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Bettmann/Corbis/LatinStock

Músicos medievais na época do Natal, ilustração do Auto da sibila Cassandra


Texto de apresentação de Auto da sibila Cassandra, de Gil Vicente
Por Cleonice Berardinelli *

Foi sábia a decisão dos professores Orna Messer Levin e Alexandre Soares Carneiro de publicar, em edição bilíngüe, com tradução portuguesa de sua responsabilidade, um auto dos menos conhecidos do público amante de Gil Vicente, mesmo o de Portugal, onde a obra vicentina tem sido representada inúmeras vezes, em espetáculos promovidos por companhias teatrais ou grupos universitários. Ser dos menos conhecidos não implica qualificá-lo negativamente, pois o meu julgamento inicial da decisão tomada, se mereço a fé dos que me lêem, já o valoriza sem hesitação.




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A tradução do texto é cuidada, correta e fiel semântica e metricamente, respeitando a escolha vicentina em que preponderam os versos de redondilha maior e seus quebrados, de três e quatro sílabas, levando o respeito ao original até o ponto de manter uns poucos - muito poucos - versos com a irregularidade métrica inexplicável que poderá dever-se não ao autor, senão à edição princeps, que os organizadores seguiram, tomando como base a leitura feita por Manuel Calderón.

Dos 42 autos conhecidos de Gil Vicente, representados entre 1502 e 1536, o Auto da sibila Cassandra, muito provavelmente de 1513, é o nono, estando situado ao fim do primeiro quartel da realização literária do autor ainda em período ascendente da conquista da sua plena expressão dramatúrgica.

Como em muitos outros autos, mas talvez mais acentuadamente neste, Gil Vicente mistura tempos e espaços, trazendo à cena Cassandra, que ele mesmo diz, em outro auto, "filha d'el-rei Priamo", reconhecendo-a, pois, como a personagem homérica que previu o fim de Tróia, e associando-a às três outras sibilas - Erutéia (Eritréia), Peresica (Pérsica) e Ciméria (de Cumas) -, reconhecidas no auto como suas tias e entrando, "à maneira de lavradoras", a dançar em chacota na companhia de Salomão, em figura de pastor.

À entrada do auto, Cassandra está só e suas primeiras palavras são pretensiosas, desafiadoras: "Quem se meteria a andar/ em porfiar/ em casamentos comigo? [...]/ Qual será o pastor nascido/ tão polido/ que de fato me mereça?". Entra Salomão e lhe propõe casamento, que ela repele: não quer casar.

Salomão, filho de Davi e rei dos judeus, não é o único personagem bíblico em cena. Com ele vêm "Isaías, Moisés e Abraão, cantando todos quatro de folia", uma graciosa cantiga em que zombam de Cassandra: "Que sanhosa está a menina!/ Ai Deus, quem lhe falaria?". Os três tentam amainar a "sanha" da jovem, ofertando-lhe presentes. Mas ela está bem alerta e revida: "Tenho de me cativar/ por presentes?".

Na verdade, quem cativa o leitor ou o espectador é essa personagem polifacetada, viva, de resposta sempre pronta, graciosa, versátil. Não me parece que a imagem da rapariga presunçosa, que neste ou naquele permaneça mais nítida, seja a mais negativa. Presunçosa, sim, mas com tanta graça, a zombaria na ponta da língua, destemerosa diante das tias e, principalmente, desse candidato insistente, apregoando seus bens materiais.

O auto tem, ao todo, 793 versos. Em toda a sua primeira parte, até o verso 427, não se sabe realmente por que Cassandra rejeita com tanta veemência o casamento, mantendo-se o leitor/espectador em suspense: em seu vivo diálogo com Salomão, apesar da apregoada sabedoria deste, é ela quem leva a melhor, alargando seus argumentos contra o casamento em geral com brio e segurança. Os versos restantes (366) são preenchidos por breves falas de Salomão, dos profetas Moisés, Abraão e Isaías, e das três sibilas. Muito pouco falará Cassandra, em tom bem diverso do que assumiu até aqui, pois já agora, dissuadida de sua falsa e pretensiosa ilusão, ela é toda arrependimento e humildade, confessando: "Nunca dei um passo/ acertado/ nem devia ter nascido".

O leitor desta criteriosa edição terá ainda o prazer de ter em mãos um texto excepcional e bem pouco conhecido: o ensaio de Leo Spitzer intitulado "A unidade artística do Auto da sibila Cassandra".

* Cleonice Berardinelli é professora emérita da Universidade Federal
do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, especialista e referência em literatura portuguesa


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