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Foto: George Eastman House/Getty Images |
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| Gertrude Stein, 1913 |
GERTRUDE STEIN PAIRA SOBRE AS CABEÇAS
Prestes a completar cem anos, Três vidas (1909),
de Gertrude Stein, dá início às edições
de seus livros que serão lançadas pela Cosac
Naify - em seguida virão A autobiografia de B.
Toklas (1933) e Autobiografia de todo mundo (1937).
“Vocês precisam ler Três vidas.
Uma das três histórias, a de Melanchta, é
um dos melhores contos que existem na língua inglesa”,
disse Ernest Hemingway, chamando atenção de
editores europeus para o talento da “tutora”.
O autor de O velho e o mar foi um dos nomes a ter
Gertrude pairando sobre sua obra. A rechonchuda “Mamãe
Ganso de Montparnasse” parecia ter o poder de aglutinar
ao seu redor as cabeças mais promissoras dos agitados
primeiros anos do século XX. Seus ecos atingiram até
mesmo um vanguardista contemporâneo - e brasileiro:
Caetano Veloso.
É certo que, embora em alguns momentos tenha tentado
estabelecer os limites a que o fato chegava, Hemingway admitia
a inegável ascendência de Stein sobre seu processo
criativo (pensemos na influência que carregou da pintura
de Cézanne, “herança” de Stein).
Seu Paris é uma festa (do qual obviamente
parte o catalão Enrique Vila-Matas para fazer a leitura
contrária dos anos em que fora “muito pobre e
muito infeliz” na mesma cidade) recupera a figura da
escritora como a mulher que abrigava o círculo modernista
da Paris do início do século, e a ele dava vida
redobrada. O salão de sua casa no número 27
da rue de Fleurus era freqüentado por gente como Henri
Matisse, Scott Fitzgerald e Pablo Picasso - o pintor a retratou
em1906, em obra que, segundo a modelo, em nada se parecia
com ela. "Mas certamente vai parecer,Gertrude, certamente..."
retrucava Picasso.
“Miss Stein, em sua faceta de protetora, havia sido
para Hemingway o que Marguerite Duras – eu supunha –
era para mim”. Assim o escritor catalão Enrique
Vila-Matas avalia a relação que teve com a autora
de O
amante nos difíceis e patéticos anos
de juventude, quando tentava se tornar um escritor. Em
entrevista a este site, o autor recria o paralelismo,
desta vez apontando para seu desenvolvimento intelectual:
“O papel que desempenha Stein [na vida de Hemingway]
é ocupado, em minha vida mais pelo escritor mexicano
Sergio Pitol [autor de El arte de la fuga, 1996],
que foi decisivo em minha formação artística”.
Em Paris
não tem fim, inventário sentimental
dos anos de juventude, as constantes referências que
faz Vila-Matas ao escritor norte-americano consolidam o que
ele deixa claro desde o início: “decidi que seria
como Hemingway” – daí as experiências
quase sempre malfadadas na tentativa de ser Hemingway. (O
plano foi abolido, e o catalão traçou caminho
próprio, reconhecido como dos mais originais da literatura
européia contemporânea).
Eis que, para viver como Hemingway, era preciso ter a sua
Stein, mesmo que isso não lhe garantisse uma “festa
ambulante” como a que viveu seu ídolo de juventude
na capital francesa dos anos 1910.
Para Vila-Matas, que não admira especialmente Gertrude,
o efeito que causa sua literatura é, para o bem, o
de forçar “o leitor a olhar o mundo exterior
como se fosse pela primeira vez”. Assim, o catalão
dá a mão à palmatória e reconhece-lhe
a ousadia vanguardista.
Arrebatado pela forma experimental da escrita de Stein, Caetano
Veloso fez de “Melanctha”, uma das novelas que
compõem Três vidas, ingrediente para
o único filme que realizou, O cinema falado
(1986). [Trechos da interpretação da atriz Regina
Casé estão disponíveis neste
site]. Caetano traduzira fragmentos de “Melantha”
ainda em 1983, que hoje formam o apêndice da edição
Cosac Naify [leia
aqui].
No mosaico cinematográfico modernista composto pelo
baiano, Stein contribui com a coloquialidade da linguagem
e a reiteração de palavras e argumentos, um
“mergulho na atualidade da consciência”,
nas palavras de Fabio de Souza Andrade, professor de teoria
literária na USP.
Outro mergulho - bem mais sonoro - fez a poeta gaúcha
Angélica de Freitas, mais uma a ter Gertrude como acompanhante.
Seu encontro com a autora é deleite, como atestam os
poemas abaixo.
“Na banheira com Gertrude Stein”
[do livro Rilke
shake, de Angélica de Freitas; Cosac Naify,
2007]
gertrude stein tem um bundão chega pra lá gertrude
stein e quando ela chega pra lá faz um barulhão como
se alguém passasse um pano molhado na vidraça
enorme de um edifício público
gertrude stein daqui pra cá é você o paninho de lavar
atrás da orelha é todo seu daqui pra cá sou eu o patinho
de borracha é meu e assim ficamos satisfeitas
mas gertrude stein é cabotina acha graça em soltar pum
debaixo d´água eu hein, gertrude stein? não é possível
que alguém goste tanto de fazer bolha
e aí como a banheira é dela ela puxa a rolha e me rouba
a toalha
e sai correndo pelada a bunda enorme descendo a
escada e ganhando as ruas de st.-germain-des-prés
"A mulher dos outros"
[do livro Rilke
shake, de Angélica de Freitas; Cosac Naify,
2007]
fiquei muito tempo naquela banheira sem água
pensando por que gertrude me havia deixado
as unhas roxas os dedos enrugados naquele banheiro
sem aquecimento num apartamento perto do jardin du
luxembourg
sem amor e sem toalha
ela tem alice e basket eu sou a terceira excluída
noutros tempos rilke me chamaria pro jardin
des plantes
hoje eu digo adeus e vou pra gare du nord
lou andreas me espera em göttingen plantaremos beijos
na gänseliesel
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STEIN
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