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| Ilustração do livro Lampião
& Lancelote, vencedor do Prêmio Jabuti
2007 |
FERNANDO VILELA É DESTAQUE
EM PUBLICAÇÃO DA OEI
O ano de 2007 tranformou-se em marco no trabalho
do ilustrador Fernando Vilela, ganhador de diversos e importantes
prêmios com seu livro infantil de estréia como
autor,
Lampião & Lancelote, publicado pela
Cosac Naify. Além do Prêmio Jabuti 2007 como
melhor livro infantil, conquistou Menção Honrosa
na prestigiada Feira de Bolonha, Itália. (Um ano antes,
Lampião & Lancelote já havia sido
premiado pela FNLIJ - Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil , como melhor livro de poesia).
Durante a Feira de Bolonha, a obra de Vilela chamou a atenção
da revista Educación y Biblioteca, publicação
da OEI - Organização de Estados Ibero-americanos
para a educação, ciência e cultura, organismo
internacional que reúne países da América
e da Península Inbérica com o objetivo de fortalecer
o desenvolvimento regional e a democracia.
Em longa entrevista concedida a Gustavo Puerta Leisse, que
se lê a seguir, Vilela fala sobre as peculiaridades
de seu trabalho e quais são os conceitos impressos
nele.
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O DESAFIO E A RESISTÊNCIA DO LIVRO-ÁLBUM
Por Gustavo Puerta Leisse, para a revista Educación
y Biblioteca (setembro/outubro de 2007), ligada à
Organização de
Estados Ibero-americanos para a educação, ciência
e cultura (OEI)
Leia
este texto em arquivo PDF na versão original, em espanhol
Entre os dias 24 e 27 de abril de 2007, a Feira de Bolonha
foi por mais um ano o epicentro mundial da literatura infantil.
Para cada freqüentador, a feira possui um significado
muito pessoal, e não é de se estranhar que os
encontros e achados que acontecem nessa ocasião se
cumpram em um vínculo próximo. Encontro-me com
Fernando Vilela na porta da livraria infantil Feltrineli,
no centro da cidade. Está acompanhado pela escritora
brasileira Stela Barbieri. Procuramos um café não
muito barulhento para fazer a entrevista, tarefa difícil,
pois muitos locais estão fechados. Não havíamos
previsto que dia 25 de abril seria feriado na Itália,
quando se comemora o Dia da Liberação da ocupação
de tropas nazistas. Andamos um pouco e começam a surgir
uma série de gostos e opiniões em comum. Em
uma rua próxima às Due Torri encontramos, por
fim, um café que está por abrir. Não
é muito silencioso, mas sua confeitaria nos seduz.
Tomaremos o café-da-manhã enquanto conversamos.
Como criador de livros infantis, você submerge
no passado para se apropriar de assuntos e técnicas
antigas. Porém, seus álbuns são muito
inovadores e originais. Como você une uma coisa à
outra?
Quando assumo um trabalho de criação,
tanto literário como plástico, o que mais me
interessa são a pesquisa e a experimentação.
Mesmo tendo trabalhado muito com gravura em madeira, que é
uma técnica antiga que vem desde a Idade Média,
o que mais me seduz é criar coisas novas. Este, para
mim, é o grande desafio.
Um dos meus últimos livros publicados, A toalha
vermelha (Brinque Book, 2007), é um bom exemplo
disso. Descobri as possibilidades que a fita de embalar proporciona
(fita adesiva de papel crepado) como material de trabalho.
Investiguei colando de diversas maneiras pedaços sobre
a folha; usando fitas de diferentes cores e tamanhos; rasgando-as
e colorindo-as... Só experimentando, enchi dois cadernos
de desenho, até que, por fim, disse a mim mesmo: "Vou
criar uma história". Mas, que história?
Um dia eu passeava de barco e tive a sorte de admirar uma
cena muito bonita: uma toalha caiu no mar, afundou e desapareceu.
