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Foto: PortraetCJim-Rakete |
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| O escritor Ingo Schulze, primeiro autor
de língua alemã convidado pela FLIP |
O REFINAMENTO DA SIMPLICIDADE:
O QUE HÁ POR TRÁS DA PROSA DE INGO SCHULZE
Entrevista para Livia Deorsola
Seus livros já foram vertidos para 27 idiomas e este
fato faz com que sua literatura e seus inconfundíveis
cabelos cacheados sejam conhecidos em muitos países.
O motivo: Ingo Schulze, nascido na Alemanha Oriental, é
apontado como um dos melhores escritores da Europa contemporânea;
cidadão do mundo, mantém o hábito de
viajar a muitos lugares para fazer leituras públicas
de suas criações. Autor de Celular, 13 histórias
à maneira antiga, lançado pela Cosac Naify,
Schulze é o primeiro escritor de língua alemã
a ser convidado para a FLIP - Festa Literária Internacional
de Paraty.
Celular é o segundo livro do
autor editado no Brasil - antes viera Histórias
simples da Alemanha Oriental (Lacerda, 2002). Além
disso, um de seus contos integra a coletânea Contando
histórias, organizada por Nadine Gordimer (Cia
das Letras, 2007) - aqui Schulze está acompanhado por
José Saramago, Gabriel García Márquez,
Günter Grass e Kenzaburo Oe. E seu romance Neue leben
("Novas vidas", de 2005) será o próximo
lançamento do autor no país, pela Cosac Naify.
Ganhador de prêmios importantes - Celular
foi considerado o melhor livro de ficção na
Feira de Leipzig de 2007 - Schulze tornou-se fundamental para
a história da literatura alemã contemporânea
por mostrar de forma original a transformação
na vida de ocidentais e orientais após a queda do Muro.
Dono de uma narrativa em que acontecimentos prosaicos revelam
tramas habilmente costuradas e refinamento literário,
na entrevista a seguir ele comenta este peculiar sabor de
suas histórias.
O título Celular, seguido do subtítulo
"13 histórias à maneira antiga", sugere
pensar nas imbricações entre passado e presente.
Como você trabalha estas duas instâncias no livro?
Para mim se trata de contar algo sobre um lugar e um certo
tempo, porque eu tenho a esperança de poder acrescentar
algo sobre nós nas antigas histórias de amor
e de morte. Cada nova experiência modifica também
a imagem que tenho do passado. O passado, portanto, não
é algo fixo, definido. Por outro lado, minhas vivências
e percepções atuais estão marcadas pelas
experiências passadas. Existe uma relação
entre ambas e disso vive a literatura.
Contando histórias (Cia das Letras, 2007)

Histórias simples da Alemanha Oriental (Lacerda, 2002)
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As histórias de Celular foram escritas
em épocas diferentes de sua vida. O que há de
comum entre os 13 contos e o que mudou ao longo desse tempo?
É essa diferença de tempo que importa, na verdade.
Os primeiros seis contos surgiram entre 1998 e 1999, um já
era de 1996, os outros - que são a maior parte do livro
- escrevi em 2006. Eu espero que nas histórias mais
recentes seja possível perceber que o mundo já
mudou. Para a Alemanha, isso infelizmente significa uma crescente
polarização da sociedade sob todos os aspectos,
uma "economização" de todas as instâncias
da vida. Nos tempos do celular, ou seja, a partir da segunda
metade dos anos 90, de repente nos vemos diante de problemas
que antes nunca tiveram muita importância. Para as pessoas
na Alemanha de hoje, ficou mais difícil sobreviver
com dignidade. Isso não era um problema tão
grande no início da década de 90.
Celular é aberto
com um verso da poeta austríaca Friederike Mayröcker:
"Então um dia se seguiu ao outro sem que as questões
fundamentais da vida tivessem sido solucionadas". Como
o prosaico pode tornar-se transcendental na literatura?
