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Foto: Fraçois
Lagarde |
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| Grande naturalista, Jünger catalogou
diversas espécies de insetos e plantas |
UMA BIOGRAFIA TÃO CONTRADITÓRIA QUANTO
O SÉCULO XX
O escritor-soldado que começou exaltando a
guerra e terminou como personagem de Günter Grass, Jonathan
Litell e Roberto Bolaño
Exaltado na França como grand écrivain
e posto lado a lado dos grandes autores europeus do século
XX, Ernst Jünger permaneceu um tabu para grande parte
dos leitores na Alemanha, seu país natal, sobretudo
pela exaltação da guerra que fez durante a ascensão
de Hitler e por sua atuação como oficial da
Wehrmacht, as forças armadas, até 1944, na Paris
ocupada. Sua premiação com o Goethe, o mais
importante prêmio literário de seu país,
em 1982, também despertou polêmica na intelectualidade
alemã. Ainda hoje o autor divide a crítica,
que, mesmo celebrando a beleza de sua prosa, não deixa
de apontar seus pendores aristocráticos, nem as contradições
de uma biografia tão contraditória quanto o
próprio século XX.
Na vida de Jünger, não são poucos os episódios
interessantes, dignos da ficção. Aos quinze
anos, fugiu de casa para alistar-se na Legião Estrangeira,
e chegou a ser enviado para treinamento na Argélia,
onde o pai, com a ajuda do governo alemão, conseguiu
resgatá-lo. Aos dezoito anos, alistou-se como voluntário
no exército imperial. Nas trincheiras, conquistaria
sete feridas de guerra, a medalha Pour le Mérite -
a mais importante condecoração militar do Império
Alemão - e um livro saído diretamente das páginas
de seus diários, Tempestades de aço,
publicado em 1920 e que a Cosac Naify lançará
em 2009, com tradução de Marcelo Backes.
Ao contrário de outros escritores-soldados de sua geração,
como Erich Maria Remarque, o autor do best-seller Nada
de novo no front, os escritos de Jünger não
pretendiam denunciar a insensatez e o horror da guerra, mas
sim exaltá-la como fonte de glória e experiência
estética. André Gide recebeu o livro com entusiasmo:
"O mais belo livro de guerra que já li".
Os textos que Jünger publicaria ao longo dos anos 20
e 30 ajudariam a inflamar na Alemanha o sentimento de uma
revanche da humilhação histórica imposta
pelo Tratado de Versalhes, em 1918.
Não há dúvida, contudo, de que Nos
penhascos de mármore representa uma guinada do
autor, que associa sua narrativa à denúncia
de todos os totalitarismos e não a encerra nos limites
de um romance político inspirado pelas circunstâncias
históricas.
Com o fim da guerra, a recusa de Jünger em se submeter
aos formulários e outros rituais dos tribunais de desnazificação
que pretendiam julgar o seu grau de adesão ao Terceiro
Reich, também lhe valeu críticas e dois anos
sem poder publicar livros. Sabe-se, no entanto, que o escritor
recusou um lugar na academia de letras da Alemanha já
nazificada, bem como uma cadeira no Parlamento que os nacional-socialistas
lhe ofereceram. No fim da guerra, seria acusado, sem provas,
de ter ajudado a planejar o atentado ao Führer empreendido
por alguns oficiais dissidentes, próximos ao escritor.
Paralelamente às carreiras militar e literária,
Jünger ainda desenvolveu-se como entomologista e botânico,
e chegou a batizar duas espécies de insetos, além
de ter reunido uma grande coleção de besouros
e joaninhas do mundo. Sua incrível capacidade para
descrever plantas, insetos e outros detalhes da natureza é
um índice de seu fascínio pelos detalhes e prova
dessa sua outra grande paixão.
Dada a mal-entendidos e interpretações ambíguas,
essa personalidade intrigante fascinou, na entrada do século
XXI, escritores como o chileno Roberto Bolaño, que
põe Jünger em cena, ainda na Paris ocupada, em
algumas páginas de seu magistral Noturno do Chile
(2000), contracenando com o poeta Salvador Reyes, "o
único chileno a balançar seu trêmulo nariz
na obra desse alemão". O alemão Günter
Grass, em Meu século (1999), e o norte-americano
Jonathan Litell, em As Benevolentes (2006), também
converteriam Jünger em personagem de ficção.
Seus diários da Segunda Guerra inspiraram um filme
cultuado do escritor e cineasta argentino Edgardo Cozarinsky,
Ernst Jünger: A guerra de um homem só.
Em 2008, Jünger passou a fazer parte da prestigiada coleção
francesa La Bibliothèque de la Pléiade.
• Leia o ensaio Ernst
Jünger: que a beleza nos preserve do mal!, do
filósofo e tradutor português João Barrento.
O texto foi publicado no livro A palavra transversal.
Literatura e idéias no século XX (Lisboa.
Livros Cotovia, 1996) e está disponível no portal
da Revista
Agulha.
ALEMÃES NA COSAC NAIFY
Elias Cannetti: Auto-de-fé
Ingo Schulze: Celular,
13 histórias à maneira antiga
Peter Bürger: Teoria
da vanguarda
Jutta Bauer: O
anjo da guarda do vovô, A
rainha das cores,
Selma, Mamãe
zangada
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