram tão freqüentes no mundo negro de Bridgepoint que eles, nenhum dos dois, pensaram nisso por muito tempo.


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Rose Johnson era uma negra realmente preta mas ela tinha sido criada por gente branca como se fosse a própria filha deles.

Rose ria quando estava feliz, mas ela não tinha a risada larga, abandonada que dá esse morno brilho dourado ao sol dos negros. Rose nunca ficava alegre com aquela ilimitada e terrena alegria dos negros. A sua era apenas uma risada comum, qualquer risada de mulher.

Rose Johnson e Melanctha Herbert, como muitas duplas de mulheres, formavam um par curioso para serem tão amigas.

Por que a sutil, inteligente, atraente, meio-branca Melanctha Herbert amava e se dedicava e se rebaixava para servir a essa ordinária, decente, amuada, comum, infantil e preta Rose, e por que essa amoral, promíscua e desajeitada Rose se casou – e isso também não é muito comum – com um homem bom dentre os negros, enquanto Melanctha, com seu sangue branco e atração e seu desejo de ter uma posição direita, ainda não tinha se casado de verdade.
Às vezes pensar em como seu mundo era feito enchia a ardente e complexa Melanctha de desespero. Ela se perguntava, freqüentemente, como é que ela podia continuar vivendo quando era tão triste.


* Publicado originalmente na Código 8, Salvador, Bahia, 1983

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