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© John Bryson/ Sygma/ Corbis/ LatinStock

Ernest Hemingway, referência literária para Vila-Matas e seu personagem

UM APRENDIZ DE ESCRITOR NA PARIS DOS ANOS 70
por Cassiano Elek Machado*


Leia este texto em arquivo PDF

Quando o ônibus adernou violentamente para a esquerda, na entrada da praia de Copacabana, toda a pilha de papéis que eu tentava manipular sobre meu colo voou ao chão. Ali, agachado no corredor cinzento do coletivo, me senti o protagonista deste romance, àquela altura ainda impresso em grandes folhas de papel soltas, que eu tentava recolher do piso do Barra–Siqueira Campos.

Leia entrevista com
o autor


Leia trechos do livro sobre as personalidades literárias que marcaram a vida do protagonista


Paris não tem fim
R$ 45
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Paris não tem fim, de um ponto de vista esquemático, não é muito mais do que o embate de um sujeito desastrado com a literatura. Com algumas diferenças de ingredientes e cozimentos, é precisamente esse o grande tema de seu autor, Enrique Vila-Matas.

Mas Paris não tem fim ocupa um lugar especial entre seus dezessete volumes de ficção. Escritor de escritores, e sobre escritores, nele escreve sobre um escritor que começa a escrever: ele mesmo. Ou melhor, o protagonista, de quem não sabemos o nome, obedece a história de seu criador.

O livro é narrado por um experiente escritor espanhol, como Vila-Matas, que faz uma “revisão irônica” do período que havia passado em Paris, em meados dos anos 70.

Tal como seu demiurgo, o jovem prosador havia passado dois anos na capital francesa, enfurnado num sotãozinho que alugou de Marguerite Duras. Nesse mesmo muquifo, que já hospedara figuras como um alucinado travesti chamado Amapola, uma atriz búlgara e até o futuro presidente francês François Mitterand, que por lá se escondera durante um par de dias, na Segunda Guerra, ele se esfalfa para produzir seu romance de estréia, A assassina ilustrada (adivinhem quem estreou com um livro de mesmo título?).

Se em Paris é uma festa Hemingway havia celebrado a cidade borbulhante que ele e seus amigos encontraram “quando éramos muito pobres e muito felizes”, nosso narrador peneira um passado parisiense de quando “era muito pobre e muito triste”. Vila-Matas, por supuesto, não deixa que esse narrador sorumbático derrape em momento algum para o melodrama. É com o mesmo riso sardônico que já havia impresso nos ótimos Bartleby e companhia e em O mal de Montano, também publicados por esta casa editorial, que acompanhamos o vagar quase sonâmbulo do jovem protagonista pelos cafés boêmios de Saint-Germain-des-Prés.

Mestre no uso de citações e no aproveitamento das mais diversas formas de narrativas, o escritor parece criar aqui um novo gênero literário. Se a literatura alemã formatou o bildungsroman, o chamado romance de formação, em Paris não tem fim estamos diante de um “entbildungsroman”. Trata-se de um delicioso “romance de deformação”.

*Cassiano Elek Machado, jornalista, integra a redação da revista Piauí.
Foi editor do Caderno Ilustrada,
do jornal Folha de S. Paulo e, em 2007,
assinou a curadoria da Flip (Festa literária internacional de Paraty)


SAIBA MAIS SOBRE VILA-MATAS

O AUTOR NA COSAC NAIFY:

A viagem vertical
[Leia texto sobre o livro]


O mal de Montano
[Leia texto sobre o livro]


Bartleby e companhia
[Leia texto sobre o livro]



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