Então percebi que, quando olhamos o mar, vemos diferentes
capas de água. Imediatamente associei esta experiência
às possibilidades que a fita de embalar proporciona,
e concluí: "Sim, este é o material; esta
é a história". Cada livro tem a sua história,
é a história de um encontro: de uma imagem,
de uma perspectiva narrativa ou de um texto.
A gravura em madeira não é, na atualidade,
um estilo muito habitual nos livros infantis. Como você
chegou a ela?
No terceiro ano dos meus estudos de arte na Universidade,
conheci o Marco Buti, um excelente gravador italiano que mora
no Brasil. Ele me apresentou as obras de gravura em madeira
que os expressionistas alemães desenvolveram no século
XX. Fiquei fascinado com a
força do entalhe. Quando comecei a talhar, descobri
duas coisas: a resistência da madeira e a necessidade
de força para empregar a técnica. Desde então,
esse "enfrentamento" com a madeira tem sido pra
mim uma experiência muito intensa. Não sei se
por trás existe um significado simbólico, o
certo é que quando trabalho com algo que gera resistências,
tenho mais vontade de fazer. O mesmo acontece comigo em relação
à escultura: eu gosto de materiais duros como metais,
pedras, a própria madeira. Igual com o desenho: eu
não gosto muito do pincel; prefiro o carvão,
a ponta dura do lápis.
Há pouco tempo, comecei a gravar em borrachas. É
um material consideravelmente mais macio e moldável
que a madeira, mas que me permite fazer pequenas gravuras
e estampar como se fosse um selo. Essa possibilidade me levou
a pesquisar numa outra direção: a velocidade.
Gravo a borracha e posso, ao mesmo tempo, ilustrar com velocidade
e recriar a velocidade. Além disso, desenho sem pensar
muito. Em Lampião & Lancelote (Cosac Naify,
2006) há muito movimento, e consegui transmiti-lo graças
ao movimento físico de fazer o desenho sem pensar.
Ao começar cada ilustração, eu sabia
o que queria, mas não como faria, e assim cada ilustração
do livro se converteu numa experiência gráfica
única.
Esta resistência e dureza do material, penso
que também se podem projetar no tipo de história
que escolhe. Você procura o mítico, a lenda:
histórias provenientes da tradição literária
que talvez se tornem difíceis de segurar ou moldar.
Você acredita que existe uma semelhança entre
o seu estilo de ilustrar e o de narrar?
Nunca tinha pensado nisso, mas, agora que você diz,
acredito que tenha razão. Ontem mostrei Le chemin
(Autrement, 2007) e outros álbuns meus a uma editora
francesa. Ao terminar de vê-los, ela me disse: "É
você. Você é o cavalheiro, você é
o samurai. Todos são você". Le chemin
narra a história de um perdedor, por isso me senti
um pouco diminuído (risos). O protagonista é
um cavalheiro que assume o desafio de enfrentar o dragão,
a grande serpente, seres próprios da cultura mítica.
Essa condição de "fazer frente a",
de responder a um desafio, tem a ver com a resistência
da madeira à qual antes nos referíamos. É
possível estabelecer uma analogia entre uma e outra:
certamente em ambos os casos deve-se enfrentar algo, deve-se
superar uma dificuldade. Agora pensando, é como a vida:
todos os dias temos algo interno ou externo para afrontar.
Uma das características das histórias que crio
ou recolho é que sempre tratam de grandes desafios
que devem ser superados.
[Fernando Vilela se entusiasma ao falar. É um homem
sensível e afetuoso que, como bom docente, consegue
transmitir suas idéias firmes, com exemplos tão
certeiros quanto próximos. Quando a situação
requer, não hesita em refletir sobre novos temas ou
pontos de vista. Inclusive chega a questionar suas próprias
convicções. Nestes momentos, aproveita para
tomar breves goles de café ou distraidamente levar
algo à boca. Assim ganha tempo antes de dar uma resposta.
