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TRAIÇÃO
Cesare Pavese
De manhã não estou mais sozinho. A recente mulher,
estendida na proa, faz peso no fundo
da canoa, que a custo desliza nas águas tranqüilas
e geladas, opacas do sono noturno.
Superei o rio Pó turbulento e brilhante de sol,
de ondas rápidas e de areeiros, e, vencendo uma curva
após muitos vacilos, cheguei ao Sangone
e o segui. "Que delícia", ela disse em voz alta,
sem mover o seu corpo supino, com olhos no céu.
Não há alma ao redor e as margens são altas,
mais estreitas em cima. cerradas de choupos.
Como é tosco este barco nas águas tranqüilas.
Sobre a popa, abaixando e erguendo o meu remo,
vejo o lenho que avança empachado: é a proa que afunda,
é a mulher com seu corpo que pesa. vestida de branco.
A parceira me diz que é indolente e mantém-se parada.
Solitária ela mira, deitada, as cimalhas das árvores;
está como na cama e me atulha a canoa.
Pôs agora uma mão sobre a água e a deixa espumar
e me atulha até o rio. Eu não posso mirá-la
_sobra a proa onde estende seu corpo_ e ela vira a cabeça
e me fixa, indiscreta, de baixo, movendo a coluna.
Quando peço que fique no centro e que saia da proa,
me responde num riso matreiro: "Me quer bem pertinho?".
Noutras vezes, pingando de um salto entre os troncos e as pedras,
prosseguia voltado pro sol e sentia-me tonto
e atracando em um canto pulava de costas.
ofuscado pela água e os raios, o remo de lado,
acalmando o suor e o cansaço no alento
da ramada e no abraço da relva. Ora a sombra se abrasa
ao suor que se arrasta no sangue e nos membros exaustos,
e a arcada das árvores filtra a clareza
de uma alcova. Sentado na relva, não sei o que dizer
e me aperto os joelhos. A parceira sumiu
pelo bosque de choupos, sorrindo, e eu devo segui-la.
Minha pele está exposta e dourada de sol.
A parceira, que é loura, apoiando suas mãos
sobre a minha e saltando na areia, deixou-me sentir,
com a fragilidade dos dedos, o aroma
do seu corpo encoberto. O perfume outras vezes
era de água secada no lenho e suor sob o sol.
A parceira me chama inquieta. Vestida de branco
ela gira entre os troncos e eu devo segui-la.
[25-30 de Junho de 1932] |
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