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| Charles Baudelaire (1821-1867), ponto
de partida para Hamburger |
OS CAMINHOS E ENCRUZILHADAS DA POESIA MODERNA
Por Leonardo Martinelli*
Não são muitos os livros de
crítica literária dedicados à reflexão
da poesia moderna que possuem o fôlego e a amplitude
deste A verdade da poesia, do poeta, crítico
e tradutor Michael Hamburger, publicado em 1969 e agora traduzido
para o português por Alípio Correia de Franca
Neto. Publicada no Brasil pela Cosac Naify, a obra agora integra
a Coleção
Ensaios, que passa a ser composta por 23 títulos.
Sem pretender constituir uma história detalhada ou
um compêndio exaustivo, o monumental estudo do autor
anglo-saxão não deixa de apresentar um valioso
quadro sinóptico da poesia moderna desde Baudelaire,
Rimbaud e Mallarmé - autores que, no entender de Hamburger,
delineiam o campo de tensões estéticas, políticas
e filosóficas a serem exploradas pelos principais poetas
do século posterior. A tese que motiva a obra, porém,
não se restringe à busca de nomes que simplesmente
a ilustrem. Mais do que uma síntese panorâmica
ou um inventário de leituras recomendáveis,
A verdade da poesia logra a façanha de lançar
o leitor num vasto território de realizações
poéticas e estratégias críticas, servindo-lhe
ao mesmo tempo de mapa, veículo e bússola ao
longo da travessia.
Desde a primeira linha do prefácio, a questão
a ser desenvolvida é posta em termos claros: afinal,
"o que torna moderna a poesia moderna?" A partir
desta pergunta fundamental, o autor se propõe a explorar
seu tema sem perder-se nele, valendo-se de um vasto conhecimento
de poetas europeus e norte-americanos da modernidade (com
raras e significativas exceções sul-americanas),
bem como de agudo senso de observação e compromisso
ético com o desenvolvimento e a permanência da
poesia contemporânea. Escrito numa linguagem avessa
tanto ao didatismo generalizante dos divulgadores como ao
jargão acadêmico dos especialistas, o livro de
Hamburger apresenta, situa e comenta poemas e poetas capazes
de amplificar e desdobrar sua ambiciosa proposta crítico-conceitual.
O próprio título denota algo bem diverso de
uma divisa idealista ou de uma análise de fundo metafísico:
para Hamburger, compreender a verdade da poesia moderna não
significa representá-la por meio de preceitos ou categorias
totalizadoras, mas antes surpreender suas características
mais marcantes em meio aos conflitos artísticos e existenciais
que perpassam a história do século vinte. Nesse
contexto, a figura emblemática de Baudelaire atravessa
o livro como uma espécie de foco irradiador, ao passo
que Rimbaud e Mallarmé figuram como pólos tensionadores,
opostos entre e si e eqüidistantes da matriz baudelairiana.
Se Rimbaud pretendia "recriar o mundo pelo poder de sua
imaginação", levando adiante o sentimento
de "implacável rejeição à
ordem burguesa e capitalista" presente em Baudelaire,
Mallarmé "simplesmente depreciava 'essa miragem
brutal, a cidade, seus governos, a lei'", absolutizando
a "doutrina que considera o ato de escrever poesia uma
atividade autonônoma e autotélica", também
preconizada pelo autor de Fleurs du Mal.
Se o reconhecimento desta contradição originária
do poeta moderno leva Hamburger a constatar que "até
mesmo depois do Simbolismo, Imagismo, Futurismo, Expressionismo,
Surrealismo e da nova Poesia Concreta, não apenas os
críticos e os leitores, mas também os poetas
continuam divididos sobre aquelas perguntas a que Baudelaire
não pôde dar uma resposta inequívoca",
seu trabalho interpretativo busca detalhar as implicações
decorrentes da maneira com que cada poema moderno reatualiza
a problemática baudelairiana. Assim procedendo, o autor
conclui, ao fim do segundo capítulo, que a verdade
da poesia moderna "deve ser encontrada não apenas
em suas afirmações diretas, mas em suas dificuldades
peculiares, atalhos, silêncios, hiatos e fusões",
ensejando a adoção de uma perspectiva comparativa,
capaz de articular e matizar tendências abarcadas pelo
recorte proposto.
