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Foto: Archivio Fondazione Cesare Pavese |
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| O poeta piemontês Cesare Pavese |
O CANSATIVO TRABALHO QUE É A EXISTÊNCIA
Livro de estreia do destacado intelectual italiano expressa
a solidão e a incompletude em poemas narrativos sobre
o dia-a-dia piemontês
No começo do século XX, quando
a poesia mundial se inflamava de modernidade e as enumerações
encadeavam-se, verso livre após verso livre, Cesare
Pavese (1908-1950) recusou as linhas-mestras desta lírica
moderna e, com projeto definido, pôs-se a escrever com
a métrica clássica de anapestos e a falar de
camponeses, adolescentes e bêbados que vagavam pelas
colinas de seu Piemonte natal. Em 1935, Pavese estreou na
poesia com Trabalhar cansa, que a Cosac Naify e a
7Letras lançam em edição bilíngüe
pela coleção Ás de Colete.
Este é o segundo livro do autor pela
Cosac Naify, que em 2001 publicou Diálogos com
Leucó (Coleção Prosa do Mundo),
27 breves conversas entre seres mitológicos em torno
de questões fundamentais para Pavese, como o amor,
a morte e a dor. Importante tradutor, editor e escritor, o
poeta combina em sua obra uma formação clássica
sólida, imersa no caldo cultural moderno da época
convulsionada que viveu a Itália. Considerado um dos
grandes escritores italianos, circulou entre os mais destacados
intelectuais do período fascista: Norberto Bobbio,
Tullio Pinelli, Massimo Mila, Giulio Einaudi, Leone Ginzburg,
Natalia Ginzburg, Elio Vittorini, Italo Calvino e Vasco Pratolini.
Reunindo 70 poemas escritos entre 1930 e 1940, Trabalhar
cansa se compõe de três diferentes fases.
No início, versos narrativos tradicionais de 1930 a
1933 combinam sua experiência das paisagens e figuras
do Piemonte rural e urbano com a influência da cultura
americana que lhe chegava pelos livros. Está nestes
primeiros textos a declaração de seu projeto
poético: uma poesia radicalmente objetiva e narrativa,
antilírica, que, nas palavras do tradutor Maurício
Santana Dias, tinha por objetivo “tentar fazer a poesia
aderir à experiência e buscar romper o cerco
de alienação que teria apartado a arte da vida”.
Mais adiante, Pavese incorpora imagens, como havia de início
evitado. Ao compor o primeiro poema da série “Paisagem”,
postou entre colinas altas e baixas um eremita “alto
e baixo, superiormente burlesco, a despeito das minhas convicções
anti-imagéticas, da ‘cor de um freixo crestado’”,
e descobriu, assim, a imagem. “Esta imagem, era, obscuramente,
a própria narrativa”, diz Pavese em “O
ofício de poeta”, escrito em 1934 e incluso em
apêndice na presente edição. Os poemas
finais de Trabalhar cansa, de “Paternidade”
(1935) a “Noturno” (1940), apresentam uma poética
mais subjetiva, que traz para o primeiro plano temas como
a solidão e a inutilidade das ações.
O ritmo adotado em 1930, no começo da composição dos poemas, pouco modificou-se ao longo dos dez anos. Para Santana Dias, que assina a introdução da edição, “é óbvio que essa regularidade extrema, longe de mimetizar o real, funciona mais como uma negação da realidade em que o escritor está imerso; ou seja, quanto mais o mundo à sua volta se tornava turbulento, excessivo, veloz, caótico, mais Pavese lhe impunha uma ordem clara e precisa.”
A última fase dos poemas de Trabalhar cansa foi elaborada a partir do confinamento de Pavese na Calábria, entre 1935 e 1936, sob a acusação de trocar cartas de conteúdo político anti-fascista, e depois de uma grande decepção amorosa – a notícia, recebida na volta do exílio, de que a mulher que amava estava prestes a se casar. Tais fatos teriam acentuado o recolhimento e o silêncio naturais do poeta.
Natalia Ginzburg, em seu livro Léxico Familiar (Cosac Naify, no prelo) deixa entrever, em seu relato, a personalidade de Pavese: “Vinha à casa de Leone [Ginzburg] todas as noites; pendurava seu cachecol lilás e seu casaco de martingale no cabide e sentava-se à mesa. Leone ficava no sofá, apoiando-se com o cotovelo na parede. Pavese explicava que não vinha lá por coragem, porque coragem ele não tinha nenhuma; e nem mesmo por espírito de sacrifício. Vinha porque, do contrário, não saberia como passar as noites; e não dava conta de passá-las sozinho. E explicava que não vinha para ouvir falar de política, porque ele ‘estava se lixando’ para a política. Às vezes fumava cachimbo, a noite inteira, em silêncio. Às vezes, enrolando os cabelos nos dedos, contava casos de sua vida. (...) À meia-noite, Pavese apanhava o cachecol do cabide, ajeitava-o depressa em volta do pescoço; e apanhava o casaco. Ia descendo o Corso Francia, alto, pálido, com a gola levantada, o cachimbo apagado entre os dentes brancos e fortes, o passo largo e rápido, o ombro encolhido”.
Em texto exclusivo (veja a seguir), o professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade de Roma “La Sapienza”, Ettore Finazzi-Agrò, ressalta a relação entre vida e obra de Pavese. “A obra poética de Cesare Pavese pode ser olhada pelo avesso, na contramão da sua formação artística e da sua existência humana, a partir justamente do fim, daquele suicídio gritante no silêncio de um quarto de hotel. Porque aqui a morte é o remate final – o ápice, talvez – de uma vida vivida na paralisia do não-lugar, no espaço oco e angustiante da insuficiência”.
Trabalhar cansa foi inicialmente publicado em 1936,
pela revista Solaria, com poemas compostos até
1935; em 1942, o próprio Pavese fez, pela editora Einaudi,
uma edição excluindo sete poemas da publicação
anterior e incluindo, além dos poemas que
compôs até 1940, dois textos acerca de seu metier:
“O ofício de poeta (a propósito de Trabalhar
cansa)”, de 1934, e “A propósito de
alguns poemas ainda não escritos”, de 1940. Neste
último, ele define Trabalhar cansa como “a
aventura do adolescente que, orgulhoso do seu campo, imagina
que a cidade é semelhante, mas nela encontra a solidão
e tenta remediá-la com o sexo e a paixão que servem
apenas para desenraizá-lo e lançar para longe
do campo e da cidade, numa mais trágica solidão
que é o fim da adolescência”.
Na apresentação deste apêndice, declara:
“Qualquer que venha a ser o meu futuro de escritor, considero
concluída com este texto a pesquisa de Lavorare stanca.”
• Leia dois poemas suprimidos pelo autor
da edição definitiva do livro, pela Einaudi [Turim,
1943]: "Traição"
e "Más
companhias".
SAIBA MAIS SOBRE CESARE
PAVESE
LITERATURA ITALIANA NA COSAC NAIFY
Diálogos com Leucó, Cesare Pavese
Um, nenhum, cem mil, Luigi Pirandello
Conversa na Sicília, Elio Vittorini
Homens e não, Elio Vittorini
Léxico familiar, Natalia Ginzburg [no prelo]
COLEÇÃO ÁS DE COLETE
Poesia reunida [1969-1996], Orides Fontela
Poemas [1968-2000], Francisco Alvim
A rosa das línguas, Michel Deguy
Sete pragas depois, Antonio Cisneros |
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