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Acervo Tempo Glauber
Corisco, personagem de Deus e o diabo na terra sol, de Glauber Rocha

SERTÃO MAR, A ATUALIDADE DE GLAUBER ROCHA
por Pedro Butcher

Vinte e quatro anos depois de sua primeira publicação, Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome (1983), de Ismail Xavier, ganha uma nova edição pela Cosac Naify. Um dos raros ensaios que toma a obra do mais influente cineasta brasileiro com a necessária profundidade, Sertão Mar encontrava-se esgotado há anos. Volta, agora, reconhecido como um cânone da crítica audiovisual do país.


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Em cinco capítulos marcados pela clareza de idéias e por um absoluto rigor conceitual, Ismail Xavier oferece uma análise suficientemente ampla para contextualizar o trabalho de Glauber Rocha, preferindo, com razão, concentrar-se em seu aspecto mais negligenciado: sua potência estética.

Por força, principalmente, de circunstâncias históricas, a persona de Glauber como intelectual engajado sempre se sobrepôs à do cineasta, defensor de um cinema autoral e de uma expressão brasileira autônoma e independente. Pensador e criador de primeira grandeza, Glauber pôs suas idéias em prática de forma radical e vigorosa, mas raramente seus procedimentos formais foram esmiuçados de forma tão justa como em Sertão Mar .

Ismail Xavier tem como objetivo declarado "superar o caráter redutor e excessivamente ideológico do debate em torno de Glauber Rocha, renovar a visão de seus filmes pela atenção à forma, discutindo, em outros termos, o sentido político de sua mise-en-scène dentro de sua peculiar junção entre o olhar de documentarista e o cerimonial dos atores - gesto e palavra". Assim, a célebre "estética da fome" que serviu de base conceitual para seu cinema ganha uma interpretação que redimensiona seu sentido político e demonstra a profunda atualidade da obra de Glauber.

O texto de Sertão Mar foi inicialmente concebido como uma tese de doutorado, apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1979, sob a orientação inicial de Paulo Emílio Sales Gomes e, após sua morte, de Antonio Candido de Melo e Souza. Entre suas várias bases teóricas, destacam-se as idéias de Erich Auerbach sobre a representação da realidade na literatura (em Mimesis ) e a revolucionária teoria de Mikhail Bakhtin em torno da multiplicidade de vozes na literatura de Dostoievski (em Problemas da poética de Dostoievski ).

"Foi o ensaísta alemão que me ajudou a entender como conviviam, no plano da forma artística, o Glauber leitor de Marx e o Glauber leitor da Bíblia, e de que modo o dilaceramento próprio à alegoria moderna se instalava no que parecia ser uma pedagogia feita de certezas", explica Ismail Xavier na introdução. Da mesma forma, a obra de Bakhtin é fundamental para se observar toda a gama de diálogos empreendida pelo cineasta e, assim, compreender como Glauber "soube inventar formas originais de articular as bandas de som e imagem, ora incorporando traços da cultura popular, ora do teatro moderno ou da tradição literária, sem elidir seu diálogo intenso com o cinema de autor europeu que lhe era contemporâneo, ou mesmo o western dos anos 50".

Para efetuar sua análise, Ismail Xavier opta pela técnica do contraponto. O detalhado estudo de Barravento (primeiro longa-metragem de Glauber, de 1962, que forma o primeiro capítulo é seguido por uma análise do convencionalismo de O pagador de promessas , de Anselmo Duarte, lançado naquele mesmo ano. Ao terceiro capítulo, dedicado a Deus e o diabo na terra do sol (1964), segue-se um estudo de O cangaceiro, de Lima Barreto (1953). Um quinto capítulo analisa, brevemente, a proposta de Glauber para uma "estética da violência", que se seguiu à sua "estética da fome".

Em Sertão Mar, a atividade crítica se exerce com raro rigor e plenitude. Como bem observa Leandro Saraiva no posfácio dessa nova edição, no texto de Ismail Xavier "os conceitos estão sempre a serviço, nunca subjugando a insubstituível sensibilidade crítica. O esquema, por mais inteligente que seja, nunca 'mata' a obra. Ao contrário, ilumina a fruição da permanente pulsação de sentido dos filmes".

SAIBA MAIS SOBRE ISMAIL XAVIER

VEJA TAMBÉM:
O olhar e a cena; de Ismail Xavier
A utopia no cinema brasileiro - matrizes, nostalgia, distopias; de Lúcia Nagib


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