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Meu caro Julio:
Não sei se foram dois ou três, enquanto lia “Só
para fumantes”. Mas o que acendi para começar
esta cartinha é dos mais prazerosos da minha vida.
Noto, aliás, que já acabou: demorei muito a
procurar um “tom” para te agradecer por conto
tão bonito, em que você conjuga fumovivoescrevo.
Tive que acender este outro. Se as palavras dispusessem da
consistência da fumaça, cujo prazer o fumante
antecipa, absorve, metaboliza e expira, a cada consagração
do pequeno rito, escrever seria mais simples. Mas você
não esquece que é preciso, para merecer e acender
unzinho aqui na terra, viajar pela vida, encontrar as pessoas,
dizer e ouvir as falas passageiras, enquanto no céu
o sol queima, ou ardem as novíssimas, ou brilham as
extintas.
Tuas confissões são minhas, excluído
o teu talento e o peso da tua circunstância. Esse ofício
impõe perseverança, fidelidade, humilhação,
exposição aos riscos. Ultimamente estigmatizaram-no
de tal modo que é preciso reforçar algum mito
para justificá-lo aos outros. Reduziram-no à
morbidez. Aquela “certa graça melancólica”
nossa está tão fora de moda, e a modéstia
de nossa reflexão ritmada tão incompreendida,
que só restou o contra-ataque do humor. Sem o recurso
de tua arte, sem a experiência de teus périplos
americanos e europeus, sem as vicissitudes de teus dias de
penúria e sem a criatividade de teus expedientes práticos,
contento-me, caro Julio, com o truque barato das sublimações.
Fumo para que os outros se sintam mais fortes, enquanto desconfiam
do meu prazer. Às vezes tusso sem vontade. Junto à
janela do café dos professores, irmano-me com dois
ou três colegas e baforamos as pequenas conquistas ou
injúrias de nossa mortalidade.
Para tua curiosidade de vizinho: nunca houve antes neste
país maços como os de agora, double face:
na capa, o vermelho esfuziante e o logotipo azul, em seu assumido
capitalismo; na contracapa, mensagem ministerial e advertência
sócio-responsável - Fumar causa impotência
sexual -, ilustrada pela curvatura em anzol de um cigarro
aceso, de longa cinza pendente (meia-bomba que anima um tantinho
os sexagenários). A pátria de Hollywood e de
Bogart nos traiu, a Europa também já se rendeu,
e virá o momento em que voltarei a catar, no fundo
do meu quintal brasileiro, um talo oco de mamão, para
acendê-lo com o fósforo furtado da cozinha e
sofrer o peso da culpa secreta e satisfeita de um menino.
Aceite meu abraço fraterno, meu caro Julio, onde quer
que você esteja fumando.
Alcides Villaça
(Professor de literatura brasileira
na Universidade de São Paulo - USP)
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