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| Figura d’uomo giacente
(1853-1895), de Filippini Francesco. Oleo sobre tela |
100 x 231 cm | Coleção Musei Civici di Arte
e Storia di Brescia [Itália] |
CESARE PAVESE: UM ANTÍDOTO AO CANSAÇO
DE EXISTIR
por Ettore Finazzi-Agrò*
É legítimo, para quem desconfia de qualquer interpretação baseada em dados biográficos, resumir uma literatura, uma ideologia, uma estética, uma inteira existência poética, enfim, na sua conclusão? Talvez seja possível (e, por isso, justo) apenas quando percebemos que aquela obra – em que se reflete a vida e vice-versa –, foi desde o início jogada no limite extremo entre o puro sobreviver e a vertigem do Absoluto. E quando percebemos, aliás, que esse cansativo trabalho que é a existência, esse demorar incerto e penoso num limiar precário, levou desde sempre um escritor a cultivar o “vício absurdo” da morte. De fato, a obra poética de Cesare Pavese (1908-1950) pode ser olhada pelo avesso, na contramão da sua formação artística e da sua existência humana, a partir justamente do fim, daquele suicídio gritante no silêncio de um quarto de hotel. Porque aqui a morte é o remate fatal – o ápice, talvez – de uma vida vivida na paralisia do não-lugar, no espaço oco e angustiante da insuficiência.
Se existe, com efeito, um escritor que habitou fundo e de forma integral uma ambigüidade sem saída, este foi com certeza Cesare Pavese: entre a sua pequena aldeia natal (Santo Stefano Belbo) e a grande cidade industrial (Turim), entre tempos díspares e ambos marcados pela incerteza (o antes e o depois em relação à Segunda Guerra, período, este, que ficou, apesar de tudo, um tempo de certezas ferozes e de incontroversas experiências), entre o empenho político e o anarquismo ideológico, entre o amor pela literatura norte-americana e a devoção à cultura nacional, entre, enfim, a opção pelo realismo e a atração inconfessada pelo decadentismo. Instâncias, todas essas, que entram na definição, aberta e reversível, da sua poética: balançando entre verso e prosa, entre romance e poema, o escritor conseguiu, nesse sentido, dar voz ao seu dilacerante sentimento de inadequação, à angústia de uma condição dolorosamente imperfeita, desembocando no tédio de viver de forma sempre parcial e partida.
Ler Pavese hoje, no nosso tempo ainda intempestivo e anacrônico,
pode então representar um antídoto ao cansaço
de existir, à consciência dolorosa de uma vida
incompleta, ao sentimento de ser-pela-morte. Morte que é,
desde o princípio, o nosso fim e que, quando chegará,
terá talvez “os teus olhos”: o olhar de
uma velha, silenciosa companheira em que, finalmente, nos
espelharemos na nossa definitiva e
(des)humana identidade,
reconhecendo-nos na nossa patética – e todavia
gloriosa – nudez.
*Ettore Finazzi-Agrò
é Professor Titular de
Literaturas
Portuguesa e Brasileira na Faculdade de
Ciências Humanas
da Universidade de Roma “La Sapienza”;
diretor das revistas Letterature d’America e
Studi Portoghesi e Brasiliani
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