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Dinheiro para treinamento, 1977: "O Valor é a simetria entre os valores", escreve Waltercio

A NOVA EDIÇÃO DE UM LIVRO DE ARTE SEMPRE ATUAL
por Glória Ferreira*

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A atualidade e importância da nova edição do Manual da ciência popular vem confirmar o que diz Waltercio Caldas: "tenho uma fase só, apenas tomo cuidado para ela estar sempre no princípio".

Vinte e cinco anos depois de sua publicação na Coleção Arte Brasileira Contemporânea, a reedição do Manual representa uma espécie de dobra sobre si mesmo: reproduz o que em sua origem já operava a reprodução como matéria e questão. Afirmado como peça impressa, a capa reproduz, em abismo, a imagem da própria capa. Esta edição reúne uma série de outros trabalhos. Reunião que, segundo o artista no atual prefácio, "além de dar ao livro uma nova dinâmica, sugere um mecanismo de imagens que produzem uma pele gráfica nos objetos: estados-de-imagem".

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Manual da ciência popular
R$ 49,00
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do livro


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Em contexto no qual os livros sobre artistas eram bastante raros em nosso meio, a Coleção Arte Brasileira, conhecida como Coleção ABC, lançada no final dos anos 1970 pela Funarte, com apuro gráfico e edição individualizada para e por cada artista, representou real contribuição para a ampliação do espaço produtivo da arte contemporânea. A criação da Funarte, em 1975, quando se prenunciava a abertura política, veio somar-se à relativa expansão do circuito de arte, propiciando com seus diversos projetos, entre outras coisas, maior integração em termos nacionais e atenção crítica à produção contemporânea. Atenção exigida e impulsionada pelos artistas em ações conjuntas, como a publicação da Malasartes, da qual Waltercio é um dos editores, e que se reivindica como "revista sobre a política das artes"; data também de 1975 a criação da Sala Experimental, no Museu de Arte Moderna do Rio, que, até o incêndio do museu, abrigou exposições de artistas contemporâneos.

Na apresentação da série, reproduzida em cada um do pouco mais de uma dezena de títulos, o poeta Afonso Henriques Neto (um dos idealizadores do projeto, junto com Eudoro Augusto Macieira e Vera Bernardes) afirma ser propósito da coleção "documentar" a obra de artistas, "sem se preocupar com a análise exaustiva" de movimentos ou de linguagens. Com tratamentos diversificados - o livro de Barrio (1978), por exemplo, tem apenas textos do artista; em outros, há textos de críticos -, o Manual singulariza-se desde o título, comumente, o nome do artista, e, em particular, por colocar a própria documentação como objeto e trabalho.

No prefácio, Waltercio afirma: "Estamos diante da reprodução impressa, este hábito contemporâneo, superfície onde se passa grande parte da arte da nossa época. Aqui, em nosso caso particular, o que vai acontecer? Serão utilizados objetos de conhecimento de todos para apresentar significados estéticos em circulação no cotidiano ou, em outras palavras, passearemos pelos campos dos sentidos. É nesta superfície, neste volume chamado Manual da ciência popular, que suas dúvidas jamais serão esclarecidas, pois gostaria o autor que estivéssemos em um livro sem fundo".

"Hábito contemporâneo", sem dúvida, que indica o entrelaçamento, como técnica de reprodução e campo de experimentação, do trabalho de arte com a fotografia, mas também, como assinala o artista, de nosso contato com as obras de arte. Se a história da reprodução de obras de arte é longa, remontando ao século 15, com mutações decorrentes dos meios de produção, objetivos e inserções no campo da arte, o advento da fotografia marca uma inflexão: introduz intermediações, interações e contaminações de toda ordem na práxis e nas linguagens artísticas, inseparáveis da história da estruturação do sistema de arte.

O Manual problematiza a suposta naturalidade da reprodução, operando na passagem de uma linguagem para outra, na qual se afirmam as modalidades de inscrição do trabalho na imagem e suas condições de visibilidade. Evidencia, assim, as camadas significantes, tidas, no entanto, como invisíveis, que a reprodução acrescenta entre o trabalho e o espectador, quer seja pelas propriedades do dispositivo fotográfico, pela interpretação do fotógrafo, pelas qualidades do material técnico, bem como de sua veiculação em materiais impressos. Como diz o artista em outro contexto, "Minha intenção, quando realizo um catálogo ou um livro, desde o Aparelhos [GBM, 1979], é operar e entender estas alterações, que se somam ao trabalho e o transformam em outra coisa".

Alterações particularmente sensíveis em seus trabalhos, que problematizam a própria imagem, por supor uma relação com o lugar, com a distância entre o espectador e eles, ou seja, a circunstância plástica de sua presença. Circunstância na qual vazio e transparência são como matérias e, portanto, irreproduzíveis, na medida em que, por exemplo, o olhar não atravessa uma fotografia, mas depara-se, sempre, com o fundo, da mesma maneira que não registra lacunas. Qual um teorema, Como funciona a máquina fotográfica, de 1977, "demonstra" essa opacidade que se abate na imagem como praga, impedindo a reprodução da matéria transparente. Paulo Venancio Filho, em "Leitura preparatória", que acompanha a publicação, assinala que, se o contemporâneo se faz no tempo da reprodução, "sentimos na reprodução de um trabalho contemporâneo um vago desconforto, uma problemática situação. A inadequação à reprodução é da própria natureza constitutiva do trabalho".

O Manual trabalha justamente esses 'filtros', questão que perpassa a poética do artista, em particular em seus inúmeros livros, como em Velazquez, de 1996. Como uma espécie de declaração de princípios, abre com A imagem é cega, acompanhada do texto "Aplicação de mertiolato incolor, com a ajuda de uma seringa hipodérmica, no interior de uma bola de pingue-pongue". Menos do que "indicadores de itinerários", como Walter Benjamin caraterizava as legendas associadas às fotografias, os textos que acompanham as imagens no Manual fazem parte do próprio funcionamento dos trabalhos, estabelecendo contínua circularidade entre texto e imagem. Evocam, assim, a própria natureza da imagem que sempre parece, difere, sugere, sem pretender a verdade, como assinala Marie José Mondzain. A imagem é cega, como cegos seremos se não virmos que vemos a "versão imagem" do trabalho.

"Inútil observar por mais tempo, esta imagem será sempre a do exato instante em que foi vista pela primeira vez", apresenta Dado no gelo. Na complexidade de questões que engloba, o congelamento do dado, ou o que se "deu" no congelamento, remete ao recorte espaciotemporal do dispositivo fotográfico "estados-de-imagem". Como assinala Paulo Sergio Duarte, no belo livro Waltercio Caldas, também publicado pela Cosac Naify, em 2001: "o artista explora a banalização em segundo grau dos encontros absurdos, que já faz parte do senso comum, para reintroduzi-los num registro reflexivo como forma problematizada com boa dose de ironia e de muito humor."

*Glória Ferreira é especialista em História da Arte, crítica de arte, curadora independente e professora da Escola de Belas Artes/UFRJ.

NA COSAC NAIFY
Rodrigo Andrade, de Alberto Tassinari e Taísa Palhares
Célia Euvaldo, de Alberto Tassinari e Marco Silveira Mello

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