Do seu lado, Stela é a primeira que termina o café-da-manhã,
e aproveita a concentração do entrevistado para
roubar-lhe a ponta de um croissant. Este furto passa despercebido
pelo ilustrador, que escuta com muita atenção
à pergunta que formulo.]
Tanto na técnica de gravura em madeira como
em alguns temas abordados, você funde suas raízes
na tradição, parece que a busca da origem é
um elemento importante no seu trabalho. Você concorda?
Acredito que esta busca pela origem pode se vincular
à necessidade de achar sentidos no mundo. Quando procuramos
a origem em pequenas ações (o que seria tomar
um café...), topamos com um conjunto de experiências
(por exemplo, sensações produzidas pelo aroma,
o sabor e a temperatura do café) que são suscetíveis
a se converter em uma história. Qualquer coisa que
imaginemos pode nos levar mais para lá e propiciar
uma busca fascinante.
Por exemplo, A toalha vermelha é protagonizado
por algo tão insignificante como uma toalha. Mas, ao
ser tirada de sua função e contexto (quando
a encontramos em um entorno alheio como é o mar), suscita
em nós um questionamento, nos leva à reflexão,
à construção de sentido e a apreciar
as relações que surgem e se estabelecem entre
as coisas do mundo. A trajetória desse objeto de tecido
vermelho que cruza o planeta desde o Brasil até a China
nos faz pensar nos encontros que se dão no seu tempo,
na diversidade de animais que povoam os oceanos, nos tempos
passados, em outras culturas, no mundo como unidade...
Não sei se parecerá ilógico a você.
Para mim, a criação literária parte das
conexões que podemos estabelecer entre os símbolos
e as coisas reais, e tem a ver com a forma como representamos
uma história que, ainda que possa parecer muito banal,
se converte em arte. Este é o grande desafio.
Existem alguns pontos em comum entre A toalha
vermelha e Zoom, este de Istvan Banjai (Binque
Book, 1995). Esse livro te inspirou de alguma maneira?
Zoom é um livro que eu desfrutei muito e admiro.
Nas primeiras páginas de A toalha vermelha
existe uma influência muito presente de Zoom,
mas também de Google Earth. Essa perspectiva de ver
a Terra desde um espaço exterior, e ir pouco a pouco
se aproximando dela, é um recurso que também
se encontra no cinema. Me lembro que, quando criança,
me marcou especialmente o filme Os deuses devem estar
loucos. Na primeira seqüência, a imagem vai
adentrando lentamente a Terra, até chegar àquela
aldeia africana. Essa foi a primeira experiência que
tive desse enquadramento. Zoom é para mim
um dos melhores livros sem palavras que já vi. Consegue
estabelecer a conexão de uma imagem com outra de uma
maneira muito eficaz, durante três páginas sempre
permanece algum elemento que possibilita uma passagem fluida
das ilustrações. O principal motivo pelo qual
costumam fracassar os livros sem palavras é por não
conseguirem uma boa conexão narrativa. Neste sentido,
Zoom é uma referência de peso para mim.
Mas, por que existem livros sem palavras?
Por que o livro tem que ter palavras? Quando penso em uma
história, penso em imagens, não penso em palavras.
As palavras vêm depois. Às vezes o texto é
importante, às vezes não. Numa ocasião,
eu fiz um livro e, posteriormente, eliminei o texto, ele sobrava.
Faço essa pergunta por uma razão: me
parece que se Zoom, A toalha vermelha ou
Le Chemin tivessem texto, provavelmente não
seriam livros tão bons.
Vou te contar uma anedota. Quando o filho da Stela Barbieri
viu A toalha vermelha, me disse: "Esse livro
é o oposto dos outros. Naqueles leio o texto e imagino
a imagem. Em compensação, neste, eu leio a imagem
e imagino o texto". A reflexão deste menino foi
para mim uma iluminação. Com os livros sem palavras,
cada criança cria sua própria história:
é "Deus que está narrando" ou "uma
câmera muito especial que está filmando".
