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PUBLICAÇÃO COBRE LACUNA DE CEM ANOS NA SOCIOLOGIA

Mais de cem anos depois da morte do pensador francês Gabriel Tarde (1843-1904), chega ao Brasil uma reunião de seus primeiros e talvez mais provocadores ensaios: “Monadologia e sociologia”, “A variação universal”, “A ação dos fatos futuros” e “Os possíveis”. Embora entre seus contemporâneos Tarde tenha desfrutado de bastante prestígio – foi professor no Collège de France –, acabou como um desses casos em que a História se encarrega, por diversos caminhos, de cometer injustiças, e acabou conhecido como o “derrotado” teoricamente por Émile Durkheim (1858-1917), este sim considerado o fundador moderno da Sociologia. Mas é hora de reviver a obra de Tarde para entender o quanto ela contribuiu para a fecundação da teoria de grandes pensadores como Henri Bergson (1859-1941) e Gilles Deleuze (1925-95), para apenas mencionar dois dos maiores filósofos do século XX.



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A retomada de seu pensamento pode ser creditada hoje a Bruno Latour e Eduardo Viveiros de Castro, dois nomes fundamentais da antropologia atual, que levam a sociologia de Tarde adiante, contra a noção de sociedade como “coisa” com a qual Durkheim marcou a Sociologia.

A edição destes ensaios, que inclui uma alentada introdução por Eduardo Viana Vargas, estudioso de Tarde e organizador do volume, uma carta autobiográfica e extensa biografia e bibliografia sobre o autor, chega ao público brasileiro a tempo de receber uma leitura contemporânea, à altura do que foi em sua época.

A NEOMONADOLOGIA DE TARDE

Gabriel Tarde toma da obra do filósofo alemão G. W. Leibniz (1646-1717) o termo “mônada”, que designava a última porção infinitesimal de matéria indivisível, da qual todas as substâncias são formadas – e que por esse caráter, foi também utilizado na química e na biologia. Tarde, entretanto, ao utilizar a noção como base de seu ensaio, transforma seu sentido, tornando-a mais aberta e mutante. Ao contrário de Leibniz, que entendia a imutabilidade como uma das propriedades principais da mônada, Tarde a concebe como capaz de modificar a si mesma, e, mais que isso, como em busca permanente pela diferença e a diversificação: “existir é diferir”.

Todas as coisas do mundo, portanto – os astros, os indivíduos vivos, as nações, os radicais químicos, as doenças – encontram medida comum no conceito de mônada, o que faz com que a divisão entre sujeitos agentes e objetos passivos se torne inútil e obsoleta. A concepção das mônadas fornece assim uma unidade teórica capaz de tratar, num mesmo nível, agentes de diferentes naturezas: animais, plantas, átomos, humanos, órgãos, células, idéias.

Esses agentes se movem por sua avidez de contagiar e transformar outrem. Tal avidez expressaria, conforme Tarde, a “necessidade de sociedade”, necessidade de agregação e transformação contagiosa impulsionada pelo desejo de conquista e conexão das mônadas. Mas essa necessidade não é exclusiva dos humanos. Tarde parece nos propor que tudo que existe e age compartilha dessa necessidade. Que são, pois, esses agentes infinitesimais do mundo orgânico, esses múltiplos agentes ávidos de sociedade, pergunta-se o autor, “senão um feito de pequenas pessoas?”.

Esta é a tese monadológica, segundo a qual, diz Tarde, o universo “é composto de outras almas além da minha, mas no fundo semelhantes à minha”. Temos aí um descentramento radical do humano. As “forças da alma”, isto é, a crença e o desejo, bem como a certeza e a paixão, estão por toda parte e não são atributos exclusivos dos homens. Ao contrário, a “universalidade de sua presença” permeia uma psicologia universal que faz dissolver a pretensa prerrogativa humana de ser psicológico único. Mesmo a inteligência, tal como a concebemos, não passa de uma espécie de psiquismo. Daí falar em uma psicologia animal, celular, atômica, vegetal.

POSSÍVEIS, FUTUROS, VIRTUAIS

“Ficção científica? Sim, e da melhor espécie, daquela que leva em conta a ação dos fatos futuros e, com isso, pretende levar as ciências às últimas conseqüências. Pois se tem uma coisa que surpreende Tarde é que nos acostumamos a considerar a ação do passado, mas não temos por hábito levar em conta a ação do futuro, ou seja, não tratamos passado e futuro simetricamente. No entanto, ‘a ação do futuro, que ainda não existe, sobre o presente, não [...] parece nem mais nem menos concebível do que a ação do passado, que não existe mais’” (AFF: 169). (in introdução de Eduardo Viana Vargas)

Abrindo para os possíveis, Tarde nos retira da monotonia do real – desse real confinado a si só, justificável em si, desconectado de seus múltiplos e inerentes devires. Aqui, torna-se explícita a herança do autor em Deleuze e Félix Guattari (1930-92), bem como na etnologia ameríndia de Viveiros de Castro, que descreve, tanto na ação quanto na cosmologia indígena, a operação deste princípio da diferença.

Em Tarde, finalmente, a filosofia e as ciências sociais se reconciliam, constituindo um pensamento da multiplicidade e, sobretudo, da Diferença – princípio e fim das agências e forças que a tudo animam e movem.

ESTA EDIÇÃO

O ensaio “Monadologia e sociologia” ganha da Cosac Naify nova tradução para o português, por Paulo Neves, e revisão técnica de Eduardo Viana Vargas, antropólogo e professor da UFMG, especialista em Gabriel Tarde, autor do texto introdutório e organizador do volume. Os outros três ensaios do livro (“A variação universal”, ”A ação dos fatos futuros” e “Os possíveis”) são inéditos em português e fora de catálogo até mesmo na França.

SOBRE O AUTOR

Gabriel Tarde nasceu em 12 de março de 1843 e passou a maior parte da sua vida no Perigord, atual Dordogne, sudoeste da França, entre a pequena Sarlat, sua cidade natal e de residência habitual, e a pitoresca comuna de La Roque Gageac, onde foi sepultado. Depois de estudar no Collège des Jésuites de Sarlat, preparou-se para entrar na École Polytechnique, em Paris, mas, após uma primeira grave crise de oftalmia, decidiu seguir o exemplo da família e dedicar-se ao Direito, inicialmente em Toulouse (1862-65) e, depois, em Paris (1862-66). Formado, retornou a Sarlat onde, com exceção do período em que atuou como juiz de instrução em Ruffec (Charente), ocupou uma série de cargos na magistratura local. Em 1877, casou-se com Marthe Baedy-Delisle, com quem teve três filhos. Iniciou, em 1880, intensa colaboração com a Revue Philosophique> e vários outras publicações. Em 1890 publicou Les Lois de l’imitation, que viria a ser seu livro mais conhecido. Em 1894, mudou-se para Paris, onde foi ocupar o posto de diretor no setor de estatística judiciária do Ministério da Justiça. Suas atividades no Ministério lhe renderam, em 1895, o título de Chevalier de la Légion d’Honneur. Sua primeira experiência docente aconteceu em 1896, quando, aos 53 anos, passou a oferecer cursos na École Libre des Sciences Politiques; ela se adensou no ano seguinte, quando começou a atuar no Collège Libre des Sciences Sociales. Em 1900, assumiu a cátedra de filosofia moderna no Collège de France e foi eleito para a Académie des Sciences Morales e Politiques. Em 1902, voltou a sofrer graves crises de oftalmia. Gabriel Tarde morreu em Paris, em 12 de maio de 1904, aos 61 anos.

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