Tal perspectiva reúne poetas de nacionalidades diversas,
ou mesmo de épocas distantes entre si, seguindo um
coerente plano de abordagem das principais "questões
de método" que caracterizam a modernidade da poesia
moderna. Estas, por sua vez, são animadas por uma espécie
de fluxo crítico-narrarivo, em que cada capítulo
do livro como que retoma o contexto histórico dos poetas
e poemas tratados no anterior, unicamente através do
que dizem os poemas e comentários dos autores selecionados.
É assim, por exemplo, que Laforgue e Corbière
aparecem reunidos pelos temas da nadificação
e da alteridade - obviamente derivados de Mallarmé
e Rimbaud (e, portanto, de Baudelaire) - perfazendo a passagem
das "identidades perdidas" do terceiro capítulo
ao tema das "máscaras" (personae)
desenvolvido a seguir. Poetas da estirpe de Hoffmansthal e
Paul Valèry (ambos nutridos por "dúvidas
extremas acerca da coerência e do limite do eu"),
Stefan George e Yeats (alguém cuja poesia, "mais
do que qualquer outra de seu período, requer ser lida
com o tipo de adaptações que fazemos para a
poesia dramática") são expostos e criticados
a partir do modo como reafirmam "a verdade das máscaras"
em suas obras.
A leitura de Yeats adentra o texto do capítulo intitulado
"Poesia absoluta e política absoluta". Yeats
aparece em meio a outros "poetas modernos com atitudes
romântico-simbolistas" do século XX,
entre os quais se destacam Rilke, Juan Ramón Jiménez
e Wallace Stevens, adeptos de "certa teologia da imaginação
poética" pela qual teriam chegado a corroborar
posicionamentos políticos de feição conservadora
e autoritária (malgrado as convicções
democráticas de Jiménez e Stevens). O entrelaçamento
poético-político derivado destes "autonomistas
da imaginação" reitera a ambígua
condição do poeta como "pária"
da sociedade e "aristocrata" do espírito
- condição esta que recrimina o uso comunicativo
da linguagem em nome de um adensamento simbólico/metafórico
da poesia, em tempos de barbárie capitalista.
É importante assinalar que Hamburger não se
limita a dissecar poemas e idéias estéticas
em função dos sentimentos e posições
assumidas pelos seus autores - o que fatalmente resultaria
num tipo de leitura ideológica e simplista. Colocando-se
acima de qualquer determinismo sociológico imediato,
a verdade da poesia moderna resulta de paradoxos e circunstâncias
peculiares, muitas vezes ficcionalizadas pelo próprio
poeta. Daí que, na última parte do capítulo
"Personalidades múltiplas", o crítico
evoque a excepcionalidade de Fernando Pessoa e seus heterônimos
Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Na
obra do poeta português, observa Hamburguer, todos os
materiais empregados na moldagem de cada persona autoral refletem
"os sentimentos do eu empírico que a poesia dilata,
complementa ou até substitui por sentimentos fictícios",
a fim de "explorar a realidade e estabelecer identidade
plena de seus eus múltiplos e referenciais". O
ideal estético de "uma poesia mais verdadeira
que o poeta", de óbvia extração
romântico-simbolista, viu-se estilhaçado desde
dentro da linguagem, chegando ao questionamento radical da
própria realidade em que se inscrevem os poemas.
