AUTOR
E ILUSTRADOR ODILON MORAES
DESVENDA OS SEGREDOS DE PEDRO E LUA

Assista
a uma animação deste livro,
feita a partir das ilustrações de Odilon Moraes
Entrevista para Isabel
Coelho
A modéstia impede
Odilon Moraes de se auto-intitular um artista. Mas o ilustrador,
que também se aventura na escrita, já trabalhou
em mais de 60 livros e reúne um portfólio com
27 telas. O contato com a pintura teve início na infância,
aos 6 anos. Seu pai, um juiz de direito e pintor amador ("no
sentido de amar a pintura"), o levava para desenhar as
paisagens do interior de São Paulo. Advém dessas
tardes, longas e silenciosas à beira da estrada, a
concepção crítica sobre arte desenvolvida
por Odilon: "a imagem é definida pela palavra".
Nascido em 1966, em São Paulo, morou em diversas cidades
do interior, fez intercâmbio em Wight (Inglaterra),
até voltar para a cidade natal a fim de cursar arquitetura
na Universidade de São Paulo. Logo viu, no entanto,
que não tinha a menor vocação para arquiteto
e passou a se dedicar à ilustração.
Em 87, volta para Londres onde pretendia formar-se numa escola
de arte. Ao invés, freqüentava os museus, pois
não se sentia à vontade "em ambiente de
artista". Ser ilustrador, de acordo com Odilon, o salvou
dos rótulos de pintor e artista. Ele considera seu
trabalho, feito sem nenhum recurso tecnológico, como
a "transição entre a palavra e a imagem".
Vencedor do prêmio Jabuti (Melhor Ilustração
Infanto-juvenil) por A princesinha medrosa (Companhia
das Letrinhas, 2002), Odilon, nesta entrevista, explica sua
técnica de trabalho e conta os segredos de Pedro e Lua.
O ilustrador trabalha sobre um texto. Como é
ilustrar livros cujos textos não são bons ou
sua leitura difere da do autor?
OM: Eu cheguei num momento em que posso escolher o trabalho;
já publiquei mais de 60 livros. Mas sempre procuro
qualidade no texto, apesar de ser um desafio ilustrar um texto
que não tem a ver comigo. O ilustrador é um
tradutor; ele se apropria do texto e dá uma imagem
para aquilo. E sua função é se esconder
atrás do texto. É bacana fazer coisas que não
têm a ver. Às vezes tem um texto colorido, alegre
e eu não tenho esse colorido naturalmente. Mas acho
que isso alarga a experiência. Existe uma questão
que leva a pessoa a escrever.
Às vezes o texto é maior do que o autor, como
no caso de Fernando Pessoa e Joyce. Mas o Picasso pinta porque
ele é maior do que a arte. A arte, nesse caso, é
a extensão do sujeito. As pessoas têm afinidades
existenciais que transitam nas artes: na música, na
literatura, na pintura. Daí a tradução.
Você desenvolve outros trabalhos além
da ilustração?
OM: Pois é. Eu pinto, mas não me considero um
pintor, porque eu demoro muito para terminar uma tela. Eu
jogo um pouco de tinta, passa um tempo, jogo mais um pouco...
E só termino quando aquilo vira uma palavra.
Ser ilustrador foi um alívio, uma solução.
As pessoas perguntam "O que você faz?", e
eu posso responder "sou ilustrador".
Ainda existe o conceito de que o ilustrador não
é o autor do livro?
OM: Ah, sim. Trabalhei com autores que nem queriam saber das
ilustrações. Aí dá problema. A
base fica sendo puramente o texto. E muitas vezes não
dá certo. O ilustrador lê desvinculado do autor
e podem acontecer leituras diferentes; um não concorda
com o outro. Já tive esse problema várias vezes.
Resolve-se com o editor e o chefe de arte. Isso se dá
principalmente porque o ilustrador não é reconhecido
como autor.
E o visual é algo tão presente, faz
parte da narrativa...
OM: A gente vive na "sociedade do espetáculo";
há um apelo visual muito forte, mas é o que
eu chamo de "mundo da casca". Embora haja o predomínio
da imagem, há uma dessacralização dela.
Brinca-se com as cascas mas não se percebe o que há
dentro delas. A visão deixou de ser a entrada para
ser a "coisa", definitiva.
Acho que Pedro e Lua é uma reflexão
sobre isso: um objeto que sugere outros significados, sai
da casca e tenta metaforizar, em diversos objetos, a idéia
do Espanto. O homem se diferencia do animal pela sua capacidade
de se espantar. E o primeiro espanto foi a lua. Todos se dirigem
a ela, mas, a quem a Lua se dirige? Trabalho um pouco esse
tema em Pedro e Lua.
E como você concilia a pintura com a ilustração?
OM: Ah, eu pinto desde criança, mas ilustração
é minha profissão. Fico anos sem pintar, fecho
o ateliê e não tenho idéia de quando voltarei
a pintar. Comecei a pintar aos seis anos, com meu pai. Ele
era juiz de direito e pintor amador, no sentido de amar a
pintura. Não pensava sobre isso, só fazia o
desenho. Acho que é como se apaixonar por uma prostituta:
no começo não dava valor. Ele colocava os cavaletes
no carro e parava na estrada [interior de São Paulo]
e passávamos a tarde pintando a paisagem, sem trocar
uma palavra. Acho que vem daí a idéia de que
a pintura substitui a palavra, mas é definida por ela.
A Clarice Lispector disse que "o objeto que te diz quem
você é". Quando chegávamos em casa,
ele pendurava uma tela ao lado da outra.
O que é a pintura, para você?
OM: A pintura é a busca de uma palavra. Toda essência
humana é baseada na capacidade de se espantar. O homem
é a capacidade de se definir, é a pergunta,
ele é porque não é. As artes nascem desse
espanto: o momento onde o homem é. As artes deixam
eternamente presente o instante o qual o homem é. A
manifestação artística é uma nostalgia
do que foi, porque, uma vez findo o momento de criação,
ele não é mais.
E a técnica, como como você desenvolve
essa filosofia na prática?
OM: Eu uso cores primárias (vermelho, azul, amarelo),
além do preto e do branco. Não utilizo nada
de tecnologia, não sei de nada, nem ajustar o relógio
do vídeo cassete. Isso tem me causado um problema quanto
à entrega dos livros; sempre mudam alguma coisa. Mas
agora, tenho um colega de escritório que faz a digitalização
para mim e eu mando tudo em disquete.
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