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Foto: Archivo General de la Nación Argentina
Carnaval de Buenos Aires, em 1927, cenário para O sonho dos heróis, de Bioy Casares

O SONHOS DOS HERÓIS SOB O OLHAR DE J. L. BORGES

Atenção: o que escreve Jorge Luis Borges sobre o romance de Adolfo Bioy Casares revela, sob muitos aspectos, pontos-chave da trama, mantidos como mistério ao longo da narrativa.

"SOBRE O SONHO DOS HERÓIS

Apesar do pecado original, entende-se que o mal vem de fora: malícias estrangeiras corromperam (ou melhor, estão prestes a corromper) a nobreza nativa de cada povo. Estes, por um favor especial da Providência, nunca deixam de contar, contudo, com um tipo de homem cuja missão é preservar essa nobreza; paradoxalmente, tais guardiães não são os homens cultos, mas os mais obscuros e anônimos. Lenhadores, pastores, pescadores e até roceiros cumprem essa função na Europa; como indivíduos serão pobres caipiras, mas neles reside, de algum modo, a virtude substancial da estirpe. Censurá-los é visto como blasfêmia; depois de uma derrota é o caso de opinar que os chefes foram traidores ou inábeis, mas não que a tropa foi covarde. O mito judaico dos 36 homens puros, que justificam, em cada geração, o mundo perante Deus, talvez seja um extensão cósmica daquela idéia, já que se afirma que esses pilares secretos do universo são mendigos ou vagabundos.

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O sonho dos heróis
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Aqui o homem do segredo é o gaúcho. A história nos propõe cargas de cavalaria e grandes empreitadas, mas a figura em que o argentino encontra seu símbolo é a do homem solitário e valente, que num lance na planície ou nos arrabaldes arrisca a vida com a faca. Sarmiento, Hernández, Ascasubi, del Campo, Gutiérrez e Carriego forjaram esse mito do briguento.

Em meados da década de 1920, Güiraldes ainda escreveu (e nós lemos com credulidade) seu Don Segundo Sombra, cujo propósito mítico é evidente. A obra de Güiraldes é o que em alemão se chama de Bildungsroman, um romance cujo tema é a formação de um caráter; dom Segundo ensina ao protagonista sua lição de coragem e de solidão. Ao longo desse livro tão claro não há, talvez, uma única hesitação, mas seu tom geral é nostálgico e até elegíaco. Os fatos essenciais ocorreram antes do início da história; as supostas hombridades de dom Segundo ficam num passado irrecuperável. A fábula transcorre no norte da província de Buenos Aires, no final do século XIX, ou em princípios do XX; a roça e o gringo já estavam ali, mas Güiraldes os ignora.

O sonho dos heróis, de Bioy Casares, nos oferece uma última versão do mito secular. Desde que Don Segundo foi publicado, passaram-se trinta anos e muitas coisas, e ninguém honradamente se assombrará de que nosso fervor tenha declinado. A história se repete em outro cenário e com outros atores. Os pampas de Güiraldes e o bairro criollo de Carriego estão distantes; Emilio Gauna é um rapaz que trabalha numa oficina mecânica e Sebastián Valerga - um personagem ambíguo e aparatoso que se faz chamar de doutor Valerga - encarna o duro amanhã para ele, a bela tradição da coragem. Ao final se revela que este mentor é um homem sinistro; a revelação nos choca e até nos fere, porque nos identificáramos com Gauna, mas confirma as suspeitas fugazes que inquietaram nossa leitura. Gauna e Valerga travam um duelo de facas e o mestre mata o discípulo. Ocorre então a segunda revelação, muito mais assombrosa que a primeira; descobrimos que Valerga é abominável, mas que também é valente. O efeito alcançado é estarrecedor. Bioy, instintivamente, salvou o mito. O que aconteceria se na última página do Quixote, dom Quixote morresse sob o aço de um verdadeiro paladino, no mágico reino da Bretanha ou nas remotas praias de Ariosto?

Muito se escreveu, e será escrito, sobre este romance admirável; sobre a descuidada felicidade de seu estilo oral, sobre sua trama onírica; sobre a hábil utilização do carnaval para facilitar o fantástico. Preferi destacar seu valor como símbolo. Cabe desconfiar que nós, argentinos, só conseguimos conceber uma única história; a amarga e lúcida versão que Adolfo Bioy Casares idealizou corresponde com trágica plenitude a estes anos que correm."

(Jorge Luis Borges, in Revista Sur, n. 235, julho-agosto de 1955, tradução de Alexandre Barbosa de Souza)


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