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Foto: Nino Andrés
O escritor e jornalista Humberto Werneck estará na mesa “Conversa de botequim” da FLIP

DEVOLVENDO À HISTÓRIA UMA EXISTÊNCIA À BEIRA DO ESQUECIMENTO

Entrevista para Alvaro Machado

Há pelo menos doze anos ouve-se falar, nos meios jornalístico e editorial, sobre a biografia que Humberto Werneck estaria escrevendo sobre uma das mais enigmáticas personalidades da cultura brasileira da primeira metade do século passado. Teria mesmo alguém força de vontade para recuperar da sombra do esquecimento personagem tão pouco documentado como o compositor e poeta extremamente bissexto Jayme Ovalle (1896-1955), o paraense tornado figura mitológica da boemia carioca? Werneck estaria realmente empenhado nessa obra ou tudo seria mais um eco do extenso folclore que sempre envolveu o compositor de Azulão?
Leia texto sobre o livro


O santo sujo - a vida de Jayme Ovalle,
de Humberto Werneck
R$ 55
Veja detalhes do livro e compre neste site

O tamanho do “enigma Jayme Ovalle” corresponde bem às proporções da pesquisa empreendida pelo mineiro estabelecido há muito em São Paulo, conforme revela na entrevista a seguir o autor de O santo sujo – A vida de Jayme Ovalle. Volume com texto enriquecido de iconografia com 111 imagens e que a Cosac Naify lança neste mês de julho no palco privilegiado da Festa Literária de Paraty 2008, com uma ponta de indisfarçável orgulho por ter arrebatado item tão cobiçado para o seu catálogo de literatura brasileira e jornalismo literário.


Conte-nos sobre seu interesse em torno de figura tão particular na cultura brasileira; o que lhe chamou a atenção em primeiro lugar e por que se decidiu a iniciar a pesquisa?

Ouço falar de Jayme Ovalle desde a minha adolescência, portanto há muitíssimo tempo... E ele sempre aparecia nas beiradas, citado aqui e ali por outros autores. Creio que a primeira vez que li seu nome foi na epígrafe de um conto, “O suicida”, de Ivan Ângelo, no livro Duas faces, de 1961. Algo assim: “O suicídio é um ato de publicidade – a publicidade do desespero.” A frase foi pinçada de uma famosa entrevista que ele deu a Vinicius de Moraes em 1953 e da qual O santo sujo transcreve um bom pedaço. Dava para perceber que se tratava de um personagem muito interessante, mas sobre ele não havia maiores informações. Como disse na nota que abre O santo sujo, Ovalle era para mim uma luz refletida nos outros, e achar a fonte se tornou para mim um desafio. Espero ter conseguido.

Seu livro O desatino da rapaziada (Cia das Letras, 1992) tangencia o ambiente cultural modernista em Minas Gerais. Já em O santo sujo temos um belo painel da renovação cultural soprada desde o Rio de Janeiro entre os anos 1920 e 1950. Pensa abordar no futuro grupos ou personagens modernistas de São Paulo ou de outras regiões do país, criando um painel dessas eclosões?
Pode até ser que isso aconteça, mas o objetivo que sempre me guiou como escritor é outro: revelar personagens interessantes e contar suas histórias.
 
Quanto tempo calcula ter investido nessa pesquisa? O material estava muito disperso, exigiu-lhe viagens?
O projeto vem de 1991, quando disputei e ganhei uma bolsa da Fundação Vitae. A pesquisa, que levou anos, avançou aos arrancos, ao sabor das folgas – poucas – em meu trabalho como jornalista profissional. Na maioria das biografias, o escritor pode ter alguma dificuldade para chegar ao veio onde se encontra o grosso das informações. No caso de Ovalle não foi assim. Não existia um veio. Praticamente todas as pessoas que o conheceram e poderiam dar depoimentos já estavam mortas. O personagem era como um avião que tivesse explodido há muitos anos – ele morreu em 1955 – e cujos destroços se espalhassem por uma área enorme. Meu trabalho de pesquisa consistiu em catar esses pedacinhos para com eles tentar montar outra vez o avião, um pouco como fazem os técnicos da indústria aeronáutica na tentativa de descobrir a causa de um acidente. Precisei ir incontáveis vezes ao Rio de Janeiro, onde Ovalle viveu a maior parte de sua vida, e, em mais de uma ocasião, aos Estados Unidos, não só para entrevistar sua viúva, a escritora americana Virginia Peckham, e sua filha, Mariana Ovalle, na Califórnia, como para procurar traços dele em Nova York, onde morou de 1946 a 1950. Fui esbarrar até no Zoológico de Londres, atrás de informações sobre um macaquinho que Ovalle doou à instituição em 1934...
 
