|
Alexander Kluge: o quinto ato
História 2
"O caráter multiforme da evolução"
Ele se propusera a conferir ao encontro um caráter
positivo. No que consistiria isso? A tendência favorável
às grandes produções, que seriam as únicas
a cobrir os custos de marketing, o fechamento dos
cinemas de arte, a crise das salas Multiplex, a decisão
dos canais privados de TV de comprar seriados em detrimento
dos longas-metragens, e também a introdução
do sistema Blind and Block, delineavam um futuro
negro para o cinema e para a "evolução
da história do cinema no século XXI".
- Até agora, mesmo nas situações em
que parecia não haver esperança, sempre surgiu
um "novo cinema".
- "Até agora" quer dizer na Índia
ou na China?
- Talvez na China.
- E na África?
- Também.
- E na América Latina?
- Não se sabe. Como você vai saber o que ainda
pode ocorrer em Cuba? Talvez haja novos melodramas sendo produzidos
há muito tempo em São Paulo, que vão
fazer uma carreira triunfal pelo mundo.
- Nos cinemas ou na TV?
- Não é verdade que a evolução
da história do cinema tenha que continuar no celulóide.
O celulóide pressupõe laboratórios, grandes
projetores de filmes. A evolução pode se dar
também no sentido de um registro digital.
- Em Java ocorreu há pouco uma continuação
da história do cinema na forma de esboços, porque
os trabalhos de filmagem eram impossíveis de pagar.
Essa continuação da história do cinema
parece um monte de fotonovelas. Têm muito êxito
e são vistas até em Chicago.
Como era esperançoso o trabalho de Rossellini e seus
companheiros, ainda durante o fascismo e depois que ele acabou!
Quão típica das metrópoles foi a irrupção
da nouvelle vague e do new american cinema,
acompanhados do surgimento de uma série de cinemas
de arte! Um dos participantes do encontro disse que os programas
de incentivo à produção cinematográfica
cobrem com uma mortalha os restos do cinema independente e
os cinemas de arte.
- Seria o caso de dividir as verbas de incentivo e exportar
parte delas para países do além-mar. Foi assim
que começou a história do cinema a partir da
Europa: com a exportação de aparelhos e de recursos
financeiros, para que depois surgisse a procura por filmes
europeus. De longe, onde com pouco dinheiro se pode fazer
muito, poderia migrar para as metrópoles um "retorno
da história do cinema". As metrópoles européias
ainda teriam alguma utilidade como público (formado
por curiosos e desejosos).
- Essa foi uma proposta de Fassbinder.
- E por que não foi executada?
- Contraria os regulamentos do incentivo à produção
cinematográfica.
- Será que a história do cinema pode se desenvolver
novamente mediante diretrizes?
- Acho que não.
O plenário do encontro continuou cheio de dúvidas.
Estavam relacionadas a um esquema de enredo de noventa minutos
de duração, sendo que a capacidade de atenção
medida nos espectadores da internet não passa de oito
minutos para cada oferta. Seria necessário produzir
noticiários e melodramas em ritmo de cinco a oito minutos,
disseram alguns participantes; assim, eles ganhariam dos seriados.
Por que os seriados não são cinema? Mesmo que
isso não seja provável, também eles poderiam
constituir uma "continuação da história
do cinema com outros meios".
Em todo caso, assim parece à maioria dos participantes,
o transporte de rolos de filme de 35 mm seria algo muito dispendioso.
Não é possível movimentá-los sem
usar um carrinho. Também se considerou complicada a
separação entre os negativos expostos e as trilhas
sonoras.
- Quer dizer que você considera os filmes de cinema
algo fora de moda?
- Contra a minha preferência, sim.
Mas nenhum dos presentes pode excluir a possibilidade de
que, em espaços não controlados do Departamento
de Cinema da Universidade de Nova York, já estivesse
ocorrendo uma revolução cinematográfica,
justamente no momento em que, no encontro, ecoavam queixas
e cânticos de despedida. Essa revolução
sempre necessitaria das "três máquinas que
constituem o cinema". Talvez ela pudesse renunciar à
máquina número 2.
- O que você quer dizer com isso?
- Seja como for, a invenção do cinema ocorreu
sem um planejador, e do mesmo modo, o "novo cinema",
seja qual for seu aspecto, também surgirá sem
ter sido planejado.
- Por descuido?
- Como tantas outras coisas boas.
|