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AKG/LatinStock/Marion Kalter
Debora Polaski no papel de Cassandra, em montagem da ópera As troianas, de Berlioz (Paris, 2006)

GIL VICENTE REVISITADO

Com este Auto da sibila Cassandra, pouco conhecido entre nós e traduzido pela primeira vez no Brasil, a Cosac Naify recoloca em cena a genialidade de Gil Vicente, apresentando uma das peças que compõem o seu teatro castelhano. Escrito por volta de 1513, em homenagem à rainha D. Leonor, o auto natalino gira em torno das sucessivas recusas da bela sibila Cassandra em casar-se com Salomão, o próprio rei bíblico. Convicta de que o casamento só lhe trará desgosto, Cassandra deseja manter-se virgem, acreditando estar destinada a uma graça divina: conceber o Messias. Para convencê-la do contrário, são evocadas suas tias sibilas e os profetas do Antigo Testamento, num encontro inusitado de diferentes personagens do mundo antigo.

Os professores Orna Messer Levin e Alexandre Carneiro, da Unicamp, foram responsáveis pela organização deste volume, assim como pela tradução e notas da peça. Um raro ensaio do crítico austríaco Leo Spitzer, publicado em 1959 na Hispanic Review, que discute especificamente a unidade artística deste auto, e a apresentação da grande especialista brasileira em Gil Vicente, Cleonice Berardinelli, professora emérita da UFRJ e PUC do Rio de Janeiro, estimulam um novo olhar sobre a obra do grande dramaturgo português.


Leia texto de apresentação de Cleonice Berardinelli


Auto da sibila Cassandra
R$ 35
Veja detalhes do livro e compre neste site

A edição inteiramente ilustrada dá continuidade à coleção Dramática, que já apresentou em projeto gráfico impecável na publicação das peças Fausto Zero, de J. W. Goethe, e O declínio do egoísta Johann Fatzer, de Bertolt Brecht.

"Que uma breve peça natalina, de aparência das mais simples, tenha chamado a atenção de um crítico da estatura de Leo Spitzer, no interior de um debate que envolveu importantes vicentistas, [...] já é um ídice da singularidade do Auto da sibila Cassandra." (Alexandre Soares Carneiro)

"O fato de que alguns dos mais belos exemplos de lirismo popular espanhol ocorram nesta obra teatral religiosa, mostra a conexão profunda que o poeta sentia entre o mundo de beleza sensual e a verdade religiosa. [...] O Auto da sibila Cassandra, um ato de fé que se dá a ver no palco, é [...] uma celebração na qual todo o mundo histórico participa." (Leo Spitzer)

SIBILA CASSANDRA - UM AUTO DE MATINAS DE NATAL
Por Maria José Palla (da Universidade Nova de Lisboa)*
Veja este texto em arquivo PDF

O Auto da sibila Cassandra é uma das peças menos conhecidas de Gil Vicente, certamente por ter sido escrita em castelhano, motivo pelo qual está igualmente integrada no teatro espanhol. A sua tradução para o português, a partir do texto estabelecido por Manuel Calderón, é da mais alta importância e esperemos que seja brevemente representada a partir desta versão portuguesa, elaborada pelos professores Alexandre Soares Carneiro e Orna Messer Levin, da Universidade Estadual de Campinas (lembremos que a obra integral de Gil Vicente já foi traduzida para italiano em 1953 por Enzio di Poppa Vólture - Gil Vicente. Teatro, Florença, Sansoni, 2 volumes). O auto tem sido estudado pelos Genders Studies e dado como exemplo avant la lettre do feminismo expresso pelos versos de sibila Cassandra contra o casamento.

Mas este texto tem de ser lido como uma peça de teatro natalícia com uma forte relevância plástica humorística, uma obra de arte total, uma "Gesamtkunstwerk", como o diz Leo Spitzer, no ensaio "A unidade artística do Auto da sibila Cassandra", incluído neste livro. Temos um texto teatral onde podemos estudar muitos motivos das artes plásticas e onde as canções e a música têm um papel importante. Neste sentido, lembremos que o poeta José Blanc Portugal, em outubro de 1988, num colóquio sobre Gil Vicente, apresentou uma peça musical do compositor Robert Schumann (opus 138) posta em música a partir de uma canção do auto: "muy graciosa es la donzela". O músico teve conhecimento dos versos a partir de E. Geibel que traduziu para alemão algumas canções de Gil Vicente. Foi a ilustre historiadora Carolina Michaëlis de Vasconcelos a primeira vicentina a referenciar este dado em 1949.

