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PARIS NÃO TEM FIM ESTABELECE BEM-HUMORADO JOGO DE REFERÊNCIAS LITERÁRIAS
Conheça os autores do catálogo Cosac Naify citados em chave autobiográfica pelo espanhol Vila-Matas
em seu quarto livro lançado no Brasil

Paris não tem fim, de Enrique Vila-Matas, é “uma revisão irônica” feita por um maduro e experiente escritor espanhol sobre seus anos de juventude e aprendizado literário em Paris. O relato que conduz esse protagonista sem nome – cuja trajetória logo se aproxima da trajetória do próprio autor – leva-nos a meados dos anos setenta, quando, após ter decidido tornar-se escritor, ele se muda para a capital francesa. Afinal, Paris, com seu histórico de moradores e acontecimentos, mantinha-se como o lugar preferido, no imaginário intelectual, para o exercício da liberdade e da criatividade artísticas.

Assim, a cidade parecia, àquele jovem aspirante a escritor, o lugar mais inspirador para que ele redigisse seu primeiro romance, A assassina ilustrada (1977). Mas escrever era apenas parte do plano: o narrador protagonista de Vila-Matas almejava, ainda, levar uma vida semelhante àquela que seu maior ídolo de então, o norte-americano Ernest Hemingway, levou na mocidade – e que está relatada em Paris é uma festa.

A Paris consagrada é, portanto, o cenário deste romance de formação – ou “romance de deformação”, como o classificou divertidamente o jornalista Cassiano Elek Machado no texto de orelha –, em que um jovem faz suas primeiras aproximações com a literatura e com escritores exilados, como o uruguaio Raúl Escari; conterrâneos, como Javier Grandes; consagrados, como Georges Perec e Marguerite Duras; ou promissores, como o argentino Edgardo Cozarinsky.

Leia abaixo trechos de Paris não tem fim nos quais o protagonista conta alguns encontros – a maioria desastrosos – com personalidades literárias, expõe os referenciais artísticos de seus primeiros tempos de escritor e fala de sua obsessão por Ernest Hemingway.
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MARGUERITE DURAS

Nos anos passados em Paris, o protagonista morou, assim como o próprio Vila-Matas, numa água-furtada que pertencia a Marguerite Duras. A escritora não costumava dar muita confiança àquele jovem ainda atrapalhado com a literatura, mas chegou a dar orientações para o texto de seu début como escritor:

© Robert Doisneau/ Rapho/ Other Images
Duras (1914-1996), autora de O amante (Cosac Naify, 2007) e O homem sentado no corredor e A doença da morte (Cosac Naify, 2007)

Um dia, cruzei com Marguerite Duras na escadaria – eu subia até minha chambre e ela descia até a rua – e ela se mostrou subitamente interessada em saber com que coisas andava entretido. E eu, querendo me fazer de importante, lhe expliquei que me propunha a escrever um livro que produzisse a morte de todos os que o lessem. Marguerite ficou dura, sublimemente estupefata. Quando conseguiu reagir, disse – ou entendi que me dizia, porque voltou a falar comigo no seu francês superior – que matar o leitor, além de um despropósito, era algo impossível, a não ser que, por exemplo, saísse disparada uma veloz e afiada flecha envenenada do interior do livro e fosse direto ao coração do desprevenido leitor.

ERNEST HEMINGWAY

Era, sobre todos os outros, a referência máxima para o protagonista de Paris não tem fim, assim como para o próprio autor. A tentativa de igualar-se ao ídolo, no entanto, se verificava mais na maneira de viver do escritor norte-americano do que no tipo de escrita:

© John Bryson/ Sygma/ Corbis/ LatinStock
Hemingway (1899-1961), autor referencial para o protagonista de
Paris não tem fim

E de onde saíra essa idéia de ter Hemingway como referência quase suprema? De quando tinha quinze anos e li de uma só vez seu livro de recordações sobre Paris e decidi que seria caçador, pescador, repórter de guerra, bebedor, grande amante e boxeador, quer dizer, que seria como Hemingway.

EDIÇÕES BRASILEIRAS DE PARIS É UMA FESTA, de Ernest Hemingway

Civilização Brasileira, 1985 (tradução de Enio da Silveira)
Círculo do livro, 1992 (tradução de Enio Silveira)
Bertrand Brasil, 2001 (tradução de Enio da Silveira)

GERTRUDE STEIN

Ao longo do livro, a admiração do personagem pela personalidade e pelo trabalho de Marguerite Duras só aumenta. Ela se torna figura fundamental em sua carreira, assim como o fora Gertrude Stein para Hemingway:

Gertrude Stein (1874-1946), cuja obra integrará a coleção Mulheres Modernistas da Cosac Naify

Miss Stein, em sua faceta de protetora, havia sido para Hemingway o que Marguerite Duras – eu supunha – era para mim […] Porque Gertrude Stein, exilada americana que tentava depurar o inglês e administrar choques estéticos (forçar o leitor a olhar o mundo exterior como se fosse pela primeira vez) através de uma excessiva simplificação da linguagem, foi uma escritora péssima apesar de ter exercido um magistério interessante sobre o jovem Hemingway.