Contudo, a realidade irrefutável de duas guerras mundiais
estimulou o surgimento de novas estratégias discursivas,
forçando o internacionalismo poético da revolução
modernista a posicionar-se diante dela. Nesse ponto, opera-se
uma distinção histórica decisiva: se,
por um lado, "os poemas da Primeira Guerra Mundial combinam
inovação formal com uma reação
muito pessoal à experiência da guerra" (caso
de George Trakl e Giuseppe Ungaretti), boa parte da poesia
inspirada pela Segunda Guerra "foi escrita antes da deflagração
da guerra por poetas envolvidos politicamente em todo os lugares"
(caso do comunismo declarado de Bertold Brecht e Louis Aragon,
da poesia de resistência de Paul Éluard e René
Char, da adesão ao fascismo de Rilke e Pound). Em meio
ao fogo cruzado, os assassinatos de Lorca, Óssip Mandelstam,
Miguel Hernández e Max Jacob demonstram claramente
as conseqüências trágicas do entrincheiramento
ideológico para a poesia moderna - malgrado a beleza
vital e otimista propagada pelos poemas de Blaise Cendrars
e Apollinaire.
Os três últimos capítulos do livro procuram
dar conta das cicatrizes e promessas suscitadas pelo contexto
delineado desde então, sublinhando a existência
de "um período com as pontas todas soltas"
entre guerras, após o qual "uma nova austeridade"
poética tenderia a se confirmar. Obras como as de Hans
Arp e Bertold Brecht representariam a força da "antipoesia"
modernista, empenhando-se em renunciar à tradição
lírica ocidental e à idéia de autonomia
da arte e do indivíduo em relação ao
mundo; do lado norte-americano, William Carlos Williams teria
sido o único poeta "tão bem sucedido quanto
Brecht em integrar seus eus poético e social ao ponto
de realmente superar as dicotomias romântico-simbolistas".
Já Federico García Lorca, Pablo Neruda, Eugenio
Montale e Hart Crane, atuantes na mesma época, oferecem
imagens e compromissos diversos, onde as tradições
nacionais e o cosmopolitismo modernista se imbricam, não
raro reeditando o discurso metáfora e dos esquemas
rítmicos sinuosos (em oposição à
aspereza coloquial e prosaica dos "antipoetas").
Não se trata de estabelecer dicotomias, mas sim de
perquirir atritos e pontos de tensão entre autores
aparentemente díspares: "Todo poeta moderno digno
de ser lido contém um antipoeta, assim como todo antipoeta
moderno digno de ser lido contém um poeta romântico-simbolista.
Quanto mais amplo e carregado for o campo de tensão
entre eles, maiores serão as potencialidades de realização
e progresso de um poeta".
Todos os nomes supracitados, bem como os de Carlos Drummond
de Andrade (o único brasileiro estudado no livro),
Francis Ponge, Yves Bonnefoy, Philippe Jaccottet, Paul Celan,
Hans Magnus Enzensberger, Helmut Heissenbüttel, Ted Hughes,
Sylvia Plath, Anne Sexton, Robert Creeley, Basil Banting,
Gary Snyder e Charles Olson, entre muitos outros, marcam presença
nas páginas de A verdade da poesia não
como itens de um novo repertório de referências
canônicas, mas como personagens centrais "de uma
batalha travada não só entre escolas opostas
de poetas e críticos, mas também dentro de cada
poeta importante, de poema a poema, e de verso a verso".
Sobre os argumentos e comentários de Michael Hamburger
- que também se declara um "anti-especialista",
no pós-escrito de 1982 que fecha a presente edição
- caberiam as palavras utilizadas pelo próprio autor
ao destacar a genialidade dos escritos críticos de
Baudelaire: "são exemplos brilhantes de abordagem
sintética, como distinta da analítica, e eles
constituem o trabalho de um homem envolvido com a função
pública das artes tanto quanto com suas leis interiores".
*Leonardo Martinelli é poeta, crítico
literário, professor e doutorando em Literatura comparada
pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
SAIBA MAIS SOBRE MICHAEL HAMBURGER
COLEÇÃO
ENSAIOS, com 23 títulos:
A
passagem do três ao um; de Leopoldo Waizbort
Romance
das origens, origens do romance, de Marthe Robert
Sertão
Mar: Glauber Rocha e a estética da fome, de
Ismail Xavier
Da
poesia à prosa, de Alfonso Berardinelli
A
utopia no cinema brasileiro - matrizes, nostalgia, distopias,
de Lúcia Nagib
A
filosofia e sua história, de Gérard
Lebrun
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