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| Marguerite Duras nas Éditions Gallimard,
Paris, 1950 |
MEMÓRIAS DA PELE FEMININA
Por Maurício Ayer*
Poucas obras deveriam poder ser chamadas de
“livro de memórias”. Ler O amante
nos convence disso. A memória não são
os fatos que vivemos ou presenciamos, mas os caminhos que
a imaginação percorre – em saltos, desvios
e seqüências – pela matéria que nos
constitui intimamente. Os limites e as ligações
entre as coisas são móveis. Podem obedecer a
um hábito – eventualmente a uma cronologia –,
mas podem também se reinventar, descobrir-se em novos
caminhos, novas combinações. O romance de Marguerite
Duras é feito assim, de um emaranhado de histórias
que retornam ciclicamente, cada vez a partir de um ângulo
distinto. É a memória agindo, escrevendo os
seus vazios, suas invenções, sua verdade.
Nessa escritura, Duras busca nos fatos o peso e a medida
que têm para ela no “agora”, quando já
é uma velha, que já produziu dezenas de livros,
filmes e peças de teatro, que já viveu. Ela
coloca a menina diante de nossos olhos, presente como numa
fotografia, e busca nos seus traços a mulher e a escritora
que ela será. E assim inventa um novo “romance
de formação”, que suspende o tempo, como
se os setenta anos de vida que levaram Duras a produzir O
amante tivessem servido para enxergar que tudo já
estava ali, na menina de quinze anos e meio que se entrega
ao seu amante chinês.
O que a escritora é, deve-o à miséria
e à injustiça da colônia francesa onde
nasceu e viveu até a adolescência, ao convívio
com a mãe louca e os irmãos, com o preconceito
de uma elite branca decadente. Mas, acima de tudo, ela diz:
eu me tornei escritora no momento em que entrei no carro daquele
que seria o meu amante chinês, em que me entreguei ao
destino de ser uma mulher que diz sim, independente, que recebe
os homens e entrega-se ao gozo.
Sem dúvida, Duras extrai o cerne de seu livro da intensidade
da experiência sexual. É uma escritura feita
da vibração do corpo de uma mulher, e por isso
mesmo é um texto essencialmente feminino. É
neste corpo que se inscreve todo o resto: a loucura, a miséria,
a dor. A vida nas colônias, seu calor e umidade intermináveis,
o desvario da mãe, os cheiros e ruídos do centro
de Saigon que circulam pela garçonière
do amante durante as tardes escaldantes do amor.
A menina se entrega a seu amante como a uma condenação
– “uma obrigação”, diz ela,
que aceita sem sofrimento. Ao contrário, dessa “união
sem vínculo” ela obtém um gozo pleno.
Revela-se a ela um poder que é da mulher, que inverte
a possessão do homem. Nunca um texto foi tão
femininamente subversivo. A menina não oferece resistência
ao seu amante, obtém dele o que quer. Ele percebe-se
usado, como um objeto, e juntamente com o seu amor nasce o
sofrimento. É o poder da prostituta – a mulher
que se entrega a quem queira dela, mas que ninguém
pode possuir –, essa personagem que Duras tanto admira
e está presente em muitas de suas obras, como Anne-Marie
Stretter em India Song, Aurélia Steiner no
texto e filme homônimo, ou a menina de A doença
da morte.
Ao que consta, a idéia deste livro teria nascido de
uma proposta de seu filho, de que Marguerite escrevesse legendas
para as fotos da família. O amante segue este
caminhar, o de contar as histórias que velhas fotografias
trazem à lembrança. Não segue as páginas
de um álbum. Na realidade, o fluxo do texto é
o de quem vasculha as fotos numa caixa e de repente encontra
uma que é reveladora.
A partir daí, ela vai narrar aquilo que não
se mostrou, que nunca foi escrito, que ficou adormecido nessa
caixa preta da memória. Não o registro da luz,
mas o das sombras, daquilo que está obscuro, “os
períodos encobertos dessa juventude, de certos fatos,
certos sentimentos, certos acontecimentos que enterrei”.
Uma vida por escrito
Quando escreve O amante, Duras já percorreu
um vasto itinerário de experiências, tanto em
sua vida como em sua produção artística.
Aliás, não é tão simples separar
vida e obra dessa autora que sempre fez da escritura um laboratório
de investigação de si mesma. Leyla Perrone-Moisés
diz, no posfácio desta edição, que “quase
todas as obras de Marguerite Duras são autobiográficas,
na medida em que são transposições de
experiências existenciais da autora”. O romance
que ela publica em 1984, aos setenta anos, é uma de
suas obras que mais explicitamente firmam esse contrato com
o leitor: o de contar o que aconteceu, de ser fiel às
vivências, aos fatos.
Marguerite Donnadieu nasceu em 1914, na Indochina Francesa
(atual Vietnã), filha de professores franceses. Seu
pai morre quando ela tem quatro anos, e a família passa
por fortes privações. Aos dezoito anos, vai
à França fazer seus estudos em Matemática
e Ciências Políticas. Na universidade, conhece
Robert Antelme, com que se casa em 1939. Publica seu primeiro
livro como Marguerite Duras (o nome vem de uma vila francesa
onde seu pai tinha uma propriedade), Les Impudents,
em 1943.
Durante a ocupação alemã de Paris, na
Segunda Guerra Mundial, o casal se engaja na Resistência,
no grupo de François Mitterrand. Robert é preso
e enviado ao campo de Dachau. A narrativa da espera pelo marido,
à medida que as atrocidades dos campos de extermínio
nazistas vão sendo reveladas, pode ser lida em A
dor.
Após a guerra, Marguerite filia-se ao Partido Comunista
Francês, mas desde o início é tida como
não alinhada, rebelde. Sufocada pela estreiteza do
stalinismo daqueles anos, pede sua desfiliação,
mas o Partido oficialmente a expulsa.