Além das mais de cinqüenta entrevistas que realizou para o livro, quais foram as principais fontes documentais para a escrever sobre personalidade tão descuidada de sua própria biografia e que até mesmo, quando questionado, confundia por vontade própria fatos que viveu?
A fonte mais importante, além das entrevistas, foram os arquivos de Virginia Peckham, que pude consultar na Califórnia. Além disso, a leitura dos autores que mais escreveram sobre Jayme Ovalle: Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes. Li dezenas de livros, alguns deles enormes, para encontrar três linhas aqui e duas mais adiante, e ir somando os achados. Digamos que o próprio Ovalle não facilitou muito o trabalho do futuro biógrafo, pois adorava inventar histórias, como a de que teria nascido de mãe louca num hospício do Rio de Janeiro. E sempre havia quem acreditasse e passasse a lorota para a frente, semeando versões fantasiosas...

Foi necessário desenvolver algum método especial para separar os fatos históricos e o folclore criado em torno de Ovalle? Qual o ponto que ofereceu mais dificuldade e lhe parece, ainda, obscuro, a ser desvendado?
Um dos trabalhos que tive foi justamente o de confrontar diferentes versões de histórias de Ovalle, na tentativa de separar o que era verossímil e o que era folclore. Em muitos casos, era pura invencionice – por exemplo, a história de que Ovalle, achando que ia morrer dali a dois anos, vendeu tudo o que tinha para aproveitar o tempo que lhe restava, e no final acabou vivendo muito mais. Muitas vezes foi possível descobrir quem contou um conto e quem aumentou um ponto, estabelecendo assim uma espécie de genealogia do folclore. Um exemplo: alguém afirmou que Ovalle tinha vários livros inéditos. Depois apareceu alguém dizendo que havia não apenas originais como uma mala cheia deles – mala que, em relatos posteriores, transformou-se em baús... E, na verdade, tudo o que ele escreveu foram pouco mais de trinta poemas curtos, os “Poemas Ingleses”, e um poema longo, “The Foolish Bird”. Em inglês – língua que Ovalle nunca chegou a dominar –, com a ajuda de uma inglesa e de uma americana, às quais ele tentava passar, num misto de português e inglês, suas iluminações poéticas.
 
Seu livro desenha um painel histórico amplo, desde a reurbanização de capitais no início do século XX até a adoção de hábitos culturais cosmopolitas pelas elites dessas cidades... Houve intenção de alcançar também um patamar didático para o leitor jovem, como em livros de História?
O jornalismo me ensinou a estar sempre preocupado em ambientar uma história, pois não faz sentido pôr o personagem para se mover, seja no tempo, seja no espaço, sobre um fundo neutro. E me ensinou também a dar pedal para o leitor mais jovem que esteja pegando o trem agora, sem grande repertório. O desafio é ser didático sem parecer, o que seria desastroso.
 
O “mito Ovalle” poderia ter existido sem o encontro do músico paraense com o poeta pernambucano Manuel Bandeira? Que influências considera terem exercido um sobre o outro?
Bandeira foi, de fato, o primeiro a registrar a singularidade de Ovalle, seu amigo muito querido. Mas não foi o único, e o “mito Ovalle” provavelmente teria chegado a nós mesmo sem os escritos de Bandeira. Quanto a influências, certamente foram em mão dupla, mas me parece que Ovalle influenciou mais do que foi influenciado — até porque Bandeira deixou obra, e ele, praticamente nenhuma. Assim como Vinicius de Moraes um pouco mais tarde, Bandeira pegou o jeito ovalliano dos diminutivos, ao dizer, por exemplo, num poema, “Jesus Cristinho”. Ovalle não apenas lhe inspirou vários poemas como lhe deu assunto para escrever — por exemplo, o poema em prosa Noturno da Rua da Lapa é o tratamento literário de um caso passado na casa de Ovalle.
 
A intensa e prazerosa boemia que podia ser vivida no Rio naqueles anos teria sido a causa de o personagem ter preferido, por assim dizer, a vida à arte?
Ovalle amava a boemia, mas não creio que tenha sido por se entregar a ela que deixou de cuidar de sua arte. O que se passou com ele, a meu ver, terá sido algo dramático, para não dizer trágico: Ovalle era um artista entupido de arte, mas, por sua formação deficiente, incapaz de pôr essa arte para fora. Não basta ser artista, é preciso ter os meios para destilar o dom em arte.
 
Como localizou figuras inteiramente desconhecidas da cultura brasileira, companheiros de noitadas também bastante inspirados, como Evandro Pequeno e Dodô?
Quando você joga luz num personagem, pode às vezes iluminar outras figuras interessantes que estejam em torno. Dodô, que se chamava Geraldo Barrozo do Amaral, já aparecia nos escritos de Bandeira como “o Bom Gigante”, pois eram companheiros de boemia, e a partir daí tratei de saber mais sobre ele, em entrevistas com familiares seus. Uma figura que marcou época na boemia carioca dos anos 20 e 30. Já o extraordinário Evandro Pequeno é muito menos conhecido, e foi preciso recorrer a muitas fontes para compor sua figura para o leitor. Dodô e Evandro, amicíssimos de Ovalle, companheiros de boemia, são personagens esplêndidos que era indispensável recuperar. Mereceriam muito mais espaço do que pude dar a eles em meu livro.  
 
