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Álbum/LatinStock |
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| Gael García e Analía Couceyro,
protagonistas do filme baseado no romance de Pauls |
O PASSADO DEFINITIVO DE ALAN PAULS
por José Geraldo Couto
“O surgimento de
Alan Pauls é o melhor que poderia ter acontecido à
literatura argentina desde a estréia de Manuel Puig.”
(Ricardo Piglia)
“Um dos melhores
escritores latino-americanos vivos.” (Roberto Bolaño)
Rímini e Sofia vivem
durante doze anos um amor tão perfeito que, para ser
completo, precisa incluir, paradoxalmente, o momento da separação.
O problema vem depois: como lidar com o que ficou para trás?
O que fazer com as centenas de fotos – momentos congelados,
mas ainda pulsantes, de uma história viva – que
jazem em duas grandes caixas de papelão?
“Ficou para trás”
é força de expressão, e das mais inadequadas
no caso. Pois em O passado o passado não passa.
Não é o remoto território proustiano
a ser reconquistado com o poder da memória, mas o terreno
de areia movediça em que se corre o risco de pisar
a cada instante. É um pesadelo recorrente, uma coorte
de fantasmas, uma dívida irremissível.
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Ao
se transformar em “passado”, o afeto não
desaparece, mas simplesmente muda de sinal: a ternura
desanda em ressentimento, o que era doce se azeda, a
pulsão erótica vira impulso de morte.
Esse é o mundo
em que o Rímini pós-Sofia tem que aprender
a viver. O passado é o romance da sua
(de)formação. Tradutor e intérprete
de ofício, a primeira coisa que ele perde ao
tentar se desfazer do passado são as línguas
estrangeiras que domina. Como numa doença degenerativa,
começa perdendo vocabulário, depois esquece
tudo – gramáticas, pronúncias –
até ficar irremediavelmente monoglota. É
só a primeira, e decisiva, de muitas perdas.
Ao longo das caudalosas páginas do romance, conduzidos
pela prosa mesmerizante de Alan Pauls, viveremos passo
a passo as metamorfoses de Rímini: seus amores,
seus trabalhos, seus vícios, suas mortes e ressurreições.
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O passado não é
apenas o livro até agora mais ambicioso de Alan Pauls:
é uma dessas obras que sintetizam, criticam e levam
adiante toda uma literatura. No caso, a literatura de ficção
urbana argentina, cujos motivos centrais o autor revisita
e reelabora: a metafísica do amor, a geografia sentimental
de Buenos Aires, o movimento pendular dos personagens entre
o bairro e o grande mundo, o absurdo do cotidiano exacerbado
até raiar o fantástico. Ecos de Cortázar,
Bioy Casares, Puig e Piglia são ouvidos aqui e ali,
mas numa voz nova e original.
Como acontece em toda grande obra estética,
forma e conteúdo são inextricáveis em
O passado. Sua prosa barroca, luxuriante, traduzida
com brilho e elegância por Josely Vianna Baptista, reproduz,
em sua própria construção labiríntica,
o cipoal em que o protagonista se enreda. Longos períodos,
cadenciados por apostos e orações subordinadas,
com uma profusão de metáforas e referências
literárias, pictóricas e cinematográficas,
tudo isso envolve o leitor num mundo ao mesmo tempo denso
e poroso, rico em informações e surpresas.
Uma das astúcias narrativas de Pauls consiste em acompanhar,
em terceira pessoa, a trajetória de Rímini após
a separação, mantendo Sofía na sombra,
de onde de quando em quando ela ressurge inesperadamente,
transformada, como uma entidade mutante, para reivindicar
os direitos do passado. Outro recurso engenhoso são
as digressões sobre a vida e a obra do fictício
pintor europeu Jeremy Riltse, cuja Sick Art, que
consiste em grande parte de automutilações com
fins estéticos, reverbera e ilumina obliquamente o
destino do casal protagonista.
Papel semelhante é desempenhado no livro por filmes
como Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti,
e, sobretudo, A história de Adèle H,
de François Truffaut, que servirá de inspiração
para o bar “temático” criado por Sofía
e suas camaradas da Sociedade das Mulheres que Amam Demais.
Cabe lembrar que o nome do protagonista, Rímini, remete
à cidade natal de Federico Fellini, cineasta cuja principal
matéria-prima era a memória.
Memória – se existe um tema primordial no romance
de Alan Pauls, é este: memória reconstruída,
memória perdida, memória transfigurada. Tragédia
de amor, sátira cruel, folhetim pornográfico,
romance filosófico, O passado é um
pouco de tudo isso em sua alquimia perturbadora, que Hector
Babenco levará em breve às telas (acesse o site
do filme: www.opassado.com.br)
e que veio para ficar como um marco nas letras hispano-americanas.
[ Autor convidado da FLIP 2007
]
SAIBA
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Histórias
fantásticas, de Adolfo Bioy-Casares
O
cavalo perdido e outras histórias, de Felisberto
Hernandez
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