A gente sempre começa a narrar - tanto na literatura
como em qualquer conversa no ônibus ou em casa - quando
acontece algo conosco que desvia o curso esperado das coisas,
quando existe uma ruptura, uma fenda no cotidiano, deslocando
até a nossa própria perspectiva. Talvez a literatura
seja, então, o momento em que se reconhece o quanto
uma experiência aparentemente sem importância
pode ser universalmente significante.
Em tempos de globalização e de informação
veloz, você viaja muito para falar sobre seus livros,
fazer leituras públicas. Por que acredita que este
contato mais próximo com os leitores ainda é
tão importante?
É claro que viajo sobretudo com o intuito de conseguir
despertar mais atenção para os meus livros -
de outro modo, a editora com certeza não me convidaria.
Mas para mim isso é um presente duplo. Eu posso ver
o novo lugar em que o próprio trabalho se encontra.
De repente, em um conto ou em um romance, algo que antes quase
ninguém notava pode se tornar importante. Eu conheço
até mesmo meus próprios livros através
dos leitores, e quanto mais leitores eu tenho, quanto mais
são diferentes suas experiências, tanto mais
serei surpreendido e presenteado com um comentário
inesperado.
Em "Mil histórias não bastam",
você apontou a perda de influência das artes na
sociedade alemã pós 1989. A literatura, o teatro,
a música haviam "se degradado em meros elementos
decorativos". Como avalia a situação atual?
Antes de 1989, na época da Guerra Fria, cada palavra
era extremamente importante, no bom e no mau sentido. Depois
de 89, de repente parecia que na Alemanha Oriental as palavras
não tinham mais qualquer influência sobre o mundo,
como se só existissem soluções econômicas
para as ditas "questões de força maior".
É claro que isso está errado. Hoje se trata
novamente de fazer perguntas de fato fundamentais. Pois também
o "melhor dos mundos" se baseia em acordos, combinações,
em ideologia. A economia, o mercado em si, também são
possíveis apenas através de um punhado de acordos.
Eu penso que os tempos atuais não são ruins
para a literatura, que novamente se torna fundamental. Isso
significa apenas, no fim das contas, que ela ganhou o seu
nome, ou seja, que de fato é literatura.
Os filmes Adeus Lênin! (2003) e A
vida dos outros (2006), que alcançaram bom sucesso
no Brasil, tratam ora com humor e leveza, ora com olhar crítico
a história da Alemanha Oriental. Você se identifica
com esta maneira de lidar com o assunto?
Ambos os filmes estão cheios de clichês, e creio
que este seja o problema deles. Na minha própria vivência
- e espero que também em meus livros - os sentimentos
do trágico ou cômico andam sempre juntos, de
modo intenso. Não é possível separar
um do outro. É assim que vivencio o mundo, são
sempre as duas coisas.
Você atuou como dramaturgo e jornalista. De
que forma isso influenciou sua maneira de revelar o mundo
a partir da literatura?
Isso precisa ser avaliado de outro modo. Eu comecei como jornalista
e terminei como homem de negócios. Esta realmente não
foi a melhor fase da minha vida, mas foi uma fase bem importante.
Primeiro eu era como o Sol, tentava de certa forma revelar
o mundo a partir da minha imutabilidade - mas isso nunca funcionou
comigo. Depois eu era o Sputnik, alguém que sempre
tenta se colocar de modo diferente com relação
a alguma coisa, que tenta gerar ressonância. A partir
dessa postura, pude então escrever.
Você é um dos autores convidados da
FLIP 2008. Conhece algo da literatura brasileira? Admira algum
escritor em especial?
Guimarães Rosa foi muito importante para o meu romance
Neue Leben [Novas Vidas, 2005]. Mas naturalmente
conheço bem pouco a literatura brasileira. Há
Jorge Amado, claro, que era bastante editado já na
Alemanha Oriental. Acaba de sair uma nova tradução
do Memorial de Aires, de Machado de Assis. Li alguns
livros de Clarice Lispector, Antônio Torres e Ignácio
de Loyola Brandão.
Também espero poder ler em breve, em alemão,
o primeiro romance do meu tradutor, Marcelo Backes. Estou
bastante curioso.
[Tradução da entrevista por Julia Bussius]
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