Nos anos 50, dedica-se totalmente aos livros. Lança
romances importantes, como Uma barragem contra o Pacífico
(1950), baseado em sua infância indochinesa, e Moderato
Cantabile (1958). Ambos são adaptados ao cinema.
A notoriedade internacional virá, no entanto, com seu
primeiro roteiro para um longa-metragem. Hiroshima, meu
amor (1959-1960) dirigido por Alain Resnais, torna-se
um marco na história do cinema.
A partir daí, sua literatura vai se transformando,
ela se aproxima mais do teatro e do cinema. Nos anos 60, escreve
romances fundamentais como O deslumbramento de Lol V.
Stein (1964), que lhe valeu uma homenagem de Jacques
Lacan, e O vice-cônsul (1965). Escreve e dirige
para o teatro, e encontra em Samuel Beckett um admirador.
Entre seus amigos próximos estão os filósofos
Maurice Blanchot e Maurice Merleau-Ponty e o cineasta Jean-Luc
Godard.
A anarquia de 1968 é para Duras uma experiência
transformadora. Em Paris, segundo a escritora, “o amor
corria pelas ruas”, numa revolução sem
destino e totalmente fora do controle dos dirigentes do PCF.
Logo após, ela escreve Détruire, dit-elle
(1969).
Questionada se era um livro político, ela responde:
“Foucault diz que sim”. A partir daí, uma
noção permeará sua obra, a de que o mundo
está moribundo. É a “perda do mundo”,
a única coisa que uniria igualmente a todas as pessoas,
a única democracia que existe. No filme O caminhão
ela declara isso cabalmente, com a frase enigmática:
“Que o mundo caminhe a sua perda é a única
política” (“Que le monde aille à
sa perte, c’est la seule politique”).
Nesta época, Duras entra definitivamente no mundo
do cinema, como roteirista e diretora. Realizou filmes extremamente
experimentais, como Nathalie Granger (primeiro longa
com Gérard Depardieu), India Song e O
caminhão. Ao todo, são dezoito filmes,
marcados por suas experiências com a disjunção
entre a imagem sonora e a imagem visual. Por essa mesma razão,
o comentário sobre sua obra figurará quase como
uma conclusão do livro de filosofia e crítica
de cinema de Gilles Deleuze, A imagem-tempo.
Na virada dos anos 70 para os 80, Duras retoma a literatura,
depois de uma década dedicada eminentemente ao cinema.
O trabalho com a imagem, no entanto, transforma sua maneira
de escrever. Isso está evidente em livros como O
verão de 80 (1980), O homem sentado no corredor
(1980) e O homem atlântico (1982).
O amante (1984) é sua obra de retorno ao
romance, após romper completamente os limites de linguagem
entre literatura, teatro e cinema. O livro torna-se rapidamente
um best-seller internacional e ganha o prêmio
Goncourt, o mais importante da França. O filme é
adaptado ao cinema por Jean-Jacques Annaud, com grande sucesso
comercial.
No final da vida, o alcoolismo torna-se um problema mais grave
e constante. Duras interna-se várias vezes para tratar-se,
uma delas entra em coma por nove meses. Seu último
romance será A chuva de verão (1990).
Em 1994, aos 79 anos, morre de câncer em seu apartamento
na rua Saint Benoît, em Paris.
Traduzir Duras
A tradução ora editada impressiona de início
pela fidelidade à “fala” durasiana. Quem
está habituado à melodia de seus textos vai
logo reconhecer a voz de Marguerite, essa fala que ao longo
dos anos foi sendo maturada pela escritura. A impressão
é mesmo a de ouvir a autora, como se o livro fosse
o registro de uma entrevista sua – algo que ela fará
em Escrever (1993), que é o registro de uma
entrevista filmada.
No entanto, nada ali é dispensável, não
há a banalidade do discurso cotidiano. Trata-se, isto
sim, de uma fala que seleciona com cuidado o seu vocabulário,
simples e cortante, e que parece plenamente consciente do
modo com que o pronuncia. A tradução conseguiu
captar essa voz e fazê-la soar em português. A
pontuação escassa e essa espécie de fluxo,
entrecortado por repetições, retornos aos mesmos
eventos, também foram preservadas com grande precisão.
A tradutora Denise Bottman comenta que sua
atenção se deteve naquilo que chama de “untuosidade”
da fala da personagem. “Pareceu-me um tipo de texto
eminentemente oral – quando lido em voz alta, você
sente uma espécie de onda, não fluida, não
líquida, não avassaladora nem, ao contrário,
‘embaladora’. É uma fala untuosa, diria
eu – não chega a envolver nem arrastar, mas como
que impele leve e inexoravelmente o leitor, como se seus pés
estivessem mergulhados (não presos) em um ou dois palmos
de lama.”
* Maurício Ayer é
compositor, escritor, tradutor e doutor em Literatura Francesa
pela Universidade de São Paulo, com especialização
na Université de Paris 8. Compôs música
e escreveu textos para teatro (Répétitions
- drama sonoro, Máscara Preta, Treinamentos
de Selênio e O banco). Traduziu livros
sobre museologia e estética musical (textos de Henri
Pousseur, no prelo), além de textos de Marguerite Duras
(inéditos).
SAIBA MAIS SOBRE MARGUERITE DURAS
COLEÇÃO MULHERES MODERNISTAS:
Anedotas
do destino; de Karen Blixen
A
fazenda africana; de Karen Blixen
O
homem sentado no corredor e A doença da morte;
de Marguerite Duras
Contos
completos; de Virginia Woolf
Contos;
de Katherine Mansfield
Sete
narrativas góticas; de Karen Blixen
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