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São Sigismundo e Pandolfo
Malatesta, afresco, Templo Malatestiano, Rimini
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O historiador Carlo Ginzburg falou ao jornal Folha de
S. Paulo sobre Piero della Francesca, livro
de Roberto Longhi lançado no Brasil pela Cosac Naify.
Leia, abaixo, a reprodução da entrevista publicada
no dia 8/12/200 no caderno Ilustrada.
À LUZ DE UM MESTRE
por SILAS MARTÍ
No mesmo ano em que publicou um ensaio sobre a escultura
futurista de Umberto Boccioni, texto que abalou os círculos
acadêmicos em 1914, o historiador italiano Roberto Longhi
(1890-1970) voltou cinco séculos no tempo para estudar
a obra do pintor Piero della Francesca (1416-1492).
Figura ímpar do "Quattrocento", a segunda
fase do Renascimento, Piero, um dos nomes fundamentais da
história da arte, aprendeu perspectiva com mestres
de Florença, onde passou alguns anos de sua juventude.
Ele acrescentou ao desenho esquemático e opaco da época
volume e detalhes que observou nos quadros de artistas flamengos
e desenvolveu uma pintura luminosa que, séculos mais
tarde, seria copiada pelos impressionistas.
Longhi esquadrinhou os afrescos de Piero por um prisma moderno
e deu origem a duas teses que causam impacto até hoje:
a idéia de que o pré-cubista Paul Cézanne
(1839-1906) -artista que superou os impressionistas com um
equilíbrio entre cor e formas geométricas- teria
encontrado em Piero um precursor indireto e a reavaliação
que faz do peso de Florença na arte italiana, cidade
que, no livro, parece bem menos importante do que foi.
O autor publicou suas idéias pela primeira vez em
1927, no livro Piero della Francesca, referência
na bibliografia sobre o pintor, agora traduzido para o português
(ed. Cosac Naify, R$ 99, 368 págs.).
Quem faz o prefácio da nova edição é
Carlo Ginzburg, autor de O queijo e os vermes, clássico
da chamada micro-história, corrente surgida na Itália
nos anos 60, que esmiúça uma época a
partir de pequenos personagens e acontecimentos.
Em entrevista exclusiva à Folha, ele comenta a trajetória
do pintor vista pelos olhos de Longhi, historiador que tentou
dar um equivalente verbal ao fascínio das obras de
Piero. Ginzburg, que também escreveu um livro sobre
o pintor ("Indagações sobre Piero";
ed. Paz e Terra, R$ 27, 144 págs.), falou por telefone,
de Pisa, na Itália. Leia a seguir os principais trechos
da entrevista.
FOLHA - Como o estudo que fez das vanguardas, como
o futurismo, mudou o olhar de Roberto Longhi sobre Piero della
Francesca?
CARLO GINZBURG - Quando Longhi, em 1914,
escreve sobre as esculturas de Boccioni, faz algo que era
impensável então para um acadêmico. Tentar
descrever a escultura de Boccioni era algo absolutamente distante
da cultura acadêmica. Mas, logo depois, surge o livro
sobre Piero della Francesca, que põe em primeiro plano
Cézanne e Piero. É Piero visto através
de Cézanne e Cézanne visto através de
Piero. Na minha opinião, essa é uma leitura
contra o futurismo. Cézanne seria para ele uma alternativa
às vanguardas e Piero é um clássico visto
através do clássico moderno que era Cézanne.
FOLHA - Como se explica a conexão
de Piero com Cézanne, que se consagrou quatro séculos
depois?
GINZBURG - Não é que havia
uma ligação direta. Cézanne, na primeira
fase de sua carreira, estudava os venezianos. Estudou Tintoretto,
Veronese, disso nós sabemos. Piero não estava
entre os pintores estudados por ele, mas Cézanne reencontra
nele esse elemento geométrico, suas formas simples.
Há uma simplificação da realidade, que
ele vê em Piero e Cézanne.
FOLHA - E de que forma Piero influenciou
os venezianos estudados pelos impressionistas?
GINZBURG - A idéia de Longhi é
que Piero foi fundamental para o desenvolvimento da pintura
por causa de sua aproximação com [o veneziano]
Giovanni Bellini. A pintura luminosa de Piero se prolonga
no tempo com Bellini e os venezianos e acaba encontrando um
eco nos impressionistas. Como Longhi havia intuído,
havia cópias dos afrescos que Piero fez em Arezzo na
École des Beaux Arts, em Paris, e [Georges] Seurat
os teria visto. Foi algo comprovado depois, mas Longhi tinha
então um elemento adivinhatório.
FOLHA - A atenção ao detalhe
e a exuberância das cores não teriam chegado
a Veneza por influência dos pintores flamengos?
GINZBURG - Piero já havia visto os
flamengos, sobretudo Van Eyck. Sabe-se que Van Eyck fez um
quadro que estava em Urbino. Esse quadro foi perdido, mas
Piero o viu. Segundo Longhi, pode-se ver o traço desse
contato com a arte flamenga por parte de Piero na Flagelação
de Cristo, principalmente nos mantos dos personagens.
FOLHA - O peso que Longhi dá a Piero
não reduz a importância de Florença, cidade
que foi o motor do Renascimento?
