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Intérpretes de Machado de Assis são analisados por Waizbort

A ENSAÍSTICA DE AUERBACH E ANTONIO CANDIDO

Este é um livro que interessará a leitores de diferentes áreas das humanidades, já que articula suas questões num espírito assumidamente multidisciplinar. Sob um título aparentemente simples - A passagem do três ao um, o estudo de Leopoldo Waizbort pressupõe uma familiaridade com a cultura de língua alemã a que o leitor brasileiro
não está acostumado. O fato, porém, não tira em nada o seu interesse, que está justamente em iluminar momentos fundamentais da ensaística brasileira a partir
de questões levantadas por pontos-de-vista europeus que se formaram na primeira metade do século xx.

Leia entrevista
com o autor



A passagem do três ao um, de L. Waizbort
R$ 49
Veja detalhes do livro e compre neste site

Crítica literária, sociologia e filologia, aqui, são representadas por ninguém menos que Georg Lukács, Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Erich Auerbach e Ernst Robert Curtius e, na parte que nos toca, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Antonio Candido e Roberto Schwarz - autores cuja envergadura intelectual, materializada em obras que mudaram a própria compreensão dos temas a que se dedicaram, exige assimilação refletida em larga escala. Com a paciência erudita de filólogo, o autor reconstitui argumentos passo a passo e, o mais importante, as necessárias adaptações por que devem passar quando confrontados com a realidade de uma sociedade periférica como a brasileira. No centro de tudo, o estatuto do realismo, ou seja, da arte do romance como conhecimento da história e da vida social.

Mas o método do autor não se limita à comparação minuciosa dos textos e vai além, através de uma pesquisa em escaninhos perdidos de arquivos e bibliotecas à procura de indícios que sirvam de base a seus argumentos: artigos e comentários dispersos ao longo dos anos em três continentes; entrevistas, documentos, anotações na margem de livros e até dedicatórias. Surge então uma outra dimensão das influências e trocas da vida intelectual, dimensão propriamente sociológica: as obras são apreendidas em seu processo de constituição, sujeitas a todo tipo de interferência, positivas ou negativas, vale dizer, influências produtivas, intuições felizes, diálogos entre amigos sob o signo de afinidades eletivas comuns, mas também as necessidades deletérias da afirmação das ciências sociais num país novo e o peso da hierarquia universitária e das teorias hegemônicas.

O núcleo do livro é a relação entre as obras de Erich Auerbach, o maior crítico-filólogo do século 20 em língua alemã, e de Antonio Candido, que escreveu livros de estatura ímpar, imprescindíveis para o conhecimento do Brasil. Nas palavras do próprio autor, "este estudo procura indicar como o trabalho de Antonio Candido faz-se em uma interlocução constante com Auerbach, não mediante a citação e referência explícita, mas sim na formulação mesma de um problema para a teoria e história literárias". Desse esforço levado a cabo por ambos os críticos, em que estão em jogo as relações entre história, gêneros, estilos e linguagens, surge uma concepção ampla de realismo. Ou seja, não existe o Realismo, mas tantos realismos quanto for possível inventar. O contraponto aqui é explícito: tanto Auerbach quanto Antonio Candido têm reservas àquele que melhor pensou o romance realista como gênero histórico, Georg Lukács. Daí a arquitetura não-linear do livro, que se abre com uma discussão das obras do filósofo austro-húngaro, de Raymundo Faoro e de Roberto Schwarz - todos eles também preocupados com as relações entre literatura e sociedade, mas que, a crer nas indicações do autor, praticaram análises onde o espectro do realismo é menos plural.

Por isso, a pedra de toque é o próprio Machado de Assis, objeto de A pirâmide e o trapézio (Faoro, 1974) e Ao vencedor as batatas e Um mestre na periferia do capitalismo (Schwarz, 1977 e 90) - a análise do escritor brasileiro feita por Antonio Candido, onde reponta algo da atitude de Auerbach, abre caminho para um modo particular de realismo, onde, junto a Zola, Jorge Amado e João Antônio, também convivem Marcel Proust, Murilo Mendes e Guimarães Rosa.

Do diálogo com Auerbach, às vezes explícito, às vezes subterrâneo, resulta uma compreensão harmoniosa e mais integrada da obra de Antonio Candido (incluindo Os parceiros do Rio Bonito, seu clássico sobre o caipira paulista), em que os principais problemas que enfrentou são analisados em processo crescente de amadurecimento, desde a crítica de rodapé dos anos 1940-50 e a tese sobre o método de Silvio Romero, passando por Tese e antítese e Literatura e sociedade, até suas obras-mestras Formação da literatura brasileira e O discurso e a cidade, duas das expressões máximas da crítica literária no Brasil. Como prova de independência intelectual, toda uma seção deste último livro, dedicada à contaminação dos níveis real/ irreal, traz contribuições "em uma frente que Auerbach apenas sugerira".

SAIBA MAIS SOBRE LEOPOLDO WAIZBORT

COLEÇÃO ENSAIOS
Romance das origens, origens do romance, de Marthe Robert
Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome, de Ismail Xavier
Da poesia à prosa, de Alfonso Berardinelli


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