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| Fernando Vilela assina texto e ilustrações
de Lampião & Lancelote |
LAMPIÃO & LANCELOTE
PELO OLHAR DE ÁLVARO FALEIROS
O premiado livro Lampião
& Lancelote (Cosac Naify, 2006), de Fernando
Vilela (Prêmio Jabuti 2007 - Melhor ilustração
e Melhor capa; menção honrosa na Feira de
Bolonha 2007) chamou a atenção do escritor
chileno radicado no Brasil Álvaro Faleiros. Autor
de Coágulos (Iluminuras, 1995) e de Amapeando
(em colaboração com Luciana Capiberibe; Nankin
Editora, 1997), Faleiros realizou uma rica abordagem do
livro, relacionando-o à tradição de
cordel e abrindo novas perspectivas de leitura.
A apresentação do artigo de Álvaro
Faleiros foi feita na livraria Cultura de Brasília,
em 2007. Leia a seguir a íntegra do breve estudo.
Na faísca da peleja: Lampião & Lancelote
de Fernando Vilela
por Álvaro Faleiros
São múltiplas as formas de se apropriar
tradições. No caso dos romances e narrativas
populares brasileiros, impressas normalmente em folhetos
de cordel, estas têm inspirado inúmeros autores
modernos e contemporâneos, como A pedra do reino
de Ariano Suassuna, "O caso do vestido" de Carlos
Drummond de Andrade ou, mais recentemente, A pedra do
meio-dia, de Bráulio Tavares. Fernando Vilela,
de certa maneira, insere-se nessa tradição.
Digo de certa maneira, pois, diferentemente desses poetas,
Vilela é, sobretudo, um gravurista; artista plástico
que mergulha no mundo da escrita para dele extrair uma história
ilustrada, retomando e potencializando a antiga tradição
do cordelista que escreve e ilustra sua própria narrativa.
Apesar de não podermos - além de considerarmos
estéril esse tipo de tentativa - enquadrar o livro
de Vilela como um folheto de cordel, é possível
identificar em seu trabalho uma série de traços
que remetem a essa tradição. Muitos deles
já foram enumerados no posfácio que se encontra
no livro, como as sextilhas heptassilábicas e as
setilhas com rimas em ABABCCB, típicas dos duelos
escritos por José Costa Leite. No posfácio,
assinala-se também a presença de elementos
característicos das novelas de cavalaria; seus termos
e estrutura de sentenças. Vilela bota fogo no palheiro
e ilumina as páginas de seu livro apropriando-se
dessa dupla tradição, tradições
que, como se sabe, estão sob o mesmo sol.
São constantes as referências, na crítica
literária brasileira, à relação
entre a narrativa popular brasileira e a literatura medieval,
desde Celso de Magalhães, Sílvio Romero e
Câmara Cascudo até os mais recentes - Poesia
Medieval ontem e hoje, de Chico Viana e de Maurice
Van Woensel (João Pessoa: Editora UFPB, 1998) e Contando
histórias em versos: poesia e romanceiro popular
no Brasil (São Paulo: Editora 34 Letras, 2005),
do já citado Bráulio Tavares. Esses autores
assinalam que a literatura medieval deixa marcas, impressões
formais, estéticas e temáticas que semeiam
o imaginário, a arte ocidental.
Nas linhas que seguem, lançamos luz sobre algumas
dessas reapropriações de Fernando Vilela em
seu Lampião
& Lancelote. Não é por acaso
que optou por duas figuras míticas: uma das entranhas
brasílicas, a outra do além-mar europeu. Esses
dois heróis guardam em comum o fato de serem marginais:
Lancelote é o amigo infiel do Rei Artur e Lampião,
o Rei do cangaço.
A escolha de Lancelote é parte da originalidade da
narrativa de Vilela, por ser um personagem incomum no universo
da literatura popular, ainda que se trate de personagem
central desse grande ciclo arturiano, fundamental na tradição
oral da Europa medieva; tradição esta que
permeia a tradição oral ibérica e nordestina,
como no caso de Carlos Magno e Roldão. Note-se que,
segundo Jerusa Pires Ferreira, em Cavalaria em cordel
(São Paulo: HUCITEC, 1993), é possível
identificar referências difusas aos ciclos "arturianos"
na literatura de cordel, na medida em que este ciclo "suscita
a aproximação com encantamentos e mistérios",
mas que não é possível precisar como
arturianos os folhetos que se apropriem dessas marcas. Nesse
sentido, Vilela encarna o espírito difuso desse mito
ambíguo que é Lancelote.
