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Foto: Barbara Aumüller
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| O dramaturgo alemão Heiner Müller,
destaque na análise de Hans-Thies Lehmann |
A PROPOSTA DE UMA "LÓGICA-ESTÉTICA"
DO TEATRO CONTEMPORÂNEO
por Luiz Arthur Nunes*
Décimo primeiro título da coleção
Cinema, teatro e modernidade, Teatro pós-dramático,
de Hans-Thies Lehmann, lançado na Alemanha em 1999
(Postdramatisches Theater. Frankfurt: Verlag der
Autoren, 1999) e traduzido com grande repercussão em
diversos países, chega finalmente ao Brasil na tradução
de Pedro Süssekind, pela Cosac Naify. A obra vem preencher
uma grande lacuna, na medida em que se propõe a descrever
e pensar teoricamente as práticas radicais da encenação
teatral das últimas décadas - de 1970 em diante.
Até então, alguma coisa tinha-se escrito sobre
a dramaturgia experimental contemporânea, mas pouquíssimo
sobre as questões referentes à cena, suas condições
de produção e formalização, bem
como as implicações estéticas, políticas
e filosóficas.
O termo "pós-dramático" já
fora empregado anteriormente em tentativas ainda imprecisas
de compreensão dos fenômenos da vanguarda teatral.
Foi Lehmann, porém, que lhe veio dar uma acepção
sólida e abrangente como descrição e
categorização de um fazer artístico extremamente
complexo e até aqui mal delimitado. O "pós"
do termo não significa absolutamente uma negação
das práticas cênicas e dramatúrgicas precedentes.
O teatro pós-dramático compreende a retomada
e continuidade de estéticas que, desde o início
do século XX, já
se vinham distanciando das idéias puristas e ortodoxas
do teatro e do drama. Por mais que as novas práticas
se afirmem por uma oposição polêmica em
relação ao establishment teatral, não
é através da mera contestação
que elas estabelecem sua identidade, mas sim, de uma rica
constelação de configurações formais
(e conseqüentemente conteudísticas) radicalmente
inovadoras e renovadoras da escritura cênica.
O exame dos dispositivos teatrais pós-dramáticos
empreendido por Lehmann salienta a persistente transgressão
de categorias, implícita, por exemplo, numa incorporação
ao palco dramático de expressões tão
diversas quanto as da performance, das artes plásticas,
da dança, da música, do cinema e do vídeo.
Esse crossover de linguagens reverberando e dialogando
entre si, torna-se possível somente num teatro que
se enxerga enquanto prática específica, autônoma,
de uma cena não comandada/ balizada pelo texto dramatúrgico,
como no teatro tradicional.
Lehmann contempla um grande número de experimentos
contemporâneos que se definem pelo modo "pós-dramático"
de utilização do signo teatral. São citados
e examinados em maior ou menor detalhe inúmeros encenadores,
autores e companhias como Robert Wilson, Peter Brook, Robert
Lepage, Elizabeth Lecompte, Pina Bausch, Maguy Marin, Susanne
Linke, Meredith Monk, Frank Castorf, Tadeusz Kantor, Eimuntas
Nekrosius, Richard Foreman, Richard Schechner, Jerzy Grotowsky,
Eugenio Barba, Heiner Müller, Peter Handke, Marguerite
Duras, Bernard-Marie Koltès, Michel Deutsch, The
Wooster Group, Squat Theatre, Falso Movimento,
Théâtre de la Complicité, La
Fura dels Baus, Théâtre du Radeau,
só para citar os mais conhecidos entre nós.
Contudo, é preciso frisar que não estamos diante
de um tratado de história do teatro, de um inventário
exaustivo do espetáculo contemporâneo. O autor
não pretende acompanhar trajetórias nem avaliar
criticamente sua importância. Sua intenção
é articular uma "lógica estética"
do novo teatro. Na realidade, seu olhar procura apreender
as diferentes formas de "gesto pós-dramático"
trazidas por cada experimentação, como modos
alterados de utilização dos significantes do
teatro, gesto esse que tem como marca a despreocupação
com a transmissão de conteúdos delimitados com
exatidão do ponto de vista semântico.
Nas palavras do autor, o teatro pós-dramático
propõe uma configuração cênica
que se pretende pura apresentação, pura presentificação,
afastando-se radicalmente da idéia do palco como lócus
de representação da realidade. Diferentemente
das outras artes, que criam objetos concretos ou operam por
transmissão midiática, no evento teatral se
encontram simultaneamente o ato estético como tal (atuação)
e o ato de recepção (assistir ao espetáculo),
e esse encontro é uma ação real num tempo
e lugar determinados: uma fatia de vida ocorrida e experienciada
em comunidade. O estudo de Lehmann procura distinguir de que
maneiras a prática cênica, a partir do início
dos anos 70, vem utilizando essa condição fundamental
do fenômeno teatral como tema de reflexão e como
o próprio conteúdo da representação.
Auto-reflexão, autotematização são
certamente tendências da arte pós-moderna, notadamente
da literatura. É preciso atentar, porém, para
o fato de que o teatro pós-dramático não
as realiza somente através do texto verbal. Este, na
verdade, está em pé de igualdade com os outros
signos da cena, visuais, auditivos, gestuais ou arquiteturais.
Efetivamente, o teatro pós-dramático se estabelece,
ele próprio, como um texto heterogêneo, onde
a palavra é apenas um dos componentes: um texto que
reflete constantemente sobre a sua natureza de linguagem em
construção. Permanece a interdependência
entre teatro e discurso verbal, constitutiva do dramático
tradicional. O que acontece é que o texto dramático
deixa de ser fator dominante para tornar-se mais um elemento,
mais um dos vários materiais do arranjo cênico.