O livro sem palavras cria uma abertura narrativa que o menino
agradece, porque o convida a criar uma história...
Não são exatamente livros sem palavras porque
a palavra continua ali: só que sai da boca dos leitores.
[Em alguns momentos a conversa toma rumos inesperados, faz
falta um esclarecimento ou nos detemos frente à dificuldade
de encontrar a tradução exata de um termo. Fernando
domina bem o espanhol. O "portuñol" também
nos serve de língua franca. Porém, existe uma
série de coincidências no modo como compreendemos
a literatura infantil que nos permite entender o que o outro
diz.]
Gostaria de voltar para um assunto que deixamos no
tinteiro: as raízes e as origens. Em Lampião
& Lancelote se confrontam dois heróis representativos
de duas culturas, a brasileira e a européia. Você
encontra um conflito entre ambas as origens?
Lancelote é um personagem da minha infância.
Os cavalheiros são um símbolo de desafio, da
masculinidade, da força, do heroísmo... Mas,
para mim, Lancelote também representa a cultura européia:
as antigas sagas dos cavalheiros, a Idade Média com
seus reis e suas guerras, a honra...
Lampião é, de certa forma, um Lancelote do Brasil.
Também é forte e justiceiro, mas, diferentemente
de Lancelote, é um herói de Terceiro Mundo.
Em primeiro lugar, não tem uma origem nobre. Nasce
no seio de uma família camponesa no norte do Brasil,
sua infância transcorre entre a pobreza e, quando é
adolescente, assassinam o seu pai num confronto com a polícia.
Lampião não tem uma descendência senhoril.
É como a América Latina: não existe nada
de nobre na origem de um continente que foi invadido e colonizado
por europeus. Mas também não são nobres
as motivações desse personagem: inicialmente,
Lampião se une a um grupo de bandidos, os "cangaceiros",
buscando vingar a morte de seu pai. Mas, uma vez vingado,
não fica satisfeito, deseja mudar o mundo em que vive
e, para ele, não tem sentido ser militar, padre ou
político. Então, fica à margem do sistema
e se converte num famoso bandido.
É fascinante essa tensão em Lampião:
é um herói e um vilão.
Sim, existe algo que é terrível na história
de Lampião. Ele faz justiça com as próprias
mãos e às vezes é muito cruel, por exemplo,
com as filhas dos fazendeiros, mas, por outro lado, é
um personagem que tem um grande arraigo e popularidade. No
Brasil, se converteu numa figura mítica e popular que
se contrapõe à alta cultura imposta. É
um herói e um bandido. É culto e bárbaro
ao mesmo tempo. Admira Napoleão, lê sobre Alexandre
Magno, usa perfumes franceses, toca muito bem o acordeão,
canta e compõe música... É um homem rude
e sanguinário que ama a literatura e a arte. Acredito
que o Lancelote deveria fazer parte do imaginário de
Lampião.
Sim, Lampião em si já é contraditório,
faria falta enfrentar o Lancelote?
O encontro entre Lampião e Lancelote é o confronto
de duas culturas; por isso, no livro, inicialmente se combatem.
Mas, ao mesmo tempo, cada um representa a sua cultura, e ao
seu modo, uma figura heróica. Em certa medida são
dois personagens, em certa medida são o mesmo. Sua
relação varia conforme eles se reconhecem como
iguais ou como opostos. O que acontece com eles é o
mesmo de hoje em dia: duas culturas diferentes podem se enfrentar,
tentar se impor uma sobre a outra, mas também podem
se confraternizar.
Interessa-me muito como você resolve de maneira
gráfica a oposição entre eles. Como você
chegou a esse conceito tão sutil?
Lampião tem uma grande presença na literatura
popular brasileira. Em especial nas aleluias e cordéis.
