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Revolucionários (Berlim,
1928), de A. Sander, capa de O mal...
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O MAL DE MONTANO: A VIDA ATRAVÉS
DA LITERATURA
Publicado na Espanha em 2002, O mal de Montano venceu,
naquele mesmo ano, o prêmio Herralde de Melhor Romance
e, no ano seguinte, na mesma categoria, o prestigiado Médicis,
que consagrou definitivamente Enrique Vila-Matas como uma
grande estrela da literatura contemporânea mundial.
Em A
viagem vertical, seu primeiro título lançado
pela Cosac Naify, em 2004, Vila-Matas reconstrói a
viagem sem fim do narrador rumo a um novo destino e a uma
nova concepção de si mesmo, compondo um enredo
que flui naturalmente e criando vínculos emocionais
entre o personagem e o leitor. E se em Bartleby
e companhia, também lançado pela Cosac
Naify em 2004, o escritor parte para um romance experimental,
em que cataloga os mais variados perfis do que chama de "escritores
do Não", isto é, aqueles que estabelecem
uma relação doentia com sua própria obra
e a negam, reunindo por meio de verbetes independentes e compondo
uma curiosa galeria, em O mal de Montano o que se
encontra é a síntese inspirada entre o romance
de formato mais tradicional e o romance experimental.
A história começa com o narrador, um crítico
literário, indo visitar seu filho, Montano, escritor
vítima de um terrível bloqueio criativo. Porém,
a causa deste bloqueio é a interpenetração
constante de outras vozes literárias em seu imaginário,
como se a todo o momento a literatura invadisse sua percepção
da realidade. Ao dar-se conta disto, o próprio narrador
percebe ser, a seu modo, vítima do mal de Montano.
Também ele vê tudo sob o prisma da literatura.
Porém, após um primeiro momento de auto-recriminação,
e de resistência a esse "mal", o narrador
percebe que sua doença é, na verdade, uma chance
de cura para o gradual esvaziamento do universo literário
contemporâneo, que padece de um exacerbado mercantilismo,
seja por parte das editoras, seja por parte dos próprios
escritores. Todos os que o praticam, diz o narrador, são
"as toupeiras kafkianas", que conspiram para minar
a arte do escritor. Ver tudo sob a óptica da literatura
seria então, de certa forma, recolocá-la no
centro da vida.
"Não só não me asfixia a literatura
como também penso que é uma indignidade ter
de pedir desculpas por ser tão literário, (...)
carrego ultimamente a responsabilidade de lutar contra a morte
da literatura", diz o narrador.
A partir daí, o livro reembaralha as fichas e o narrador
se reinventa, fundindo ficção, autobiografia
e ensaio. É nesse momento que Vila-Matas recupera,
de passagem, a técnica dos verbetes sobre seus escritores-ícone,
já utilizada em Bartleby e companhia, mas
aqui exclusivamente voltada para autores de diários
íntimos (ou seja, para aqueles que também fundem
inextricavelmente vida e literatura), bem como se dá
ao direito de discorrer sobre temas contemporâneos,
até certo ponto de forma independente da trama propriamente
dita, que não obstante jamais se interrompe.
Relato envolvente e multifacetado, que mistura autobiografia
e autoficção, O mal de Montano confunde
o leitor para torná-lo consciente do próprio
fazer literário. Se O mal de Montano é
o sofrimento de um excesso de influência da literatura
sobre a vida, é esse mesmo "mal" que acabará
possibilitando a sobrevivência dos temas e modos da
grande literatura ocidental. A um só tempo veneno e
antídoto, a literatura acabará permeando e dando
sentido à sua vida.
O mal de Montano é uma máquina de
ironia que evita o demagógico e celebra o tempo todo
a riqueza e a força da literatura. Para isso conta
com a criação de personagens notáveis
como Rosa, Rosário Girondo e o inacreditável
Tongoy, um Nosferatu transformado em Sancho Pança ao
se fazer fiel escudeiro deste Quixote da literatura que é
o narrador, além de um espírito de peripécia
que leva o autor a viajar por meio mundo, passando por Chile,
Barcelona, Açores, Budapeste etc.
Vila-Matas afirma crer na utopia da literatura porque ela
nos oferece uma linguagem alternativa "à tirania
das linguagens da política, do trabalho e da família",
além de nos revelar que "a maneira como existe
a realidade hoje não tem porque ser a única
possível". O mal de Montano é,
nesse sentido, o livro que melhor resume e ilustra sua crença.
SAIBA
MAIS SOBRE VILA-MATAS
O AUTOR NA COSAC NAIFY:
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