A outra personagem é Lampião, presença
tão marcante no universo do folheto de cordel que
Liêdo M. de Souza, em seu estudo intitulado Classificação
popular da literatura de Cordel (Rio de Janeiro: Vozes,
1976), introduz uma categoria dedicada exclusivamente ao
que chama "Folhetos de Lampião". Sua lista
inclui onze títulos, que percorrem diversas categorias
como folhetos de "gracejo", de "bravura ou
valentia", ou ainda os chamados "mágicos
ou maravilhosos".
Com efeito, é comum um mesmo cordel ser incluído
em diversas categorias, também chamadas de ciclos.
Conforme Franklin Maxado, em O que é Literatura
de Cordel: "convém salientar que um único
livreto pode estar enquadrado em vários ciclos ao
mesmo tempo porque aborda vários temas ou tem elementos
de diversos gêneros". O exemplo que Maxado cita
é "A chegada de Lampião no Inferno",
de José Pacheco Rocha. Em sua análise, Maxado
identifica, neste folheto, os gêneros fantástico,
cômico, malicioso, maravilhoso, de discussão,
de presepada e religioso.
A narrativa de Vilela, ela também, transita entre
alguns dos diferentes gêneros típicos da literatura
de cordel. Voltando à classificação
popular proposta por Liêdo de Souza, os romances -
nome dado aos cordéis com 24 páginas ou mais
- são divididos em quatro grandes categorias: de
amor, de sofrimento, de luta e de reinos encantados. A narrativa
de Vilela é, seguramente, um romance de luta que
se passa em um reino encantado.
A magia interfere em momentos-chave do livro. É por
meio de um feitiço de Morgana, irmã de Artur
apaixonada por esse sedutor cavaleiro, que Lancelote é
introduzido no sertão dos cangaceiros. É também
por meio de num passe de mágica, desta vez de Merlim,
que o exército de Lancelote o socorre. Ainda, a batalha
culmina com uma rajada de risos, transformando o chão
batido do sertão em palco de uma inusitada dança,
encantamento mútuo de mundos: Lampião envolto
em armadura; Lancelote dando no couro em zabumbas de alegria.
O livro se encerra com um último lance maravilhoso.
Em uma atitude metatextual, Vilela encanta as páginas
do próprio livro:
De um velho mandacaru
Tirou do miolo um cordel
Invocou o Santo Nas
Que movimentou o céu
Abriu um oco no centro
E pôs todo mundo dentro
Destas folhas de papel.
Livro esse guardado por Lampião, para alumiar nossa
memória, potencializando o encantamento da própria
obra.
Quanto à luta de nossos dois heróis, note-se
que os folhetos de cordel em que prevalece o maravilhoso,
conforme Jerusa Pires Ferreira, têm a narrativa organizada
em torno do combate. A autora explica que: "Para que
haja combate, é necessário que haja viagem",
e cita o seguinte trecho do romance Juvenal e o dragão
de João Martins de Atayde: "porque estou destinado
/ seguir pelo mundo afora / buscando reino encantado / visão
encanto mistério / fantasma mal assombrado".
No caso da viagem de Lancelote ao sertão, o glorioso
cavaleiro não hesitou em rasgar "o tecido do
tempo rumo ao futuro" em um gesto destemido de quem
sempre se aventura.
Nesse mundo encantado, os combates, ainda segundo Jerusa,
são ritualizados. A autora comenta, por exemplo,
a estrutura dialogada desses folhetos, em que os combatentes
bradam, como neste trecho do cordel Oliveiros Ferrabrás,
de Leandro Gomes de Barros, em que o herói anuncia:
"Levante-se cavaleiro (...)/ A morte entre nós
se espalha/ A morte de um é chegada/ lance mão
de sua espada/ vamos entrar em batalha".
É o mesmo tom retórico e dialogado que marca
a fala de Lampião que, após longo desafio,
cansa-se da conversa e anuncia: "Vamos parar com essa
prosa/ Cansei da comparação/ Venha logo me
enfrentar/ Tenho o mosquetão na mão".
É ao afirmar estar de arma na mão que Lampião
parte para a batalha; momento em que a cor prata da espada
e da armadura de Lancelote passa a se confundir com o cobre
que evoca as balas, roupas e adereços de Lampião.
Chegamos aí a uma das questões centrais do
diálogo da obra de Vilela com a tradição
do romance maravilhoso e de combate, o brilho. É
ainda Gerusa que nos ensina: "O fascínio do
brilho é uma representação, não
só do poder da arma como de sua permanente evocação
místico-mítica". No cordel encontra-se,
assim, no que se refere ao combate, seus aspectos lúdico
e mágico, simbolizados pela espada e as imagens que
evoca de "tirar faíscas do ar", de "brilho
insistente" do que Jerusa chama de "espécie
de consagração luminosa do poder do aço".
E é, justamente, essa a impressão que emana
dessa iluminura de cobre e prata que é Lampião
& Lancelote.