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Desenho de Guignard que ilustra Poemas religiosos e alguns libertinos

O POETA DE DEUS E DO CORPO

Entre os muitos poetas que Manuel Bandeira foi – o simbolista, o modernista, o poeta do cotidiano – haverá também um poeta religioso? Não exatamente; pelo menos não um “poeta católico”, muito menos “carola”. Mas é certo que existe um Bandeira místico, de inspiração religiosa, que busca, através da poesia, uma espécie de sublimação. E que põe em seus versos, em meio a seus amigos e às coisas do dia-a-dia, santos, santas e outras figuras do catolicismo. É esse o poeta que Edson Nery da Fonseca, pesquisador e “bandeiriano” ardoroso, buscou identificar na antologia que publicou nos anos 1980, numa edição feita por uma confraria de bibliófilos, e que agora volta às livrarias, acrescida de uma seção final de poemas libertinos.

Parte da força da poesia de Manuel Bandeira provém justamente desse tensionamento entre o sentimento religioso e a sensualidade. Como diz Gilberto Freyre no pequeno ensaio reproduzido em apêndice, havia em Bandeira “a mais ardente busca de Deus, para suas inquietações, seus talvez pecados, seus talvez desmandos de homem por vezes mais carne que verbo”. Nesse texto, escrito vinte anos antes de os poemas libertinos serem incluídos na antologia, o autor de Casa grande & senzala já aproximara esses dois aspectos de sua poesia, aparentemente antagônicos, ao comparar as figuras de Bandeira e de Jaime Ovalle: “Quem mais místico, dentre os intelectuais brasileiros da época de Manuel Bandeira, do que Jaime Ovalle? Ao mesmo tempo, quem mais sensual? Talvez uma afinidade de Bandeira com esse seu estranho, singular, extraordinário amigo”.

 

Leia o poema "Contrição"


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O poeta religioso encontra-se disperso por toda a obra de Bandeira, relacionando-se fortemente com questões centrais de sua poética, como a reflexão sobre a existência, seus limites, suas imposições e mistérios. Nesta antologia, encontram-se poemas de livros das diversas fases, desde a inicial, mais apegada à tradição, de A cinza das horas (1917), indo para a de cunho mais marcadamente modernista de Libertinagem (1930), passando pela fase madura, chegar até aos últimos poemas. A divisão do livro não é cronológica, mas temática, em seções – “Deus”, “Jesus Cristo”, “A Virgem Maria”, “Os anjos”, “As santas”, “Um grande papa”, “Remissão” e por fim “Os libertinos”. Isso permite que o leitor observe a mescla de diferentes experimentações formais em torno de um mesmo tema.

Por exemplo: “A canção de Maria”, de 1913, é um poema de ritmo regular, todo em redondilha maior: “Que é de ti, melancolia?.../ Onde estais, cuidados meus?.../ Sabei que a minha alegria / É toda vinda de Deus...” (p. 23). Na página seguinte, temos “A Virgem Maria” de Libertinagem, com versos livres e brancos, em dicção modernista, áspera, irônica: “O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério São João Batista/ Cavaram com enxadas/ Com pás/ Com as unhas/ Com os dentes/ Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renúncia/ Depois me botaram lá dentro/ E puseram por cima/ As Tábuas da Lei”.

Esse Bandeira, que estamos mais habituados a reconhecer, é também aquele que encontra na fé religiosa uma espécie de “luz no fim do túnel”, uma possibilidade de ter esperança na vida a despeito do peso do mundo, como vemos nesta estrofe: “Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova/ Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria/ Dizer que fazia sol lá fora/ Dizer insistentemente/ que fazia sol lá fora”.

É preciso ler estes poemas no amplo espectro que a palavra religiosidade pode abarcar. Por um lado, uma capacidade de transcender a materialidade das coisas presentes e encontrar, nos pequenos objetos do dia-a-dia, algo de atemporal, eterno – como na súbita imagem de uma rosa que pende sozinha em um galho: “A graça essencial,/ Mistério inefável/ – sobrenatuaral –/ Da vida e do mundo,/ estava ali na rosa/ Sozinha no galho.// Sozinha no tempo” (p. 27).

Por outro, há a tentativa de dar nexo à existência, à finitude, à perda das pessoas queridas. É assim que, entre os poemas com motivos religiosos de Bandeira, está o poeta marcado pela iminência da morte, tuberculoso, vivendo cada dia como se fosse o último, só restando-lhe “tocar um tango argentino”, como no célebre “Pneumotórax”. Este poeta nós conhecemos muito bem, e aqui ele aparece marcadamente em poemas que falam sobre a perda dos pais, do amigo Ovalle e da irmã, como em “O anjo da guarda” (p. 42), no qual ela se transforma em um anjo que fica na terra para cuidar do poeta. Ou “O menino doente” (p. 41), em que uma mãe implora para que a doença deixe seu filho e, exausta, dorme ao pé da cama do menino, sob o vulto de uma santa.

Em muitos outros, vemos a morte assomar bem ao lado, como se a vida toda fosse uma longa “Preparação para a morte” (p. 11). No entanto, não se trata de um gesto de lamentação ou ressentimento, pelo contrário. Tudo se passa como se apenas através da aceitação de nossa condição mortal seja possível sonhar, fazer poesia, ter alegria, “perder o jeito de sofrer” (p. 50).

A sublimação da finitude através da poesia tem assim um gosto alegre em Bandeira, em que Jesus, Santa Teresinha, Santa Maria Egipcíaca e outras santas, a Virgem Maria, os anjos e mesmo Deus tornam-se personagens de uma bonita história da nossa própria realidade cotidiana. Tornam-se ainda figuras capazes de evocar questões de fundo sobre a poesia, a verdade e a relação entre os homens: “E de resto o que é a verdade?/ E de resto o que é a poesia?/ E o que é, nesta guerra fria,/ Qualquer pura realidade?” (p. 19).

Os poemas libertinos, reunidos na última seção do livro, mostram o quanto o Bandeira místico e o Bandeira sensual se encontram misturados e em constante diálogo ao longo da obra. A partir daí, podemos de fato comprovar como a religiosidade do poeta nada tem a ver com a expressão de um catolicismo moralizante.

SAIBA MAIS SOBRE MANUEL BANDEIRA

O AUTOR NA COSAC NAIFY:
50 poemas escolhidos pelo autor;
Crônicas da província do Brasil;

 

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