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VG Bild-Kunst/ Autvis

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O MAL DE MONTANO: A VIDA ATRAVÉS DA LITERATURA

Publicado na Espanha em 2002, O mal de Montano venceu, naquele mesmo ano, o prêmio Herralde de Melhor Romance e, no ano seguinte, na mesma categoria, o prestigiado Médicis, que consagrou definitivamente Enrique Vila-Matas como uma grande estrela da literatura contemporânea mundial.



O mal de montano
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Em A viagem vertical, seu primeiro título lançado pela Cosac Naify, em 2004, Vila-Matas reconstrói a viagem sem fim do narrador rumo a um novo destino e a uma nova concepção de si mesmo, compondo um enredo que flui naturalmente e criando vínculos emocionais entre o personagem e o leitor. E se em Bartleby e companhia, também lançado pela Cosac Naify em 2004, o escritor parte para um romance experimental, em que cataloga os mais variados perfis do que chama de "escritores do Não", isto é, aqueles que estabelecem uma relação doentia com sua própria obra e a negam, reunindo por meio de verbetes independentes e compondo uma curiosa galeria, em O mal de Montano o que se encontra é a síntese inspirada entre o romance de formato mais tradicional e o romance experimental.

A história começa com o narrador, um crítico literário, indo visitar seu filho, Montano, escritor vítima de um terrível bloqueio criativo. Porém, a causa deste bloqueio é a interpenetração constante de outras vozes literárias em seu imaginário, como se a todo o momento a literatura invadisse sua percepção da realidade. Ao dar-se conta disto, o próprio narrador percebe ser, a seu modo, vítima do mal de Montano. Também ele vê tudo sob o prisma da literatura.

Porém, após um primeiro momento de auto-recriminação, e de resistência a esse "mal", o narrador percebe que sua doença é, na verdade, uma chance de cura para o gradual esvaziamento do universo literário contemporâneo, que padece de um exacerbado mercantilismo, seja por parte das editoras, seja por parte dos próprios escritores. Todos os que o praticam, diz o narrador, são "as toupeiras kafkianas", que conspiram para minar a arte do escritor. Ver tudo sob a óptica da literatura seria então, de certa forma, recolocá-la no centro da vida.

"Não só não me asfixia a literatura como também penso que é uma indignidade ter de pedir desculpas por ser tão literário, (...) carrego ultimamente a responsabilidade de lutar contra a morte da literatura", diz o narrador.

A partir daí, o livro reembaralha as fichas e o narrador se reinventa, fundindo ficção, autobiografia e ensaio. É nesse momento que Vila-Matas recupera, de passagem, a técnica dos verbetes sobre seus escritores-ícone, já utilizada em Bartleby e companhia, mas aqui exclusivamente voltada para autores de diários íntimos (ou seja, para aqueles que também fundem inextricavelmente vida e literatura), bem como se dá ao direito de discorrer sobre temas contemporâneos, até certo ponto de forma independente da trama propriamente dita, que não obstante jamais se interrompe.

Relato envolvente e multifacetado, que mistura autobiografia e autoficção, O mal de Montano confunde o leitor para torná-lo consciente do próprio fazer literário. Se O mal de Montano é o sofrimento de um excesso de influência da literatura sobre a vida, é esse mesmo "mal" que acabará possibilitando a sobrevivência dos temas e modos da grande literatura ocidental. A um só tempo veneno e antídoto, a literatura acabará permeando e dando sentido à sua vida.

O mal de Montano é uma máquina de ironia que evita o demagógico e celebra o tempo todo a riqueza e a força da literatura. Para isso conta com a criação de personagens notáveis como Rosa, Rosário Girondo e o inacreditável Tongoy, um Nosferatu transformado em Sancho Pança ao se fazer fiel escudeiro deste Quixote da literatura que é o narrador, além de um espírito de peripécia que leva o autor a viajar por meio mundo, passando por Chile, Barcelona, Açores, Budapeste etc.

Vila-Matas afirma crer na utopia da literatura porque ela nos oferece uma linguagem alternativa "à tirania das linguagens da política, do trabalho e da família", além de nos revelar que "a maneira como existe a realidade hoje não tem porque ser a única possível". O mal de Montano é, nesse sentido, o livro que melhor resume e ilustra sua crença.

SAIBA MAIS SOBRE VILA-MATAS

O AUTOR NA COSAC NAIFY:

Paris não tem fim
[Leia texto sobre o livro]


A viagem vertical
[Leia texto sobre o livro]


Bartleby e companhia
[Leia texto sobre o livro]



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