O desleixo autoral e a constante pilhagem de idéias e obras de Ovalle são contabilizadas capítulo após capítulo em seu livro e raramente o biografado protestou publicamente acerca desses fatos. A que atribui semelhante comportamento?
A não ser em alguns poucos momentos de sua vida, sobretudo nos quatro anos que passou em Londres, de 1933 a 1937 — período em que cuidou de transcrever em partitura as suas músicas, além de escrever a maior parte de sua poesia —, não vejo Ovalle como um artista muito preocupado em edificar e administrar uma obra. Em parte, pelo menos, pela sua já citada incapacidade de pôr para fora a arte que trazia em si. Conhecedor de suas limitações, ele parecia distribuí-la generosamente, sem preocupações de autor. Bandeira e Dante Milano, para citar apenas dois poetas, glosaram motes que Ovalle gerava na mais vadia das conversações.
 
No ambiente cultural contemporâneo seria possível a existência de uma figura próxima do temperamento de Ovalle? Existe alguém que se assemelhe ao menos de longe, seja na música ou na literatura?
Não reconheço em ninguém — falo de pessoas públicas — um Jayme Ovalle do século XXI. Mas pode ser que exista.
 
Você examinou papéis escritos por Ovalle. Seus “garranchos” caligráficos e a aversão à documentação escrita poderiam colocá-lo na condição de um disléxico, que em pensamentos velozes “atropela” a palavra escrita?
Disléxico, não sei. Sua caligrafia, em todo caso, era de quem nunca teve educação formal. Tinha cintilações de gênio, mas também, muitas vezes, uma enorme incapacidade de se expressar até mesmo oralmente — o poeta Augusto Frederico Schmidt, seu amigo íntimo, disse que quando Ovalle abria a boca nunca se sabia se ele conseguiria chegar ao final da frase. Além de não ter passado por escolas, não tinha o hábito de ler, a não ser a Bíblia e os jornais, até mesmo Diário Oficial da União...
 
Que grau atingiu seu envolvimento com o biografado? Sabemos por exemplo que o senhor manteve contato frequente, talvez mesmo uma amizade, com descendentes de Ovalle...
O envolvimento com um biografado cria uma intimidade em mão única que é muito esquisita. Você nunca ter visto a pessoa e no entanto saber que ela gostava de bife bem ou mal passado. Nesse sentido, a fonte mais rica que encontrei foi uma antiga empregada da casa, Maria Oliveira, que me ajudou a reconstituir o dia-a-dia no apartamento da família Ovalle. Entre os parentes, a pesquisa me permitiu conhecer e estabelecer laços afetivos com sua viúva, falecida alguns anos atrás, e sua filha, Mariana, pessoa encantadora e, como o pai, dotada para a poesia e para a música.
 
Que gravações são suas preferidas entre as versões de composições
de Ovalle?

Gosto de várias. Azulão na voz de Eliete Negreiros, de Nara Leão e de Maria Bethânia, para citar apenas três cantoras brasileiras, e também na de Victoria de los Angeles e de Salli Terri, esta acompanhada ao violão pelo brasileiro Laurindo Almeida, no disco Duets of the spanish guitar. Meu livro traz uma discografia que contém uma profusão de jóias ovallianas.
 
Fernando Morais, Zuenir Ventura, Ruy Castro: escritores habilidosos que passaram das páginas dos jornais ao livros e alcançaram tiragens recordes em biografias ou volumes de crônicas reunidas. A que atribui o grande interesse atual por esse tipo de publicação?
As pessoas se interessam por gente e por histórias — e, se isso lhes for servido sob a forma de um texto atraente, tem tudo para dar certo para todo mundo. Falo não só de biografias como de livros de memórias. Quanto à crônica, me parece atender ao desejo do leitor da imprensa de mergulhar em textos mais sensíveis, intimistas, pessoais.
 
Gay Talese e Tom Wolfe, escritores que renovaram o jornalismo literário nos EUA e influenciaram muita gente pelo mundo ainda podem ser considerados referências para a prática do gênero? Ou o estilo deles encontra-se superado pela atual velocidade da informação e globalização?
Precisamos todos da informação veloz, é claro. Mas nossa inteligência e sensibilidade precisam também dos largos remansos em que essa informação seja tratada de forma menos sumária e impessoal, e por isso creio que esse terreno, o do chamado jornalismo literário, nunca será esgotado. O poeta Ezra Pound definia literatura como a notícia que continua a ser notícia. É isso que mantém sem rugas textos jornalísticos que Gay Talese e Tom Wolfe, por exemplo, escreveram tanto tempo atrás.

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