 

RAYMOND QUENEAU

Marguerite Duras foi, ainda, quem deu ao jovem escritor o mais importante conselho que ele receberia durante sua estadia em Paris. Ela lhe transmitiu um ensinamento a ela passado, anos antes, pelo escritor Raymond Queneau:

Raymond Queneau (1903-1976), autor da apresentação de Satíricon, 21º volume da coleção Prosa do Mundo

Marguerite me fez, em seu francês superior, comentários que não entendi, só entendi a última coisa que me disse, isso compreendi nitidamente, pois se tratava do mesmo e famoso conselho que a ela anos antes tinha dado Raymond Queneau, esse conselho criminoso – no fundo eu o merecia, por ter escrito um livro criminoso – que se recebia como herança e que a amarrara para sempre a uma cadeira e a uma escrivaninha e que a mim me condenou ao mesmo. “Você escreva, não faça outra coisa na vida”, me disse.
Creio que se pode dizer que fui até Paris somente para aprender a escrever à máquina e receber o criminoso conselho de Queneau.

GEORGES PEREC

O francês era outro autor admirado:

Perec (1936-1982), autor de
A coleção particular
(Cosac Naify, 2005)

Também vi de verdade Perec em pessoa. Foi em meados de 1974, o ano em publicou Espèces d’espaces. Já o conhecia de muitas fotografias; entretanto nesse dia, numa livraria do bulevar Saint-Germain vi-o chegar ao lançamento de um livro de Philippe Solers. O certo é que durante um tempo, impressionado por vê-lo de verdade, o espiei com grande atenção, tanta que num determinado momento tive sua cara a um palmo da minha. Perec observou essa anomalia – um estranho a um palmo da sua barbicha – e reagiu comentando em voz alta, como tratando de sugerir que eu fosse com a minha cara para outro lugar:
– O mundo é grande, jovem.

JEAN-LUC GODARD

O cinema também influenciou a escrita do protagonista de Paris não tem fim. Entre os cineastas citados está Jean-Luc Godard:

Jean-Luc Godard (1930- ) em imagem do livro Cinema, vídeo, Godard, de Philippe Dubois (Cosac Naify, 2004)

Vudú urbano [do argentino Edgardo Cozarinsky], que era um livro que se adiantou a outros que depois mesclaram o ensaio com a ficção e que portanto avançava novas e interessantes tendências para a literatura, parecia composto de narrações que eram como ensaios e ensaios que eram como narrações. Era, por outro lado, um livro carregado de citações na forma de epígrafes que faziam pensar naqueles filmes de Godard que eram semeados de citações. Alguns de meus livros dos anos oitenta e noventa derivam, em parte, embora suponho que inconscientemente, do cinema de Godard.

GUSTAVE FLAUBERT

Num dos vários momentos em que recorre ao amigo Raúl Escari em busca de esclarecimentos em torno de questões relacionadas à literatura, o jovem escritor pede explicações sobre os temas da unidade e da harmonia num romance. Para lançar luz sobre o assunto, Escari evoca Gustave Flaubert:

Flaubert (1821-1880), autor do volume da Coleção Prosa do Mundo Três contos (Cosac Naify, 2004)

Ele foi até sua biblioteca e disse que ia em busca de uma amostra exemplar do combate feroz de um escritor pela unidade. E em pouco tempo voltou com as cartas de Flaubert para Louise Collet: ‘Em cinco meses escrevi setenta e cinco páginas. Cada parágrafo é bom em si mesmo e há páginas que são perfeitas. Estou seguro disso. Precisamente por isso, contudo, a coisa não avança. É uma coleção de parágrafos bem acabados e ordenados que não se comunicam uns com os outros. Terei de desfazê-los, afrouxar as dobradiças, como se faz com os mastros de um barco quando se deseja que as velas colham mais vento...’
‘Significa que’, disse Raúl, ‘não é questão nem de unidade nem de certa tolerância em distinção às divagações. O assunto é mais profundo do que parece. Que os parágrafos se comuniquem uns com os outros. Nada mais, nada menos’ .

JULIO RAMÓN RIBEYRO

Outro encontro que mereceu menção no livro aconteceu com o contista peruano Julio Ramón Ribeyro, a quem o protagonista deveria entregar, a pedido de uma editora de Barcelona, algumas provas de revisão:

Acervo Alida Cordero de Ribeyro
Ramón Ribeyro (1929-1994), autor de Só para fumantes (Cosac Naify, 2007)

Subi por uma íngreme escadaria, toquei a campainha de Ribeyro, que estava brincando com seu filho no vestíbulo da casa e abriu a porta no ato. Eu era muito tímido. Pelo visto, entretanto, Ribeyro também era. ‘Trouxe isto’, disse.[...]
Ribeyro pegou as provas e me observou em silêncio. Era alto e enxuto, pareceu-me que de uma ambígua fragilidade. 'Da parte de Beatriz', acrescentei, bastante nervoso. Nos segundos que se seguiram fiquei esperando que ele dissesse algo. Quando me pareceu que ia dizê-lo, fugi dali, e fiz isso por causa do pânico que minha timidez e a sua haviam provocado em mim. Desci os degraus em grande velocidade e, quando me achava já no primeiro andar e sentia que estava para alcançar logo o ar fresco e libertador da rua, ouvi de repente a voz do escritor chegando, amortecida pela risada feliz de seu filho, desde o alto do eco da lúgubre escadaria.
'Sossegue', ouvi que me dizia.

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