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O triunfo de Battista Sforza, de Piero della Francesca (entre 1465 e 1472)

LONGHI E O RIGOR POÉTICO DE PIERO DELLA FRANCESCA
Por Daniel Piza*

Há exatos 80 anos, quando Piero della Francesca, de Roberto Longhi, foi publicado na Itália, o livro - logo traduzido para outros idiomas - abriu, sem trocadilho, nova perspectiva para o estudo desse que foi um dos maiores pintores do "Quattrocento", o Renascimento do século XV. O efeito da publicação atesta a importância de Longhi (1890-1970), considerado por muitos o maior crítico de arte italiano do século XX ou, no mínimo, um dos dois maiores, ao lado de Giulio Carlo Argan (1909-1992), cujas mais significativas contribuições são sobre arquitetura e sobre a pintura moderna. Outro atestado vem do tempo: o livro de Longhi continua sendo um dos mais importantes já escritos sobre o gênio italiano.

Leia a introdução do historiador Carlo Ginzburg

Veja galeria de imagens

Carlo Ginzburg fala à Folha de S. Paulo sobre Piero della Francesca


Piero della Francesca
R$ 99
Veja detalhes do livro

O nome de Longhi é imediatamente associado ao de dois artistas em especial: Piero della Francesca e Caravaggio. De Michelangelo Merisi, dito Caravaggio, ele organizou em 1951 uma retrospectiva, a ser publicada em 2008 pela Cosac Naify, que, sem exagero, tirou o artista de um lugar secundário em que jazia por três séculos na história da arte; o livro da exposição, lançado no ano seguinte, é obrigatório para qualquer admirador de Caravaggio. Longhi, porém, fez muito mais. Estudou como ninguém, por exemplo, a arte da Lombardia, de cidades como Milão e Bergamo. E não ficou só no Renascimento: foi amigo de pintores modernos como Carlo Carrà e Giorgio Morandi, sobre os quais escreveu textos fundamentais, especialmente sobre o último. Tanta abrangência pode ser conferida na Breve mas verídica história da pintura italiana, já publicada pela Cosac Naify, em 2003, e na coletânea Da Cimabue a Morandi (Mondadori, 1973).

Quando escreveu a monografia sobre Piero della Francesca, Longhi tinha 37 anos e já vinha se firmando como um influente crítico do período entre-guerras, na função de colaborador das revistas La Voce e L'Arte, esta dirigida por seu mentor, o grande historiador Lionello Venturi. Nascido em Alba, no Piemonte, e formado em Turim com uma tese justamente sobre Caravaggio, o jovem Longhi impressionou Venturi pela maneira como combinava ampla erudição com dom estilístico. Depois de militar um tempo pelo futurismo, na década de 1910, e de escrever textos de catálogo para artistas como Giorgio de Chirico, Longhi centrou esforços na historiografia do Renascimento. De um artigo seu em L'Arte, mostrando a influência de Piero sobre pintores venezianos (como Ticiano, Carpaccio e Veronese), nasceu o convite para escrever o livro de 1927.

O principal alvo de Longhi era a noção de Piero della Francesca (1412 ou 1420-1492) como um pintor cerebral, frio, "enjaulado por sua ciência", na avaliação de críticos como o americano Bernard Berenson. Longhi atribui o reducionismo de Berenson ao seu apego ao romantismo, à idéia de que apenas os sentimentos intensos dão valor à expressão artística. Mostra como Piero, que era também matemático e teórico, assimilou distintas influências, como a arquitetura de Brunelleschi e as pinturas de Masaccio, Masolino, Fra Angelico e Paolo Uccello. E demonstra, caso a caso, como ele desenvolveu uma linguagem que, se parece clássica, "prefigurada", vai além disso e atinge uma naturalidade, uma vivacidade que transcende o rótulo de Berenson. Em Piero, Longhi encontra uma síntese entre desenho e cor, entre rigor e poesia, entre sobriedade e metafísica, que é única.

