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Foto: Flávia Castanheira
Tradicional ateliê de lambe-lambe em São Paulo,
onde foram produzidas as quatro capas do livro

PENSAR COM TIPOS UNE TEORIA E PRÁTICA DO DESIGN

Até pouco tempo atrás, os livros que tratavam de design e tipografia costumavam dividir-se em manuais técnicos e publicações teóricas. Se isso nunca chegou a constituir um problema para a área teórica, o mesmo não se pode dizer da vasta produção instrumental para a atuação profissional do designer, que nos últimos cinqüenta anos viveu sob o efeito de uma anestesia crítica patente. Esse estado de coisas tem duas causas. A primeira delas vem da longa tradição tipográfica ocidental, cujos códigos são capazes de preencher por si sós volumes extensos, sem deixar espaço para questões mais abrangentes. A segunda vem do discurso modernista, inspirado nas possibilidades da máquina, da indústria e da sistematização, que dominou e ainda domina o ensino formal da tipografia em diversas escolas – sem deixar espaço para questões mais abrangentes.

De outro modo, como explicar a distância que os livros que tratam do ensino e da prática da tipografia mantêm das teorias fundamentais que transformaram a compreensão da linguagem humana nos últimos cem anos? Parece incrível, mas até o final dos anos 90 nenhuma dessas publicações havia demonstrado qualquer interesse pelo enfrentamento das questões próprias da semiótica, da fenomenologia, do estruturalismo, do pós-estruturalismo e de outras teorias filosóficas que acompanharam o surgimento e a popularização da informática. Se tomarmos essas teorias como galáxias distantes do cotidiano da tipografia, isso não deve causar surpresa. No entanto, a realidade é outra. Todas as revoluções ocorridas nos meios de comunicação visual de 50 anos para cá (e todos os ataques às suas tradições e dogmas) estão intimamente relacionadas a elas. Para entender esses movimentos – e para libertar-se da obrigação de segui-los ao pé da letra (ou ao pé da imagem) –, é preciso entender as teorias que municiam suas questões e que abrem os caminhos da experimentação.

 



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A crítica ao modernismo no design gráfico ganhou força e consistência na década de 80, quando o computador pessoal começou a invadir as empresas de design e a transformar radicalmente o cenário da produção visual na América do Norte e na Europa. A escola novaiorquina Cooper Union ganhou notoriedade por investigar a confluência entre a vertente suíça do design, baseada no desenvolvimento e na aplicação de sistemas, e a vertente norte-americana, baseada no insight e radicada na história e no repertório popular norte-americanos. Inspirada por esse movimento, a então estudante Ellen Lupton iniciou, junto com alguns de seus colegas, um programa de pós-graduação que batizou de Design Writing Research. A iniciativa incentivava a colaboração experimental teórica e prática e tinha por princípio dar o mesmo peso às atividades de pesquisa, produção de textos e comunicação visual. Uma pesquisa sobre as conseqüências da lingüística de Saussure para o design gráfico, por exemplo, deveria resultar em uma escrita clara e acessível, e o seu design deveria contribuir para esclarecer e fortalecer as idéias discutidas, com farto uso de recursos gráficos e tipográficos.

Os produtos desse programa ganharam enorme popularidade. O Design Writing Research foi transformado em empresa e teve sua produção publicada em um livro homônimo. Ellen assumiu a curadoria da área de design contemporâneo do Cooper-Hewitt National Design Museum, em Nova York, produzindo exposições e publicações memoráveis, como Mechanical Brides: Women and Machines from Home to Office, Mixing Messages (1996), Graphic Design in the Mechanical Age (1999), Skin: Surface, Substance + Design (2002), além das National Design Triennials de 2000 e 2003, que se tornaram o grande termômetro da produção norte-americana na área. Antes disso, no final da década de 90, Ellen ingressou como professora do programa de design no Maryland Institute College of Art em Baltimore, suspendendo temporariamente o projeto Design Writing Research.

