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10

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NOTÍCIAS
Foto: Murillo Meirelles
Modelo Aline Weber para campanha Reinaldo Lourenço- Inverno 2004

A ROUPA NOVA DO REI
Por Simone Esmanhotto*

O estilo aristocrático-punk de Reinaldo Lourenço, favorito das princesas modernas, ganha versão democrática com o décimo volume da Coleção
Moda Brasileira.

Se Reinaldo Lourenço tivesse escolhido ser escritor de contos de fadas no lugar de estilista, as mulheres de hoje jamais ficariam à espera de um príncipe encantado. Inspiradas pelas heroínas imaginárias de Reinaldo - que deixam o castelo para trabalhar vestidas com uma alfaiataria de corte preciso em gabardine e couro e caem na noite com curtos de organza em pétalas e sandálias abotinadas -, elas realizariam mais na vida real. E provavelmente acabariam a noite acompanhadas.


Reinaldo Lourenço (Coleção Moda Brasileira vol. 10)
R$ 49
Veja detalhes do livro e compre neste site

Quando se trata de vestir princesas do século xxi , Reinaldo é mesmo rei. Ele não se conforma com regras preestabelecidas, subverte os bons costumes, transgride na medida exata do bem-vestir. Foi isso o que tornou sua assinatura, marca própria desde 1984, uma referência para quem está cansado do mesmo. Do mesmo corte na calça - uma de suas especialidades é inventar novas formas. Da mesma elegância protocolar - que outro olhar extrairia do universo pornô uma coleção de fino trato? Do pretinho - sua cor-fetiche nunca foi básica.

Rebelde, Reinaldo foi desde menino. Aos dezesseis anos, decidiu por certo que seu negócio era criar roupas para vender. Não queria saber do uniforme do outros - já tinha experimentado a liberdade de se vestir como queria para ir ao colégio, em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Em São Paulo, estagiou com Gloria Coelho, com quem se casou e teve um filho, Pedro Lourenço, hoje também estilista. Depois, Costanza Pascolato, então editora da revista Claudia Moda , o chamou para trabalhar como produtor. Somados, esses três momentos da sua vida resultam na sua moda: a transgressão, a técnica, a criação de imagens poderosas.  

Como todo bom subversivo, Reinaldo estuda os clássicos, aprende com eles e os joga para o nosso armário com outra cara. Sem caretice, sem mofo - mesmo gostando de um bom brechó. O estilista tem a capacidade de voltar no tempo - belle époque , era eduardiana, renascença - e apagar os traços das épocas passadas, transformando os desfiles não em história da moda, mas em moda pura.

Um Reinaldo Lourenço se reconhece de longe: é sempre uma mulher moderna, que poderia estar em qualquer metrópole, vestida de preto, numa silhueta enxuta e alongada, com saltos de sapatos pesados fincados firmes no chão. Uma mulher que ama couro, que ama luxo, que ama cores saturadas - pink e cobalto desconcertam constantemente o preto na cartela de cores do estilista -, que ama ser sexy sem ser vulgar. Ama também o bordado inglês, as rosas, os macramés - tudo o que é mais poético, mais feminino, mais delicado, menos industrial. Até os nomes das coleções indicam o lado séculos-passados-encontram-os-tempos-modernos do estilista: Traveller cowboys, Ópera Rock , Tropical dândi . Graças ao olhar e à mão leve de Reinaldo, universos distintos parecem ter sempre pertencido um ao outro.

É, no mínimo, um reflexo, no máximo, um alter-ego do próprio estilista. Católico de formação, adora cristais, cabala e astrologia. Moço de família, tira de inferninhos inspiração para as coleções. Tímido e de cara fechada, é capaz de tiradas inesperadas e gentilezas idem. No volume 10 da Coleção Moda Brasileira, publicada pela Cosac Naify, as faces de Reinaldo se mostram completas, explicadas pelo olhar de duas importantes jornalistas de moda do Brasil: Patrícia Carta, diretora da Vogue, e Fatima Ali, diretora da Manequim nos anos 1970 e responsável pela formação de muitas editoras de revistas femininas do país. Com a dose de criatividade nata, como mostram ambas as jornalistas, Reinaldo, se quisesse, poderia escrever contos de fadas. Melhor para as mulheres que ele tenha escolhido a moda.

O projeto gráfico do livro é como um desfile das principais coleções do estilista, desde
o final dos anos 90, com o desdobramento das técnicas desenvolvidas em cada
uma delas.

*Simone Esmanhoto é editora de texto e reportagem de moda da revista Elle.


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