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| Ilustração de Wolf Erlbruch
para A tabuada da bruxa |
INTERPRETAÇÕES PARA A TABUADA
DA BRUXA, DE GOETHE E ERLBRUCH
Leia, abaixo, dois artigos que analisam as ilustrações
de Wolf Erlbruch para livro de Johann Wolfgang von Goethe
escrito para crianças.
UMA POÇÃO MÁGICA
A interpretação subjetiva de Wolf Erlbruch
para A tabuada da bruxa, de Goethe
por Jens Thielen [publicado
no Die Zeit em abril de 1998]
"Vê por quem és!" (tradução
literal: "você precisa entender!"). Colagens
de homenzinhos e coelhos, feitos de restos de cartões
de arquivo, têm uma expressão tão estúpida
que é como se eles não compreendessem nada.
Se virássemos a chave em suas costas e déssemos
corda nessas figuras "clownescas", elas cairiam
com suas cabeças de papel escada abaixo. Mesmo o número
um, o elemento que ordena este conturbado prólogo,
está prestes a despencar. Antes que a bruxa diga seu
feitiço, a magia já se mostra como um disparate.
As imagens de Erlbruch encenam A tabuada da bruxa
de Goethe como num jogo de duplos sentidos, cheio de inter-relações.
"Do um, faze dez,
No dois e três"
Assim que as primeiras frases são ditas, nós
descemos pelas escadarias aos porões da cozinha da
bruxa. Os elemento mágicos cozinham em fogo brando.
Por que a bruxa da capa do livro, cujos olhos estão
cobertos por lentes cegas, sorri tão ironicamente?
Talvez porque por trás do jogo com tabelas, números
e logaritmos, esteja o próprio diabo? Como se surgisse
das trevas, a cabeça da bruxa aparece no meio de um
monte de papéis meticulosamente cortados.
Assim que as primeiras frases são ditas, nós
descemos pelas escadarias aos porões da cozinha da
bruxa. Os elemento mágicos cozinham em fogo brando.
Por que a bruxa da capa do livro, cujos olhos estão
cobertos por lentes cegas, sorri tão ironicamente?
Talvez porque por trás do jogo com tabelas, números
e logaritmos, esteja o próprio diabo? Como se surgisse
das trevas, a cabeça da bruxa aparece no meio de um
monte de papéis meticulosamente cortados.
"Um traço indicas
e rico ficas.
Põe fora o quatro!
Com cinco e seis,
Diz a bruxa, fareis
Sete e oito, e a conta
Quase está pronta:"
Assim a lógica, que se reflete de maneira duvidosa
e cristalina nos números, é descartada com uma
vontade diabólica. A poção mágica
começa a surtir efeito. Esquimós vagam sobre
trenós; uma beleza renascentista olha languidamente
o observador; dois boxeadores quase se matam; um boneco e
a morte circulam ao redor de uma pista de autorama. Mesmo
o estilo das imagens cai neste turbilhão. A poção
mágica é derramada como sangue sobre os mapas
topográficos, cuidadosamente desenhados. Feitiçaria
e mágica habitam entre a ciência e a Magia Negra.
"E o nove é um,
Mas o dez é nenhum."
A matéria com qual Elbruch elabora as obras, feitas
de números de tabelas e calendários, provém
de armários empoeirados, arquivos mortos, pastas e
fichários, que têm apenas um objetivo: ordenar,
catalogar e classificar a vida. O artista corta o seu texto,
deixa fragmentos e estilhaços, joga com eles, reforça
um pouco com o lápis e, ao fim, se torna ele mesmo
um feiticeiro.
"Das bruxas isto é a tabuada comum."
O estranho relacionamento entre o Iluminismo e a Magia Negra,
que por volta de 1800 se expressava em sessões espíritas
com lanternas mágicas e aparições, parece
ir de encontro à visão infantil do mundo: temos
um caleidoscópio fascinante de imagens lógicas
e mágicas, de aspectos calculáveis e irracionais,
de comicidade e horror, de paixão e sofrimento.
