Narrativa de várias camadas, Moby Dick encontra na alegoria um de seus motores. A chave alegórica transforma o inofensivo romance de aventuras em algo transcendental. A obstinação de Ahab é de natureza demoníaca, tanto que, em dado momento, seu arpão é batizado in nomine diaboli. O que está em jogo é a luta contra o mal - aspecto central de outra narrativa de Melville, Billy Budd (coleção Prosa do Mundo, Cosac Naify, 2003). Melville julga que todas as coisas do mundo têm um significado espiritual. Uma afirmação sua é esclarecedora: "este [o significado espiritual] é para o sentido literal o que a alma é para o corpo".

Algumas peças da engenharia narrativa de Moby Dick merecem destaque. A composição do romance é um dos pontos centrais: a abordagem lúdica da composição e o uso magistral da digressão; a miscelânea de informações curiosas, citações clássicas e fantasias eruditas. O leitor, entre o fascínio e o desconcerto, faz uma jornada vertiginosa, repleta de pausas e acelerações. É a sedução pela desordem cuidadosa.


   

Impossível ignorar a natureza do narrador. Ishmael ocupa lugar de honra na galeria dos grandes narradores autoconscientes, tão marcantes no romance moderno (Thomas Mann, James Joyce, Hemingway, Huxley, Sartre). Sua dicção, oscilante e tensa, é mescla de sermão, relato de aventuras, narrativa burlesca, tragédia (Shakespeare e Marlowe marcaram Melville), compêndio científico, crônica e humor.

Para muitos, romance de aventuras; para poucos, lição secreta. Deixando o leitor à mercê, Moby Dick sempre se renova.

SOBRE A EDIÇÃO

Esta nova tradução se vale da longa experiência acadêmica da tradutora Irene Hirsch com a obra de Melville ( mestrado na USP sobre traduções de Moby Dick no Brasil; tradutora de Bartleby, o escrivão ). Um de   seus   principais diferenciais é o fato de optar por uma fidelidade quase obstinada às opções do estilo do autor, rebuscado e heterogêneo. Depois de muitas etapas, foram encontradas muitas soluções textuais específicas que só recentemente se tornaram disponíveis desde a última tradução de Moby Dick no Brasil. Revela-se assim, pela primeira vez ao leitor brasileiro , toda a profundidade e a beleza poética do texto .

 

   

Além de um minucioso trabalho de cotejos e pesquisa de vocabulário náutico por parte do tradutor Alexandre Barbosa de Souza, a edição traz também um valioso apêndice, elaborado pelo pesquisador Bruno Gambarotto, com três textos fundamentais para a compreensão da obra: uma resenha de Evert Duyckinck, publicada em 1851; o clássico ensaio de D.H. Lawrence, incluído em Studies in Classic American Literature, de 1923, e um trecho do célebre estudo de F.O. Mathiessen, American Renaissance, de 1941. O volume inclui ainda um Glossário Náutico Ilustrado e uma Bibliografia selecionada e atualizada.

O projeto gráfico provoca no leitor a sensação do movimento de um barco se deslocando em alto mar. Na abertura do livro, antes do começo da narração, as páginas têm um "horizonte" fixo, em tom verde acinzentado inspirado na cor do mar num dia nebuloso. As imagens e os textos seguem esse horizonte até o início da história, quando começam as "flutuações", sugeridas pelas alterações da margem superior nas aberturas de cada capítulo. Os 135 capítulos sempre começam e finalizam em páginas duplas, com a margem inferior fixa e as margens superiores em tamanhos variáveis, sugerindo o efeito da ondulação. Os títulos de cada capítulo também se deslocam, como se afundassem ou subissem à tona. Reproduzindo detalhes de desenhos da revista Harper's New Monthy Magazine, de 1874, sobre a pesca baleeira, a s ilustrações , ao contrário de outras edições, que tradicionalmente conduziam à leitura da obra como um livro de aventuras infanto-juvenil , estão presentes apenas no início do volume e ao final, na abertura da fortuna crítica e ilustrando o Glossário Náutico. A capa dura, impressa em silk-screen, reproduz uma onda branca que sobrepassa o título e o sobrenome do autor.

   
 
 
 

MOBY DICK: A EDIÇÃO DEFINITIVA

"Página a página, o relato se agiganta até superar o tamanho do cosmos: a princípio o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; em seguida, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por acossar e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que esgota os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo."
(Jorge Luis Borges)


Depois de lançar Os miseráveis, de Victor Hugo, e Anna Kariênina, de Tolstói, a Cosac Naify traz aos leitores a edição definitiva de Moby Dick, ou A Baleia, considerado o principal romance norte-americano. Publicado originalmente em 1851, o livro contém o relato de um marinheiro letrado, Ishmael, sobre a última viagem de um navio baleeiro de Nantucket, o Pequod, que parte da costa leste dos Estados Unidos - com sua tripulação multi-étnica - rumo ao Pacífico Sul, onde encontra o imenso cachalote branco que, no passado, arrancara a perna do vingativo capitão Ahab. Ao longo de 135 capítulos, Herman Melville (1819-1891) explora com brilhantismo e ironia os mais variados gêneros literários: da narrativa de viagens ao teatro shakespeareano, do sermão à poesia popular, passando pela descrição científica e a meditação filosófica.


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