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Leia o que estudiosos e grandes escritores escreveram sobre a obra de Karen Blixen e, especificamente, sobre o livro Sete narrativas góticas.

Mario Vargas Llosa. “Os contos da baronesa”, in A verdade das mentiras (ARX, 2004)

A prosa de Isak Dinesen, como sua cultura e seus temas, não remete a modelos da época; é também, um caso à parte, uma anomalia genial. Quando As narrativas góticas apareceram, sua prosa desconcertou os críticos anglo-saxões por sua elegância ligeiramente passada de moda, sua esquisitice e irreverência, seus jogos e desplantes de erudição, e seu escasso, para não dizer nulo, contato com o inglês vivo e falado da rua. Mas, também, pelo seu humor, a delicadeza irônica e risonha com que naqueles relatos se referia a crueldades, vilezas e ferocidades indizíveis, como se fossem nimiedades da vida cotidiana. O humor é, em Isak Dinesen, o grande amortizador dos excessos de toda ordem que habitam seu mundo – os da carne e os do espírito –, o ingrediente que humaniza o desumano e dá um semblante amável ao que, sem ele, provocaria repugnância ou pânico. Nada como lê-la para comprovar até que ponto é verdade que tudo se pode contar quando se sabe como fazê-lo.

Julio Cortázar. “Alguns aspectos do conto”, in Valise de Cronopio (Perspectiva, 1974)

Não é verdade que cada um tem a sua própria coleção de contos? Eu tenho a minha e poderia citar alguns nomes. Tenho “William Wilson”, de Edgar Alan Poe, tenho “Bola de sebo”, de Guy de Maupassant. Os pequenos planetas giram e giram: aí está “Uma lembrança de natal”, de Trumam Capote, “Tlön”, “Uqbar”, “Orbis”, “Tertius”, de Jorge Luís Borges, “Um sonho realizado”, de Juan Carlos Onetti, “A morte de Ivan Illich”, de Tolstói, “Fifty Grand”, de Hemingway, “Os sonhadores”, de Isak Dinesen, e assim poderia continuar e continuar…

Per Johns. “A África perdida de Isak Dinesen”, in Dionísio crucificado. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. O texto está publicado como posfácio à edição da Cosac Naify.

[Sete narrativas góticas] Fazem lembrar Hoffman, Poe e Kafka, só que mais carregadas de um sentido intrínseco. Têm o encanto enigmático do labirinto dos sonhos. Servidas por um estilo clássico – de uma beleza despojada – e de uma habilidade boccaciana na arte de narrar, acabam por transformar, como num processo alquímico, o que possam ter de absurdo em mensagem existencialmente verdadeira, embora cifrada. Passam-se quase sempre num tempo indefinido, intermediadas por pessoas que rememoram o que inventam ou adivinham, como se brotassem dos confins de uma África das origens, porém vestidas com as roupas hipercivilizadas de uma Europa que se extraviou ou está em vias de mais uma vez extraviar-se.

“Isak Dinesen” (Entrevista, 1956) in Os escritores, 2: as históricas entrevistas da Paris Review (Companhia das letras, 1989)

Comecei a escrever antes de ir para a África, mas antes não me passava pela cabeça ser escritora. Publiquei alguns contos em revistas literárias na Dinamarca, quanto tinha vinte anos, e as resenhas foram encorajadoras, mas não fui adiante – não sei , acho que tinha um medo intuitivo de cair numa armadilha.[...] Depois, quando percebi que seria obrigada a vender a fazenda e voltar para a Dinamarca, comecei realmente a escrever contos. Escrevi Gothic tales lá. Mas, antes disso, havia aprendido a contar histórias. Pois, você sabe, eu tinha a platéia ideal. Os brancos não sabem mais ouvir uma história contada. Ficam inquietos e sonolentos. Mas os nativos ainda têm sensibilidade para isso. Eu vivia contando histórias para eles, todos os tipos de histórias. E todos os tipos de bobagens. Eu dizia: ‘Era uma vez um homem que tinha um elefante de duas cabeças’... e na mesma hora eles já ficavam loucos para ouvir o resto da história. ‘Oh, verdade? Mas Mem-Sahib (forma respeitosa que os nativos usavam para se dirigir a uma mulher européia), como ele o encontrou e como fazia para alimentá-lo?’ ou outra pergunta qualquer. Eles adoravam fábulas desse tipo.

Jamais vou me esquecer de como eles [o público norte-americano] me receberam bem. Quando voltei da África em 1931, depois de ter morado lá desde 1914, eu havia perdido todo o dinheiro que tinha quando me casei, porque a plantação de café não deu retorno. Pedi a meu irmão que me sustentasse por dois anos, enquanto eu preparava Seven gothic tales, e disse a ele que em dois anos estaria vivendo por minha conta. Quando o manuscrito ficou pronto fui para a Inglaterra, e um dia, num almoço, encontrei um editor, Huntington, e disse: “Sr. Huntington, tenho um manuscrito; gostaria muito que o senhor desse uma olhada”. E ele: “Do que se trata?”. E quando respondi: “Um livro de contos de uma autora desconhecida? De jeito nenhum!”. Então enviei o manuscrito para os Estados Unidos, e ele foi aceito imediatamente por Robert Haas, que o publicou, e os leitores, de um modo geral, acolheram bem o livro, gostaram, e sempre foram muito fieis. [...] O engraçado é que depois que o livro foi publicado nos Estados Unidos, Huntington escreveu para Robert Hass, elogiando o livro e pedindo o endereço do autor, dizendo que queria publicá-lo na Inglaterra. Ele tinha me conhecido como baronesa Blixen, enquanto Robert Haas e eu jamais havíamos nos encontrado. Huntington nunca fez qualquer ligação entre Isak Dinesen e eu. Tempos depois ele realmente publicou o livro na Inglaterra.

 

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