Voltando ao auto, nós o consideramos uma obra cômica, de cariz renascentista, demonstrando muita erudição da parte do autor. Foi representada no dia de Natal, certamente perante a corte e as freiras do convento, num dia de alegria, no início do momento carnavalesco das liberdades de dezembro. Como venho demonstrando nos meus últimos trabalhos, o teatro vicentino foi representado durante rituais anuais litúrgicos, folclóricos ou cerimônias da corte. A partir do dia de Natal até ao dia de Reis, temos o chamado ciclo de Inverno ou o ciclo dos doze dias, momento onde tudo é permitido. Gil Vicente desejou sublinhar de uma maneira muito forte a virgindade de Maria ao inventar uma personagem que se diz grávida de Jesus (não sendo virgem). Sibila Cassandra é uma anti-Maria que sofre um desvario durante um tempo do mundo às avessas.

A ligação aos dois testamentos é muito recorrente na literatura e nas artes plásticas. Conhecem-se pórticos medievais tendo à esquerda os profetas do Antigo Testamento e à direita figuras santas do Novo Testamento. Na pintura portuguesa contemporânea a Gil Vicente podemos lembrar a Circuncisão, de Vasco Fernandes ou Grão Fernandes (1506-1511), do retábulo da capela-mor da Sé de Lamego (figura 1, ao pé da página), exposta no Museu de Lamego. Esta cerimônia, instituída como sinal da aliança de Abraão com a sua descendência, é o rito de passagem judaico equivalente ao batismo para os cristãos (Lc II, 21). No primeiro plano, vemos a circuncisão descrita no Novo Testamento (Lc II, 21). No entanto, Grão Vasco ampliou a narrativa bíblica estabelecendo uma concordância entre os dois testamentos: no retábulo historiado ao fundo está representado o Antigo Testamento, com o sacrifício de Isaac, sacrifício colocado em paralelo com o de Jesus, o alter Isaac.

Mas um dos exemplos mais interessantes encontra-se na Anunciação, do mesmo retábulo, onde vemos Eva em alto-relevo ao fundo do quadro, apontando insistentemente para Maria (figura 2, ao pé da página). Existem inúmeros exemplos de concordâncias e podemos citar, dentre outros, o nascimento de João Baptista que anuncia o nascimento de Jesus, cuja narrativa tem afinidades com os nascimentos de Isaac, de Sansão e de Samuel, no Antigo Testamento, entre outros.

Gil Vicente quis comemorar o dia do nascimento de Jesus de uma maneira original, com o intuito de divertir o público. Vestiu os profetas de pastores (os pastores da adoração) e construiu uma intriga com o propósito de louvar, no fim do auto, o menino Jesus e a Virgem, quando se abrem as cortinas e "está todo o aparato do Nascimento".

Para terminar, gostava de anunciar que o historiador de arte Anísio Franco proferiu recentemente uma conferência anunciando que existe na parte posterior do relicário da rainha D. Leonor, um medalhão representando sibila Cassandra (Conferência realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, no dia 28 de Novembro de 2007). Este pormenor tem grande importância pois o relicário terá sido executado pelo mestre João Alemão por volta do ano 1515 e oferecido pela rainha ao Convento da Madre de Deus, em Xabregas. Significativamente, foi neste cenóbio que, em 1513, Gil Vicente apresentou perante a rainha velha o Auto da sibila Cassandra.



Figura 1 - Circuncisão (1506-1511), de Vasco Fernandes. Retábulo da capela-mor da Sé de Lamego (Portugal)
Figura 2 - Anunciação, de Vasco Fernandes. Retábulo da capela-mor da Sé de Lamego (Portugal)

* Maria José Palla é professora de História de Arte e
de História do Teatro na Universidade Nova de Lisboa. É autora
de livros sobre Gil Vicente, o teatro do século XVI e
a pintura portuguesa durante o Renascimento


SAIBA MAIS SOBRE GIL VICENTE


COLEÇÃO DRAMÁTICA

O declínio do egoísta Johann Fatzer, de Bertolt Brecht


Fauso Zero [Urfaust], de J.W. Goethe

 



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