"Sua redescoberta mais valiosa", diz Longhi sobre Piero, "foi, desde logo, a de um estilo espontaneamente arcaico." Para o arcaísmo, utilizou um ritmo formal repousante, medido, simples; para a espontaneidade, uma variedade cromática extraordinária, uma riqueza de tons que captam a natureza de uma maneira como não havia existido até então. A economia de ornamentos, portanto, estava a serviço de uma beleza que dava "substância" à forma; era como um teorema que diluía a si mesmo, tornando-se objeto sensível antes de mais nada. O talento de Longhi, ainda que mais tarde escreveria de forma menos "empolada", como reconhece no apêndice, aparece sobretudo na descrição desses objetos sensíveis. Ultrapassando a velha dicotomia da crítica entre "impressionismo" e "formalismo", Longhi - como Piero aproximando drama e matemática - combinou em seu texto a força de uma reação subjetiva ao criterioso exame da estrutura da obra de arte.

Como diz o historiador Carlo Ginzburg no prefácio feito especialmente para a edição da Cosac Naify, "a descrição verbal (ekphrasis) de obras de arte verdadeiras ou imaginárias constitui um gênero literário desde a Grécia Antiga" e "Longhi tem conhecimento dessa tradição, (...) mas a utiliza para outro objetivo, moderno e ambicioso". As descrições dele "pretendem propor não só um equivalente verbal das obras, mas também algo mais: a estenografia de uma experiência, baseada no encontro entre um determinado crítico (Roberto Longhi), provido de uma determinada cultura visual e verbal, e uma determinada obra (digamos, os afrescos de Piero em Arezzo)".

Ótimo exemplo dos poderes descritivos de Longhi é a passagem na qual interpreta o famoso díptico Duques de Urbino, da Galleria degli Uffizi:
"(...) o vínculo é de perfeita intimidade, obtida por meio de novos refinamentos pictóricos. Não o menos importante deles parece-nos ser a relação de identidade entre os mais variados 'mínimos': de pertinência, digo eu, tanto dos primeiros planos quanto dos de fundo. (...) As verrugas do duque Federico se perlam à luz assim como o par das papilas engrandecidas das colinas ao fundo; é, em suma, por meio dessas minúcias que a bolha diáfana de Battista e o torreão de Federico vão se ligando, como que através do ar, aos castelos e caminhos de seus domínios". Forma e fundo em conexão total.

Embora o livro trate pouco dos temas e do contexto histórico de cada obra, Longhi deixa claro qual é a visão de mundo do artista. Ao analisar os afrescos de Arezzo, que considerava "a maior realização pictórica" de Piero, escreve: "Ali, o mundo, envolto por uma fatalidade mais indireta e distante, aparece como um espetáculo ordenado, mas variegado, onde cada coisa cabe em sua acepção mais clara no lugar livremente estabelecido". Em O sonho de Constantino, encontra uma mescla inédita de "mística beleza fabulosa, calma epopéia e histórica gravidade, de milagre e de naturalidade". E sobre a Ressurreição, pintura que o escritor inglês Aldous Huxley um dia considerou a maior de todos os tempos, diz: "O Cristo de Piero parece, por um lado, mais imediatamente natural e, por outro, mais profundamente abstrato".

Os recursos de Piero, enfim, são mais do que desafios técnicos; fazem parte da construção de um pensamento sensível. Foi graças a dois artistas que brilhavam quando Longhi era apenas uma criança, Seurat e especialmente Cézanne, que ele pôde entender a profundidade sintética de Piero. Se Berenson não entendia Piero por seu romantismo, Longhi aprendeu com as naturezas mortas de Cézanne - em que os volumes geométricos são revestidos por cores que dão tal ritmo e textura que nossa vontade é tocar aquelas maçãs e toalhas - que em Piero "a via formal é também via espiritual". Longhi é nosso Virgílio nesse paraíso de linhas, cores e sugestões, e um guia mais encantador e preciso não poderia haver.

A EDIÇÃO

O livro, em capa dura, traz um caderno em cores com 163 imagens que ilustram praticamente toda obra de Piero della Francesca, incluindo muitos detalhes. Carlo Ginzburg assina a introdução, escrita especialmente para a edição brasileira.

* Daniel Piza é jornalista e escritor. Desde 2000, é
diretor-executivo e colunista do jornal O Estado de S. Paulo.


SAIBA MAIS SOBRE ROBERTO LONGHI

VEJA TAMBÉM:
Breve mas verídica história da pintura italiana, de Roberto Longhi
História da arte italiana - volumes I, II e III, de Giulio Carlo Argan
Arquitetura na Itália 1400-1500, de Ludwig H. Heydenreich





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