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| Edifício São Vito em fotografia
de Bob Wolfenson (Antifachada, Cosac Naify, 2008) |
AS INVENÇÕES DE KOOLHAAS
Em passagem pelo Brasil, há nove anos, o mais
radical arquiteto contemporâneo propôs projeto
de revitalização do edifício São
Vito, cujo destino final será a demolição
Por Livia Deorsola
Em fevereiro de 2008, a prefeitura de São Paulo anunciou
oficialmente a demolição do edifício
São Vito, localizado no Parque Dom Pedro, próximo
ao Mercado municipal. Igual destino terá o edifício
Mercúrio, cuja estrutura é unida à do
vizinho, em forma geminada.
Popularmente conhecido como "treme-treme" por seu
precário estado de conservação, o São
Vito, ex-cortiço da região central da capital
paulista, chama a atenção pelos números:
27 andares e 624 quitinetes que podem virar entulho. Segundo
a prefeitura, os custos da demolição giram em
torno dos 8 milhões de reais, enquanto a recuperação
sairia por 18 milhões.
Esta parece ser mesmo a solução
definitiva para o caso que virou polêmica: vale a pena
investir na recuperação de construções
que fazem parte do centro histórico de São Paulo?
O impasse urbanístico coloca em cheque a capacidade
da metrópole em resolver problemas gerados pelo antagonismo
da expansão de áreas periféricas e o
esvaziamento das áreas centrais. O principal argumento
dos que defenderam a reforma avaliou que sua demolição,
em nome da "revitalização da área",
beneficiaria poucos. O edifício já chegou a
abrigar 3 mil pessoas.
Uma das principais propostas de revitalização
do edifício São Vito foi feita pelo arquiteto
holandês Rem Koolhaas, ganhador do Prêmio
Pritzker de 2000 e autor de Nova
York delirante: um manifesto retroativo para Manhattan
(primeiro livro seu publicado no Brasil pela editora Cosac
Naify, 2008). Em visita a São Paulo em maio de 1999
a convite do Arte/Cidade e Sesc-SP, Koolhaas impressionou-se
com as dimensões e as feições modernistas
do edifício e apresentou um projeto de intervenção
em larga escala, que propunha processos mais abrangentes de
envolvimento e negociação entre os diversos
agentes interessados: poder público, empresas privadas
e moradores do prédio e do entorno.
Partindo da idéia de ampliação dos espaços,
sem sacrificar a estrutura total, a primeira proposta de Koolhaas
foi a colocação de um elevador externo, o que
engendraria uma nova dinâmica ao conectar de maneira
inovadora o prédio com a área urbana. A proposta
foi adaptada e chegou-se à idéia de instaurar
um elevador comum, serviço que, a despeito de suas
dimensões, o edifício não possuia. "O
acesso facilitado pode permitir o florescimento de outras
atividades e levar a outras formas de ocupação
da edificação, abrindo oportunidades que possam
ser aproveitadas pelos habitantes do imóvel",
esclareceu Nelson Brissac, diretor do Arte/Cidade, à
época da proposta. "Não se trata de retomar
as estratégias de revitalização de áreas
centrais, em voga nos anos 1980. Essas políticas, essencialmente
preservacionistas, tenderiam a enfocar o edifício do
ponto de vista do patrimônio, como um monumento".
Apesar de hoje simbolizar a precarização da
região central, o São Vito também carregou
em si o significado de uma cidade que avançava rumo
à modernização tanto na economia como
nas artes, integrando o conjunto de construções
célebres de São Paulo, como o Edifício
Copan (revitalizado, inclusive), o Edifício Itália
e o Martinelli. Projetado no fim dos anos 1950 por Aron Kogan,
o prédio foi desapropriado em 2004 para ser reformado
e devolvido à população, o que por fim
não aconteceu. Neste mesmo ano, a Cosac Naify lançava
o livro Antifachada,
do fotógrafo paulista Bob Wolfenson, em que o São
Vito é retratado num dos dez pôsteres impressos
em alta definição com fachadas de edifícios
de sua "amassada" São Paulo.
Koolhaas em São Paulo
Já nas décadas de 1920 e 1930, quando as cidades
brasileiras ainda não tinham recebido o grande impulso
dado pela aceleração da industrialização,
Le
Corbusier havia detectado no país um interessante
campo para a criação arquitetônica que
abriria caminho para um projeto de vida urbana. A razão
para isto estava na euforia diante da modernidade já
exercida na Europa, aliada à idéia de que, aqui,
era possível "começar do princípio".
A peculiaridade da modernidade impressa na vida urbana brasileira
gerou os efeitos com os quais, décadas depois, deparou-se
Koolhaas em sua passagem por uma São Paulo fruto da
globalização: a metrópole incoerente,
incontrolável e ao mesmo tempo cheia de possibilidades.
Koolhaas atraiu uma platéia de aproximadamente 2 mil
pessoas, reunindo arquitetos e estudantes numa passagem marcada
por discussões sobre arquitetura para as grandes cidades.
A visita ao Brasil estendeu-se ao Rio de Janeiro, onde encontrou
com Oscar
Niemeyer, sobre quem o arquiteto holandês freqüentemente
declara enorme admiração.
Para conhecer os projetos
de Rem Koolhaas pelo mundo, clique aqui.
COLEÇÃO FACE NORTE NA COSAC NAIFY
Nova
York delirante: um manifesto retroativo para Manhattan,
de Rem Koolhaas
Uma nova agenda para a arquitetura - antologia teórica
(1965-1995), org. de Kate Nesbitt
Arquitetura
e trabalho livre, de Sérgio Ferro
Caminhos
da arquitetura, de João Batista Vilanova Artigas
Um
modo de ser moderno - Lucio Costa e a crítica contemporânea,
org. de Ana Luiza Nobre, João Masao Kamita, Otavio
Leonídio, Roberto Conduru
Precisões:
sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo,
de Le Corbusier
Modernidade
e tradição clássica - ensaios sobre arquitetura
(1980-1987), de Alan Colquhoun
Aprendendo
com Las Vegas, de Robert Venturi, Denise Scott Brown
e Steven Izenour
Depoimento
de uma geração, org. de Alberto Xavier
Oscar
Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil,
de David Underwood
Arquitetura
moderna - a arquitetura da democracia, de Vincent
Scully Jr.
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