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INIMIGO RUMOR COMEMORA 10 ANOS DE TRAJETÓRIA

por Heitor Ferraz Mello

No Brasil, é raro uma revista de poesia chegar ao vigésimo número, e com dez anos de existência. Pouquíssimas também conseguem manter tal regularidade. O mais comum é a revista nascer, intervir na cena poética, e pouco depois desaparecer. Inimigo Rumor é um desses casos raros. Chegou em janeiro de 1997. Vinha com o selo da editora Sette Letras (hoje 7Letras) e não trazia nenhum editorial, nenhum manifesto poético declarado. A revista juntava num mesmo miolo um coro de vozes importante, mas que até então poucas vezes podia ser visto em contraste e diálogo.

Editada inicialmente pelos poetas Carlito Azevedo e Júlio Castañon Guimarães, o primeiro número reunia poemas inéditos de Haroldo de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, entre outros. Como lembra Carlito Azevedo, não era necessário um editorial: a própria escolha do material publicado já era uma carta de intenções. "Confio bastante na capacidade dos poemas e dos ensaios selecionados, e na montagem final, dizerem o que tem que ser dito". Para o público leitor, esses nomes, os ensaios e os poemas traduzidos - de diversas partes do mundo - constituíam em si uma intervenção no meio poético.

Desta forma, a Inimigo abria caminho para a leitura atualizada desses autores de vozes tão diferentes, mas de extrema importância para as gerações mais recentes. A única nota editorial da revista era a seguinte: "Com periodicidade quadrimestral, a revista Inimigo Rumor, cujo título provém de um livro de poemas de Lezama Lima, Enemigo Rumor [veja texto neste site], destina-se, preponderantemente, à publicação de poemas e de textos críticos ou documentais referentes à poesia".

Tudo estava dito. A partir daí a revista procurou se estabilizar mantendo uma periodicidade, inicialmente quadrimestral e atualmente semestral. Em 1999, após a saída de Castanõn, Augusto Massi passou a co-editar a revista com Azevedo. Posteriormente foi criado um novo conselho editorial contemplando a entrada de poetas portugueses.

A parceria com Portugal, por meio das editoras Cotovia e Ângelus Novus, durou cinco números, de 2001 a 2003 (dos números 11 ao 15). Ainda no número 14, surgiu também a parceria com a editora Cosac Naify, possibilitando uma maior distribuição da revista e aumento de sua tiragem (dos 500 exemplares do início para os 1500 atuais). Depois disso, foi criado um comitê editorial, composto por poetas colaboradores da Inimigo e que permanece atuante até hoje.

Desde o princípio, a revista se pautou por uma composição de autores de diversas linhas de pensamento e de atuação. Para Azevedo, ela funciona como um aglutinador de uma produção poética e de reflexão que não encontram lugar em livro. "À s vezes o sujeito traduz dois ou três poemas de um Henri Michaux, de um Umberto Saba, e não tem onde publicar, não pode nem procurar uma editora porque as poucas que publicam poesia só vão se interessar por um livro inteiro." Segundo ele, esta intervenção, publicando "uma dose bastante intensa de poesia não-regressiva, de formas não-regressivas de se pensar a poesia", poderia "provocar alguma turbulência na cena poética brasileira, na produção por vezes meio pacificada, meio bem-comportada demais, que nos cercava".

Nestes dez anos, alguns números naturalmente se destacaram. A edição de setembro-dezembro de 1997, terceiro número da Inimigo , reunia uma série de poemas de Ferreira Gullar, publicados esparsamente em revistas e jornais, e dois inéditos. Percebia-se, pela leitura dos poemas, que ali estava surgindo um novo livro de Gullar. "Ele parecia estar distinguindo com muita nitidez o que era essencial", escrevia Azevedo na apresentação da revista. E foi o que aconteceu, com a publicação de Muitas vozes . Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de publicar, do mesmo modo, poemas de Francisco Alvim, que saíram na edição 6, de janeiro-julho de 1999. Era o Elefante de Alvim que dava seus primeiros e polêmicos passos.

Entre outros números especiais, destacam-se o número 7, apresentando cinco novos poetas argentinos, indicados por Aníbal Cristobo, que se tornou um membro efetivo da revista, traduzindo e trazendo poemas de autores hispano-americanos pouco divulgados no Brasil; o número 8, com uma antologia de poemas de Cacaso, incluindo fragmentos do inédito "Canudos - uma epopéia nos sertões"; o número seguinte, de novembro de 2000, com uma antologia da poesia portuguesa, que revelava para o público brasileiro poetas como Adília Lopes, que passou a ter uma importância cada vez maior no corpo da revista, tornando-se uma referência poética para muitos dos jovens autores brasileiros. A partir dos números 16 e 17, a revista passou a dar destaque aos novos poetas brasileiros. Foi uma forma de valorizar um trabalho que vinha sendo feito desde o princípio da Inimigo , que sempre publicou autores novos e inéditos, assim como sempre procurou resgatar poetas importantes do sistema literário brasileiro, como Eudoro Augusto, Zuca Sardan e outros.

Para este número de aniversário - o 20 - que sai agora, mantendo firme a parceria Cosac Naify e 7Letras, a revista traz muitas novidades para o leitor. A primeira é um polêmico ensaio da crítica literária Flora Sussekind sobre Paulo Leminski, que também aborda aspectos da obra de Ana Cristina César e Cacaso. A poesia brasileira mais recente também passa pelo crivo de um crítico afiado. No ensaio "Primeiras impressões e segundas intenções da crítica diante de certa poesia contemporânea" Leonardo Martinelli analisa livros recentes de jovens poetas, como Marília Garcia e Fabrício Corsaletti.    

Na seara dos ensaios clássicos, a Inimigo Rumor 20 traz "A crise do verso", de Mallarmé, texto muito citado em estudos de poesia, mas que ainda não tinha sido traduzido integralmente no Brasil. Vale lembrar aqui que a revista sempre se pautou pela necessidade de editar ensaios fundamentais, como "As flores do mal e o sublime", de Erich Auerbach (nº8), "T.S. Eliot", de Antonio Candido (nº9), "Comentário aos poemas de Brecht", de Walter Benjamin (nº11), "Três poemas sobre o êxtase", de Leo Spitzer (nº12), e "Os confins da poesia", de Alfonso Berardinelli (nº14), para citar alguns.

Ainda neste novo número a revista traz um dossiê sobre fotografia, incluindo textos de Paul Valéry, Roberto Bolaño, uma entrevista com Man Ray e uma seleção de trabalhos de fotógrafos contemporâneos. Como lembra Carlito Azevedo [leia entrevista neste site], a revista pretende "m isturar poesia, música e artes plásticas, mas não com uma intenção puramente ornamental. Pensar e experimentar, experimentar e pensar. A poesia não pode ser furtar ao emaranhamento com esses 'aliados substanciais', para usar a expressão de René Char."

LANÇAMENTOS

Rio de Janeiro - Sábado, 26 de abril DE 2008, 10h
Livraria Berinjela
Av. Rio Branco, 185 - Subsolo - Loja 10
Tel (21) 2215 3528

São Paulo - Terça-feira, 29 de abril DE 2008, 20h
Bar Balcão
R. Dr. Melo Alves, 150
Tel (11) 3063 6091

Belo Horizonte - Sábado, 10 de maio DE 2008, 12h
Livraria e Editora Scriptum
Rua Fernandes Tourinho, 99 - Funcionários
Tel (31) 3223 1789