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Irmanada com Júlio
Ramón Ribeyro
"Só para fumantes" é a comprovação
das virtudes inspiradoras do cigarro. A maior parte da obra
de Júlio Ramón Ribeyro, excelente aliás,
pende para uma literatura pesada (densa e séria), voltada
para situações e personagens para as quais não
existem saídas. O conto, ao contrário, tem a
leveza de uma baforada de fumaça. Trata das dificuldades
do fumante em manter o vício, quer por causa de situações
econômicas de pauperismo (mesmo que provisórias),
quer por perseguição de médicos e familiares
por questões de saúde. Ele traça a perspectiva
vitoriosa de um fumante que vence desafios do tipo “missão
impossível”, não para deixar de fumar
– ao contrário, para continuar fumando. Além
disto, contém uma brilhante e inovadora teoria sobre
a estranha e especial natureza do apego do fumante ao cigarro
(que não comento para não estragar o prazer
do leitor em descobri-la). O conto, entretanto, descreve uma
situação já ultrapassada. Para pior.
Naquele tempo, havia obstáculos, mas se podia fumar
em quase todo lugar. Hoje, não se pode fumar em quase
lugar nenhum.
Criou-se uma feroz campanha contra os fumantes, que passaram
a ser uma minoria mais que discriminada, praticamente perseguida.
O próprio estado a dirigiu. De início, os fumantes
foram segregados em fumódromos. Não era tão
ruim assim, porque conhecíamos pessoas diferentes e
o papo era ótimo. Deve ter sido isto que causou inveja
aos não-fumantes. Os fumódromos, então,
foram fechados. Hoje, quem quiser fumar tem que ir para rua
e enfrentar os olhares de desprezos dos passantes que se consideram
seres superiores por não terem sucumbido a esse vício.
Não sei que outros vícios eles possuem, mas
duvido muito que não tenham nenhum.
Os mais exaltados querem até proibir o fumo ao ar
livre, como se a fumaça do cigarro fosse tão
mortal quanto gás mostarda. Ninguém, entretanto,
mostra igual indignação com as nuvens de fumaça
negra exaladas por ônibus e caminhões desregulados,
nem pela quantidade de poluentes acumulados no ar por carros
e gasolina. Parece que se trata de uma questão moral
– o cigarro é a encarnação do vício,
e desde que o abandonemos, podemos praticar outros vícios
em paz.
Irmanada com Júlio Ramón Ribeyro, escrevo
este comentário com um cigarro aceso.
Eunice R. Durham é professora
do Departamento de Antropologia
da Universidade de São Paulo - USP
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