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Ilustração de Fernando Vilela

UM ENCONTRO LENDÁRIO

O que poderia acontecer se o nosso famoso cangaceiro do sertão nordestino se encontrasse com um dos cavaleiros medievais da Távola-Redonda do Rei Arthur? A idéia deste embate mais do que inusitado fez com que o ilustrador, e agora autor, Fernando Vilela compusesse uma obra extremamente original, em que Lampião desafia Lancelote a um verdadeiro “duelo” (para o cangaceiro uma “justa”) que se dá na forma de um repente nordestino.

O fato é que cada um usará de sua linguagem, com seu léxico particular, para responder ao outro. É assim que Vilela mescla dois universos distantes, tanto no que tange ao texto quanto às ilustrações. Aquele, é versado na sextilha de cordel e narrado em prosa, no tom das novelas de cavalaria; uma mistura interessante, que confere humor e uma certa malícia ao texto. As imagens refletem o ambiente sertanejo pelas xilogravuras e o medieval pelo carimbo e desenhos inspirados em iluminuras e pinturas renascentistas.

Esta mistura aparece ainda no prateado e no cobre, as cores especiais escolhidas para indicar um e outro personagem. Nestes tons reluzentes se estende o confronto entre os heróis: o cobre, para os detalhes das indumentárias, as balas e moedas de Lampião e o prata para as vestes e armas de Lancelote. O brilho das cores preenche as páginas, contrastando com o negro. Ao abrir este livro de dimensões grandes, como dos antigos livros de história, o leitor se depara com verdadeiros quadros, de uma beleza plástica deslumbrante.

 


Veja ficha técnica e link para compra neste site

O embate, afinal, é acima de tudo cultural: dois universos totalmente distantes no tempo e no espaço, colocados frente à frente em uma espécie de lenda pós-moderna.

Lampião & Lancelote traz ainda um glossário de termos e um texto explicativo sobre as referências de Vilela para desenvolver esta obra grandiosa, no tamanho e no talento. O resultado, como diz Braulio Tavares no texto de quarta-capa, “é uma aventura visual e poética à altura das duas culturas que a inspiraram”.

Os primeiros 50 exemplares comprados neste site são autografados pelo autor.

LANÇAMENTO

Sábado, 12 de agosto, às 15h00
Livraria HAIKAI
Rua Armando Penteado, 44 - Praça Vilaboin
Tel. (11) 3663 4616

LEIA ENTREVISTA COM FERNANDO VILELA

De onde e como surgiu a idéia do encontro entre Lampião e Lancelote?

Acho que surgiu da minha paixão por Lampião, este bandido-herói do nosso sertão brasileiro, e do encanto que sempre tive pelo cavaleiro Lancelote. Foi uma fantasia que surgiu entre uma respirada e outra, de idéias que estão no ar. Pareceu instigante possibilitar o encontro desses dois guerreiros que, de certa forma, trazem com eles suas culturas diversas.

Como operar a mistura destes dois registros: a novela de cavalaria e a literatura de cordel? Qual foi o caminho percorrido para criar o contato entre dois mundos tão distintos?


Xilogravura de cordel popular

  Em primeiro lugar, foi o meu envolvimento com literatura de cordel e o universo da xilogravura popular no qual ela está inserida. Como trabalho com a gravura em madeira há muitos anos, este universo é muito familiar. A arte do improviso dos repentistas foi também uma fonte de inspiração.


Por outro lado, os contos e lendas da Távola-Redonda povoavam minha imaginação desde a infância, por meio de livros e filmes sobre Rei Arthur e Lancelote.
Creio que estes dois mundos têm um imaginário comum. Os personagens deste livro são dois guerreiros de feitos heróicos, ambos têm uma grande sofisticação: Lancelote pelo seu porte de nobre cavaleiro, armaduras prateadas gravadas em metal, espadas forjadas, mantos com estampas desenhadas. E Lampião cria um outro tipo de sofisticação: nos seus adornamentos, nas roupas e armas. Sabemos que ele usava perfumes franceses, anéis de ouro, punhais com pedras preciosas. Era amante da música, tocava e compunha. Foi o "estilista" principal do seu bando.
Aproximei-me pouco a pouco do universo destes dois personagens e iniciei uma pesquisa plástica, por assim dizer, do universo da cavalaria medieval e do cangaço brasileiro.

Quais foram as principais referências iconográficas pesquisadas para criar as ilustrações? Como ocorreu o processo de pesquisa para o livro?