Com isso, Erlbruch presenteia crianças e adultos com
este fragmento histórico da mais alta literatura, extraído
do Fausto de Goethe. Não seria mesmo um disparate?
PÕE FORA O QUATRO
A tabuada da Bruxa de Goethe e Erlbruch
* Publicado no Das Eselsohr em junho de 1998
Com A tabuada da bruxa, Wolf Erlbruch - um dos ilustradores
mais notáveis da atualidade - utilizou seu traço
inconfundível para criar uma obra de arte ilustrada
a partir do feitiço da bruxa de Fausto, por ocasião
das comemorações dos 250 anos do nascimento
de Goethe. Com isso, ele segue uma tendência: elaborar
novas interpretações de textos clássicos
utilizando ilustrações (lembremos os livros
de Steiner e Muller, A revolta dos animais, de 1989;
e Eram cinco, de Jandl e Junge, 1997). Estes livros
ilustrados têm um claro caráter intertextual,
eles não jogam apenas com seus leitores infantis, mas
também com os adultos que acompanham sua leitura, ao
lançar mão de uma multiplicidade de referências
divertidas.
Já na capa nos deparamos com uma bruxa rindo maliciosamente.
É impossível não associar este assunto
ao último livro ilustrado de Erlbruch (A devoradora
de gente - Die Menschenfresserin, 1996). Porém,
nesta nova história, a criatura não demonstra
traços canibalísticos: aqui a bruxa faz seu
ritual mágico sob a forma de um absurdo jogo numérico.
Não só o tema da bruxaria, assim como a escolha
de um feitiço e a própria disposição
das imagens, nos remetem ao pensamento mágico - uma
forma de pensar que atualmente é admitida apenas às
crianças, para que possam superar seus medos.
A lógica adulta, representada pelos números,
é posta de ponta-cabeça e desmontada, tanto
no texto quanto nas figuras. As imagens surgiram da fragmentação
de colunas de números e unidades de medida, foram criadas
de pedaços de tábuas matemáticas, cartas
topográficas e plantas de construção,
em colagens que formam conexões totalmente novas a
partir desse material destinado a mensurar coisas exatas.
As imagens são divertidamente livres e ao mesmo tempo
construídas de um modo mais lógico do que à
primeira vista se poderia imaginar. Erlbruch utiliza complexas
construções de imagens, que atraem um olhar
preciso e reiterado. A escrita é usada como um componente
gráfico e está totalmente integrada nas imagens,
criando uma impressão ambígua. Em algumas imagens
as palavras são tomadas literalmente (por exemplo:
na frase "põe fora o quatro" o boxeador perde
quatro dentes com um soco), além disso, todas as figuras
têm um excesso de significados múltiplos e nonsenses.
Em sua brincadeira com o absurdo e o esdrúxulo, as
imagens e o texto se equivalem. Em ambas as dimensões
narrativas o processo de transformação tem importância
primordial, se desenvolvendo no sentido oposto ao da lógica
comum; isto é realizado graficamente, como, por exemplo,
quando os números aparecem espelhados e assim invertem
o sentido usual da leitura. O estilo de ilustração
de Erlbruch transforma os significados ordinários e
irrita o nosso modo de ver habitual.
Adequado ao tema da magia, o livro ilustrado insiste com
imagens e palavras num componente que foge à decodificação
racional; à provocante frase inicial "Vê
por quem és!" (tradução literal:
"você precisa entender!"), segue um cenário
que resulta no respeito pelo enigmático. Se, de fato,
hoje ainda existem tabus na literatura infantil, eles são
menos quanto ao aspecto temático e certamente mais
em relação às formas de descrição
- exatamente por isso este livro ilustrado oferece um potencial
inovador.
Depois dos estilos do horrendo e do grotesco terem sido testados
em livros para crianças nos últimos anos, Erlbruch
questiona, com a complexidade de sua característica
linguagem gráfica, os paradigmas dominantes de que
a literatura infantil deva sempre oferecer total compreensão
e absoluta clareza.
[Tradução: Julia Bussius]
SAIBA MAIS SOBRE
J. W. GOETHE
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aprendiz de feiticeiro
A
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Fausto
Zero [Urfaust]
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