O autor salienta no prólogo que, ao privilegiar seu
objeto de estudo, não está absolutamente emitindo
um julgamento de valor que pretenda pôr abaixo, como
ultrapassados, os modos estabelecidos do fazer teatral. Segundo
ele, grandes peças de teatro continuam sendo escritas
dentro dos modelos consagrados. Diversas formas da cena pós-dramática,
aliás, mantêm o texto verbal como ingrediente
fundamental. Mas o fazem à sua maneira.
No "texto" do teatro pós-dramático
freqüentemente diluem-se a narrativa, a representação
de figuras humanas, a história. Muitos autores da vanguarda
contemporânea escrevem obras em que as palavras não
funcionam como diálogo entre personagens - as quais
muitas vezes nem existem mais. A palavra se afirma como uma
entidade autônoma. A camada de oralidade instaura-se
na cena como uma corporeidade poética e sensual de
alta voltagem. Assim como a pintura moderna abandonou o figurativismo,
isto é, a reprodução mimética
de realidades e elegeu como "tema" os próprios
elementos constitutivos da visualidade pictórica: forma,
cor, luminosidade, textura etc, a escritura pós-dramática
também rejeita a ilusão mimética veiculada
pelo verbo, e o verbo em si - livre de todo encargo figurativo
- passa a ser uma realidade válida em si mesma.
Esse desinteresse pela fábula, pelo personagem, no
entanto, Lehman tem o cuidado de frisar que não significa
absolutamente uma perda de interesse pelo humano, mas tão
somente uma nova maneira de contemplá-lo. A palavra
deixa de ser um ato intencional do sujeito individualizado
- a vontade de um eu consciente - para se tornar um desejo,
uma emanação de uma subjetividade do inconsciente.
A decisão de Hans-Thies Lehmann foi de, na sua obra,
deter-se fundamentalmente sobre as configurações
estéticas do teatro pós-dramático, mas
adverte-nos que uma análise estética envolve
necessariamente questões de ordem ética, moral,
política e filosófica. O teatro, como toda arte,
é um fenômeno social, na medida em que envolve
relações de trabalho e produção,
financiamento público etc. Além disso, é,
por natureza, uma obra de recepção coletiva
e, mesmo que não se ocupe especificamente dos problemas
da sociedade, com certeza estará sempre falando do
muito de social que existe nas questões da percepção
e do comportamento.
Na sua obra, o autor começa estabelecendo os paradigmas
históricos do teatro e do drama, para, a partir daí,
perguntar-se como a cena pós-dramática rompe
com os mesmos. Depois de examinar a sua pré-história,
fazendo uma retrospectiva das vanguardas teatrais a partir
do final do século XIX, Lehmann investiga as múltiplas
características do palco experimental dos nossos dias:
o caráter cerimonial, a tendência ao estático
e ao contemplativo (paisagem), a recusa da ilusão mimética,
a presença da performance, as novas maneiras de trabalhar
com a textualidade verbal, de manipular o tempo e espaço
cênico, de tratar a imagem corporal, e a fusão
com outras formas artísticas e com as mídias
eletrônicas, para finalmente, no epílogo, sondar
as implicações sócio-políticas
dessa nova linguagem.
O autor reconhece que uma boa parte do público de
teatro (no Brasil podemos tristemente dizer: a quase totalidade)
espera ver em cima do palco ilustrações de uma
história, de preferência, bem acessível
à compreensão, estruturada dentro de um contexto
lógico e capaz de suscitar emoções e
diversão. Para esse público, as criações
de um Robert Wilson ou de uma Pina Bausch resultam inacessíveis,
uma vez que propõem uma desestabilização
dos hábitos perceptivos (mal)educados pela indústria
cultural - entre nós, principalmente pela pobreza franciscana
do dramático televisivo. Sérgio de Carvalho,
que escreve a apresentação da edição,
evocando Brecht, chama-nos à atenção
que "uma nova arte do ator não pode ser considerada
sem uma nova arte do espectador, na medida em que a beleza
deve ser vista como algo capaz de dar aos sentidos a oportunidade
de se mostrarem hábeis". E cita a famosa frase
de Brecht : "Belo é resolver dificuldades".
Não é, decerto, para um público que
optou pelo entorpecimento e pela acomodação
que o livro se destina, mas sim para aqueles - espectadores,
profissionais e estudiosos da cena - que acreditam na autenticidade
artística e na importância de um teatro renovado.
Mas esses até agora careciam de um instrumental teórico
para formular suas percepções. A grande, a imensa
contribuição de Hans-Thies Lehmann em seu Teatro
pós-dramático é justamente aparelhar-nos
com essa ferramenta através de formulações
e argumentos cuja densidade, rigor e clareza não impedem
o prazer da leitura acompanhando o maquinar efervescente e
instigante de seu pensamento.
* Luiz Arthur Nunes é diretor
de teatro, dramaturgo, professor aposentado da UNIRIO. Doutor
em Teatro pela City University of New York (EUA).
SAIBA MAIS SOBRE HANS-THIES LEHMANN
COLEÇÃO CINEMA, TEATRO
E MODERNIDADE
Teoria
do drama burguês: século XVIII, de Peter
Szondi
Teoria
do drama moderno [1880-1950], de Peter Szondi
Performance,
recepção, leitura, de Paul Zumthor
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