GINZBURG - Neste livro, Florença ocupa
um papel marginal. Longhi faz uma leitura da história
da arte italiana em que a cidade já não é
mais o centro. Ele cobre uma quantidade de centros periféricos,
que ganharam uma grande importância. E Piero é
um bom argumento a favor disso. Ele se opõe a Florença:
olhou para os flamengos e influenciou os venezianos.
FOLHA - A força de Piero então
está no fato de ter sido um viajante, que não
obedeceu a nenhuma escola?
GINZBURG - Piero é como um centro
de trocas, ocupa um lugar central na pintura italiana. Rafael
se inspira em Piero. Ele pintou o Vaticano depois que foram
destruídos os afrescos de Piero. Michelangelo está
ligado a ele, embora distante. Ticiano também, por
meio de Bellini. O século XVI
na Itália e na Europa não teria sido como foi
se Piero não tivesse existido.
LONGHI DESCOBRE FATOS NAS FORMAS
Ginzburg vê no livro uma mistura de morfologia com história,
que revela detalhes biográficos de Piero a partir das
obras. Leia abaixo a continuação da entrevista
com Carlo Ginzburg.
FOLHA - Longhi consegue dar um equivalente
verbal à grandeza das obras de Piero?
GINZBURG - É uma linguagem muito difícil
a que ele usava, cheia de imagens, com palavras arcaicas e
pinceladas bizarras. O fim a que se propunha era mesmo o de
dar um equivalente verbal da obra de arte. Ele é a
combinação de um filólogo com historiador,
que conhece muito bem, sobretudo, as fontes primárias,
os testemunhos figurativos e também as fontes secundárias,
as biografias, os catálogos. Ele apresenta propostas
de pesquisa muito novas, numa linguagem muito inusitada. Era
um estudioso muito autônomo e pouquíssimo acadêmico.
Tinha uma escrita, um estilo único.
FOLHA - Isso não apresentaria problemas
aos tradutores?
GINZBURG - Há elementos intraduzíveis.
Não que seja impossível traduzi-lo. Se traduziram
Joyce, também podem traduzir Longhi, mas não
é comum que a obra de um estudioso apresente tantos
problemas aos tradutores e, claro, aos leitores. Mas ele tem
um elemento magnético, que prende o leitor. Acho que
neste livro, mesmo traduzido, será possível
perceber esse magnetismo que vai além do estilo, que
está a serviço da argumentação.
FOLHA - Você se identifica com a
metodologia de Longhi? Acha que seguiu preceitos da microhistória?
GINZBURG - Não posso dizer que vejo
neste trabalho algum eco da microhistória, mas minha
relação com Longhi tem outra característica.
O que me interessa no texto de Longhi é a relação
entre a morfologia e a história. Longhi analisa as
formas, o aspecto formal de Piero della Francesca ou de qualquer
outro pintor e, a partir dessa leitura muito aprofundada e
intuitiva dessas obras, consegue estabelecer nexos, conexões,
que são morfológicas, ou seja, que nascem da
análise do traço e da feitura das obras.
FOLHA - Os afrescos em si escondiam mais
pistas do que os documentos e provas da época?
GINZBURG - Essa é a grande problemática
e, aqui, acho que Longhi é de uma riqueza extraordinária
porque, em certos casos, são as descobertas formais
que antecipam as descobertas documentais. É a relação
entre morfologia e história, entre aquilo que nos diz
o estilo e o que nos diz a pesquisa sobre a iconografia, o
contexto. Essa relação é proposta por
Longhi de maneira muito original.
FOLHA - Como você vê a herança
de Longhi?
GINZBURG - Ele foi um historiador da arte
que esteve entre os mais importantes do século xx
e repensou a tradição pictórica
da arte italiana, mas não o considero um colega, um
companheiro de estrada. Ele foi, é claro, um grande
professor, mas não no sentido banal do termo. Eu o
vejo como um desafio, não como um inimigo. E nessa
tentativa dele de repensar a história da arte italiana,
Piero della Francesca tem uma importância capital. Nós
nunca escrevemos sobre os mesmos assuntos, com exceção
de Piero, que é uma grandíssima exceção.
FOLHA - Você não é um
historiador da arte, mas se dedica bastante ao assunto. Como
surgiu seu interesse pela obra de Piero?
GINZBURG - Comecei a visitar Arezzo quando
jovem, há mais de cinquenta anos. Lembro a impressão
que me fez a Flagelação de Piero restaurada,
numa mostra em Roma, em 1955. Vi esse quadro e nunca mais
o esqueci. Digamos que minhas incursões no campo da
história da arte se ligam, sobretudo, a Piero della
Francesca.
FOLHA - Você concorda com a leitura
de Piero intermediada por Cézanne, principal tese de
Longhi?
GINZBURG - Não gostaria de exagerar
a contraposição entre a síntese de forma
e cor, de Piero, e o desenho seco, estruturado de Florença
que Longhi condenava, mas é uma idéia reveladora.
Faz vir à tona a hostilidade que ele sentia em relação
à idéia tradicional, florentino-cêntrica
da história da arte, e mostra como ele foi um historiador
idiossincrático, anômalo e extraordinário.
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