Pensar com tipos é um resumo e um fruto dessa trajetória. “Decidi fazer este livro porque não havia nenhum texto adequado para acompanhar meu próprio curso de tipografia”, declara Ellen. De fato, é muito difícil encontrar livros que aliem investigação teórica e efetividade prática em um todo atraente e agradável de ler. “Procurei um livro calmo e inteligível, onde texto e design colaborassem para melhorar a compreensão do assunto; um livro pequeno e compacto, econômico porém bem construído – um manual que fosse projetado para as mãos; um livro que refletisse a diversidade da vida tipográfica no passado e no presente, expondo meus estudantes a histórias, teorias e idéias. Finalmente, procurei um livro que fosse relevante para vários meios de comunicação visual, da página impressa à tela. Não tive outra alternativa a não ser escrevê-lo eu mesma.”

Aliando teoria contemporânea, prática informada, prosa clara e projeto visual inteligente, Pensar com tipos é uma excelente porta de entrada para o mundo da tipografia, além de um ótimo companheiro para os cursos da área. “Pensar com tipos foi montado em três seções – letra, texto e diagrama – indo do átomo básico da letra à organização de palavras em corpos coerentes e sistemas flexíveis. Cada seção abre com um ensaio sobre as questões culturais e teóricas que alimentam o design tipográfico em diversos meios de comunicação. As páginas demonstrativas que se seguem a cada ensaio não mostram apenas como a tipografia se estrutura, mas por que ela o faz, reforçando as bases funcionais e culturais dos hábitos e convenções do design.”

Ao longo do livro, as informações teóricas aparecem sempre acompanhadas de exemplos práticos, e os exemplos práticos aparecem sempre contextualizados na história e na teoria do design. Os ensaios – em sua maioria adaptações de alguns dos brilhantes textos que compõem o volume Design Writing Research – trazem panoramas históricos e teóricos abrangentes, que vão das origens da tradição aos impasses dos novos meios de comunicação. Da mesma forma, os exemplos práticos são acompanhados de argumentações claras e bem fundamentadas. Um apêndice com “dicas úteis, alertas agourentos e outras fontes” complementa o livro, incluindo um pequeno guia de preparação, edição e revisão de textos para designers. Ao fim e ao cabo, Pensar com tipos, como o próprio título sugere, não trata tipografia como um fim em si mesma, com seus vícios, fetiches e clichês auto-referenciais, mas como uma atividade “com a qual o conteúdo ganha forma, a linguagem ganha um corpo físico e as mensagens ganham um fluxo social.”

Sucedendo o clássico Elementos do estilo tipográfico, de Robert Bringhurst, Pensar com tipos é a segunda obra de referência dedicada à tipografia na coleção de design editada pela Cosac Naify.

SOBRE O PROJETO GRÁFICO

O livro foi originalmente projetado por Ellen Lupton. Seu miolo foi adaptado e composto por André Stolarski e Flávia Castanheira. A Cosac Naify, entretanto, fez uma nova capa, em quatro versões, projetada por Elaine Ramos com a colaboração de Flávia Castanheira, e impressas pelo método artesanal a partir de tipos móveis de madeira produzidos num tradicional ateliê de lambe-lambe. Esses tipos costumam ser empregados em São Paulo para a impressão de cartazes promovendo shows de música e outros eventos, colados nos muros e postes da cidade – geralmente sem permissão legal.

SOBRE A AUTORA

Ellen Lupton é uma das mais renomadas autoras e educadoras na área de design gráfico dos Estados Unidos. Entre seus diversos livros publicados estão: Skin: Surface, Substance + Design, Design Culture Now, Mixing Messages e Design Writing Research. Ela é curadora de design contemporâneo na Cooper-Hewit National Museum, em Nova York, e diretora do programa de design no Maryland Institute College os Art, em Baltimore.

LEIA TAMBÉM

Elementos do estilo tipográfico, de Robert Bringhurst


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