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Foto: Christiana Carvalho |
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| Hector Babenco e Gael García Bernal
discultem cena de O passado |
HECTOR BABENCO FALA SOBRE A REALIZAÇÃO
DE O PASSADO
Como o senhor conheceu o romance El pasado,
do argentino Alan Pauls, que deu origem ao filme?
Em 2004, encontrei-o numa livraria do aeroporto de
Ezeiza, na Argentina, quando fui visitar minha mãe
que estava doente. Eu me lembrava que Pauls tinha me entrevistado
com o Ricardo Piglia para o caderno de domingo do jornal argentino
Página 12. Vi que era um livro sobre um casal
que tinha se amado, com trágicas conseqüências
após a separação. Encontrar um livro
contemplado com o Prêmio Herralde numa livraria de aeroporto
é como achar uma lata de caviar no lixo. É uma
obra de alta literatura em 480 páginas. Deve ter sido
o único exemplar vendido na livraria do aeroporto.
Comecei a ler e aí virou um ritual: eu ia e voltava
das visitas à minha mãe lendo o livro durante
uns quatro, cinco meses.
O que lhe atraiu em O Passado?
O livro trata da relação de um casal de jovens
pós-separação e das conseqüências
que o retorno de algo que já acabou pode fazer no presente.
O fato de os protagonistas serem muito jovens traz para o
filme certa virgindade, uma pureza, uma inocência que
o atualiza. Pois é uma história na contramão
de tudo o que hoje se faz no cinema contemporâneo e
até do que a gente imagina que o público queira
assistir. Por fim, a decisão de fazer esse filme me
tirou um pouco do universo em que fiquei por muito tempo -
o dos excluídos. Não falo apenas de Pixote
[A lei do mais fraco], mas também de O
beijo da mulher aranha, Ironweed e Carandiru.
Ele me fez retornar ao universo da emoção, dos
sentimentos, à relação homem-mulher.
É um livro sobre o sentimento masculino em relação
às mulheres.
Qual a sua visão de Rimini,
o protagonista de O passado?
Rimini é um personagem trágico, sem saída,
na grande tradição de alguns heróis masculinos
de Dostoievski ou Camus. Rimini é o representante de
uma masculinidade mais fragilizada, longe do arquétipo
comum do homem viril da dramaturgia moderna e da televisão.
É um ser masculino que não é um machão.
Confunde-se muito a masculinidade com falta de sensibilidade.
Com um personagem como esse, de um homem que ama as mulheres,
me identifico um pouco.
Como foi a escolha de Gael García Bernal para
viver Rimini?
Comecei a pensar em um ator que poderia ter mais
ou menos 30 anos e ser um jovem mais taciturno, quieto, calado,
menos energizado pela modernidade "gatorade" do
esporte. Mas por outro lado, não queria um jovem que
tivesse um lado destrutivo, dark ou nefasto em relação
ao mundo. Em suma, eu precisava de um ator que se parecesse
um pouco comigo. Alguém que, desde muito jovem, se
fez muitas perguntas e não encontrou muitas respostas.
Como sei que o Gael deve receber muitos roteiros por semana,
lembrei que o Kubrick jamais mandava um roteiro para um ator;
ele o encontrava para que lessem juntos. Então, me
convidei para ler o roteiro com o Gael, viajaria para onde
ele estivesse. Marcamos um encontro uma noite em Buenos Aires,
em novembro de 2005, quando ele estaria na cidade para outro
trabalho. Lemos o roteiro com algumas atrizes amigas, e duas
semanas depois recebi um e-mail dele dizendo que estaria disponível
para o filme em julho (de 2006). Gael chegou até um
pouco antes do prometido, para participar do casting das atrizes.
[...]
O passado não é autobiográfico,
mas o que o senhor trouxe da sua experiência pessoal
para filmá-lo?
Já declarei que pertenço à última
geração que na juventude viu o melhor que a
história do cinema já produziu. O passado
é um legado dessa época. Eu tinha a obrigação
de trazer algo que fosse o sumo do que aprendi na forma de
um filme novo sobre as relações entre casais,
que falasse do que é o amor hoje. Algo que não
tivesse nada a ver com pílula, casamento ou sexo livre.
Algo que falasse do amor em sua essência. Senti que
estava na hora de voltar a esse universo do sentimento mais
íntimo.
Como se pode definir a relação de amor
mostrada no filme?
Quem se dispôs a viver a vida de forma plena
como eu, sabe o que é levar dentro de si uma Sofia.
O amor verdadeiro nunca morre dentro de você. Você
pode estar feliz com outra pessoa, construindo algo novo como
uma família. Mas isso não impede que exista
outro amor vivendo em você, um amor que não necessita
ser nutrido de presença cotidiana nem ter uma continuidade
física.
[...]
LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA NO LIVRO O
PASSADO - UM REGISTRO
SAIBA
MAIS SOBRE ALAN PAULS
AUTORES LATINO-AMERICANOS NA COSAC NAIFY:
Histórias
fantásticas, de Adolfo Bioy-Casares
O
cavalo perdido e outras histórias, de Felisberto
Hernandez
Só
para fumantes, de Julio Ramón Rybeiro
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