Entrar em contato com as verdadeiras indumentárias dos cangaceiros, na coleção de Frederico Pernambucano de Mello (exposta na Mostra do Redescobrimento, Brasil 500 anos), foi uma grande experiência. Os cordéis sobre Lampião que comecei a colecionar (enviados pelo amigo João Caldas) e a pesquisa de xilogravuras populares que realizo há algum tempo, foram importantes referências para o universo do personagem Lampião.

Nas últimas viagens a trabalho para o exterior, aproveitei para visitar as grandes coleções de armaduras e armas da Idade Média e fotografá-las (como no Museu Metropolitan, de Nova York). Os gabinetes de estampas da Biblioteca Nacional de Paris e as gravuras e coleções de iluminuras (livros manuscritos e ilustrados) medievais da British Library contribuíram muito para a pesquisa iconográfica de Lancelote.
Recolhi este material e fui desenhando a partir dele. Busquei criar uma linguagem própria para as ilustrações, mantendo um diálogo com as imagens da pesquisa.

 

foto: Valentino Fialdino

Chapéu de couro de chefe cangaceiro, da coleção Frederico Pernambucano



Armadura de cavaleiro no Museu Metropolitan de Nova York (foto de Fernando Vilela)

Você já ilustrou uma série de livros, porém esta é sua estréia como autor. Quais foram as referências literárias utilizadas para elaborar os textos em verso e prosa?

Sem dúvida foram a literatura de cordel e as novelas de cavalaria. Inicialmente pensei em trabalhar só com verso, pois quando li a Divina comédia, de Dante, tive a idéia de utilizar aquela métrica para narrar os momentos de Lancelote e suas falas. Depois concluí que o texto ficaria mais vivo se eu utilizasse a métrica tradicional do cordel nos diálogos dos personagens (até pelo fato de o duelo acontecer no Nordeste brasileiro), deixando para usar a prosa na travessia de Lancelote.
Estudei a origem do cordel brasileiro para entender como ele chegou ao País. Descobri que ele vem da Europa, mais especificamente de Portugal e Espanha.

Explique um pouco sobre as técnicas utilizadas: os carimbos esculpidos na borracha e a xilogravura. Como essas técnicas dialogam com o universo de cada personagem?

Os carimbos são gravuras feitas em borracha escolar comum. Todos os personagens são construídos com esta técnica. Mas os módulos (estampa de carimbo) possuem elementos do universo de cada personagens: as estampas de Lampião possuem os motivos dos bonáis, dos desenhos decorativos das roupas, dos chapéus e armas. Já as estampas de Lancelote, têm desenhos de tecidos medievais, gravações decorativas de armaduras (a do elmo da capa do livro, por exemplo), desenho de diferentes elmos e pontas de lança, bandeiras etc.
A xilogravura foi usada mais como fundo do Nordeste e em alguns momentos em Lampião, pois sua linguagem é simples, preta, árida, e tem a dureza da caatinga nordestina.


Estudo de Fernando Vilela para o livro

Por que você optou pelo uso das cores cobre e prata?

O uso de cores reflexivas, como o dourado e prateado, é recorrente nos manuscritos medievais (as chamadas iluminuras). Além de elementos decorativos, muitas vezes os fundos dourados das imagens representam o espaço divinizado. No livro, usei a cor prata para representar Lancelote, pois sua reluzente armadura só poderia ter esta cor. As batalhas medievais deveriam refletir a cor metálica todo o tempo, se pensarmos nas armas todas forjadas.
O cobre foi a cor escolhida para Lampião, por causa de seus adornos e indumentárias: moedas, anéis, punhais. Na “alta costura” do cangaço o metal era imprescindível. O ouro era o que eles roubavam. Além disso, a luz do Nordeste lembra um cobre refletido no horizonte seco.


Estudo de Fernando Vilela para Lampião & Lancelote

SOBRE O AUTOR E ILUSTRADOR

Fernando Vilela é artista plástico, designer, educador, além de escrever e ilustrar livros. Por sua primeira obra para crianças, Ivan Filho-de-Boi (Cosac Naify, 2004), escrito por Marina Tenório, ganhou o prêmio Revelação Ilustrador 2004, da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Em 2005, participou da Bienal Internacional de Ilustração de Bratslava, na Eslováquia. Como artista plástico, já realizou diversas exposições no Brasil e no exterior.

Visite o site do autor no www.fernandovilela.com.br

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Ivan Filho-de-Boi, de Marina Tenório; ilustrado por Fernando Vilela

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