PÁGINA INICIAL


 

 

 

LEZAMA LIMA E INIMIGO RUMOR

Os primeiros números de Inimigo Rumor traziam uma nota explicando que o nome da revista tinha sido extraído da obra de Lezama Lima, que assim batizou um de seus livros de poemas. O nome pareceu, desde o primeiro instante, e continua parecendo, uma excelente definição de poesia. Neste número de aniversário, a retribuição a Lezama se dá na forma da publicação de uma tradução coletiva de seu poema "Duas famílias", que tem ligação diretíssima com o Brasil. "Duas famílias" [20ª edição] está incluída naquele que talvez seja a grande coletânea poética do cubano,
Fragmentos a su imán.



DUAS FAMÍLIAS

Lezama Lima | Cuba

Seu pai, um "diplomata de carreira",
como ele dizia para diferenciar-se
do aluvião de dissimulados politicians,
claro que com uma clássica displicência modesta.
Foi ao Brasil,
ali onde uma noz parece um coco
e a mortinha se banha em uma praia.
Pensava sem remissão nos galanteios
de Talleyrand e nas condecorações
de Metternich, com bigodes grisalhos
e sentado sempre no centro da mesa.
Ali se casou com uma brasileira,
de uma família que havia sido protetora do Aleijadinho.

Ao morrer, muito jovem, deixou uma filha de sete anos.
Depois o padrasto foi embaixador na Suécia,
ela se lembrava de ter vivido em uma casa
toda rodeada de janelões
onde a neve resvalava bem devagar
capturando a varejeira.
Depois estudaria num sombrio internato do Sacré-Coeur.
Quando a surpreenderam com um livro de Musset,
com discreta surpresa recebeu a notícia de sua expulsão.
E sua mãe chorava diante de uma monja
inexorável, coberta com uma flamejante máscara de ferro.
A "petit Louise" lançava seus olhos mais além da janela,
onde uma abelha rosada vibrava
mais leve que o ar,
apoiando-se na cabecinha de uma girafa
bem distante, tão distante que não ouvia que lhe perguntavam
por sua saúde ou seus alfinetes.

Passaram depois a Viena,
eram os dias da estréia do Terceiro Homem
e os encanamentos estavam musicalizados por Mozart,
enquanto o gato nos reconhecia
pelos cadarços dos sapatos.
a "petit Louise" cursava o bacharelato,
obviamente em um colégio
de quatorze sílabas racinianas.
Sua mãe virava-lhe os dedos,
cortava-os com uma tesoura de prata,
cera macia os recompunha,
como se fosse esgrimir com o espadim
da rainha do século XVIII .
Um médico psiquiatra, jovem analista,
não exageradamente delicado, não muito presunçoso,
apaixonou-se pela garota
que se escondia atrás das poltronas
e perguntava onde estou?
Sentiu-se então transparente,
não podia tocar-se,
nem contemplava sorrindo a grande porta rococó do colégio.
Disse à mãe
que lhe desse uma vassoura para varrer
essa pedra que havia posto
ao lado de sua cama.
Assim teve sua primeira visão da morte,
um estuque de ébano,
com um estilete discreto.
Sentia frio, a menina, e queria tremer,
mas não podia e o medo não avançava por seus braços.
Sentia frio e andava com os seios nus.
Se alguém dizia
à sua mãe que era brasileira,
ela exibia seus modelos Christian Dior
e extremava seus finais de frase.
Queria ter a pronúncia de uma flor de Renoir,
ou de um nu de Manet,
ou aquelas músicas de Ravel
que não tinham nada de jazz.
Mas seus olhos eram negros
como quem olha uma praia
e acordava cantado
as marchinhas de carnaval que quando menina
ouvia cantar a velha cozinheira.
Quanto estava a sós
e se olhava no espelho,
colocava um grande laço vermelho,
como uma mariposa de Pernambuco
pousada em seus cabelos.
Acreditava-se mais francesa que madame Du Deffand,
a tradutora de Newton,
a amiga de Voltaire.

A "petit Louise" foi a Londres,
suas chaminés como um dedo dourado,
cortado em fragmentos empilhados.
Os ruivos a faziam rir,
como se visse um gato cor-de-rosa
ou uma colherinha de açúcar
que entrasse pelo nariz.
A delicadeza de Shelley
se debilitara em rapazes
lânguidos e ágeis como gazelas.
Ali conheceu um autor teatral,
cubano com seis anos de Espanha.
Ele mostrou à francesinha
a segunda natureza, o combate
dos espelhos com suas frotas
cheias de bandeiras e saudações
matinais. As frotas se chocavam
quebrando o espelho.
As personagens saltavam das lunetas
para o centro do proscênio,
todos se conheciam desde o assassinato
de Júlio César, mas não se cumprimentavam
para não acordar, adormecidos
davam as mãos,
como se as afundassem numa piscina
e começassem a nadar.

Ele a tornou cubana
e foram a Pinal del Río
dormir sobre a maciez
carnal das folhas de tabaco.
Era uma carne universal
que a levou de volta à França.
Em uma excursão ao vale pinareño
viu um colibri morto de êxtase.
Seu bico se afundava no pólen açucarado
e parecia tanto mais vivo e colorido
quanto mais morto.
Ali aprendeu a "petit Louise"
que a morte é um êxtase,
que a vida consiste em dormir
envolta na carne das folhas de tabaco,
na evaporação universal.