Essas publicações se faziam empregando a gravura
em madeira. Eu identifico o Lancelote com os manuscritos e
livros iluminados da Idade Média. Antes de começar
a ilustrar o livro, tinha um conceito muito preciso: representar
o Lampião de uma maneira rústica, com uma gravura
muito simples que rememore de uma maneira mais sofisticada,
como nos livros medievais. Mas, quando comecei a fazer o livro,
me dei conta de que não ia funcionar. Não podia
representar de formas tão diferentes Lampião
e Lancelote. Era impossível conciliar esses estilos.
Então pensei em diferenciá-los pela cor: o cobre
para o Lampião e a prata para o Lancelote. Escolhi
a prata, que é muito luminosa, porque não se
sabe se Lancelote é real ou imaginário. Em compensação
o cobre é mais real, como o Lampião, e não
produz tantos brilhos e reflexos. Apesar das conotações
cromáticas, nas composições eu dou a
mesma presença aos dois personagens, pois para mim
eles têm o mesmo poder, a mesma força.
[Fernando Vilela chega nesta Feira de Bolonha para receber
a Menção Honrosa Novos Horizontes por Lampião
& Lancelote. Como acontece com outros reconhecidos
ilustradores e autores, percorre os corredores da feira sem
ser reconhecido. Aproveita a ocasião para se reunir
com editores e lhes mostrar seu trabalho, se detém
nos estandes das editoras que se mostram mais sugestivas,
e visita as diferentes exposições de ilustração.
Conhecemos ele no estande do Brasil, onde Isabel Lopes Coelho,
responsável pela coordenação editorial
deste álbum, nos apresentou com palavras afetuosas.
Combinamos de nos reunir no dia seguinte na hora do café-da-manhã.
Já bebemos muitas xícaras de café e passamos
várias horas conversando, mas eu ainda quero lhe perguntar
pela especial dinâmica de trabalho que emprega a editora
Cosac Naify nas suas produções.]
Realmente é muito diferente o modo de trabalho
da Cosac Naify das outras editoras?
As editoras grandes não querem riscos, trabalham unicamente
em função das vendas. Mas existe um reduto de
pequenas editoras interessadas na experimentação.
Entre elas se encontra a Cosac Naify. Os livros são
feitos de maneira cuidadosa, pensam com carinho e acima de
tudo, consideram que a relação entre o autor
e o ilustrador é um fator determinante de qualidade.
Para Lampião & Lancelote, eu apresentei
primeiro o texto junto com uma ilustração. Estava
disposto a buscar com eles o formato mais adequado. Quando
leram o texto, me disseram:"A gente gostou, por favor,
espera, agora não temos nem tempo e nem dinheiro. Espera
um pouquinho".
Você congelou o projeto?
Não, continuei por minha conta. Fui me questionando
sobre qual formato era mais idôneo e comecei a fazer
o livro. Primeiro pensei num tamanho pequeno, de 64 páginas,
similar aos cordéis e comecei a rascunhar. Passado
um tempo, quando me reuni com o editor e poeta Augusto Massi,
que é um homem muito sensível, ele me disse:
"Eu vi as ilustrações e gosto... Mas não
vamos fazer um livro pequeno, faremos um livro grande porque
suas ilustrações têm muitos detalhes.
Além disso, tem o espaço, temos de ser generosos
com o espaço". Eu tinha avançado muito,
assim, logo no primeiro momento, pensei: "Ó, meu
Deus! É muito trabalho! Precisa mudar tudo!..".
Mas depois, nas novas conversas, me dei conta de que essa
era a direção mais interessante. Então
começamos a trabalhar em equipe.
Realmente se pode trabalhar em equipe com um editor?
Sim. Dou um exemplo. Inicialmente, queria fazer páginas
duplas com as cores cobre e prata, e me disseram que era impossível,
que seria muito caro. Houve a proposta de alternar uma folha
em cobre e outra em prata, e eu me resignei. Porém,
posteriormente, me disseram: "Faça como você
quiser. Tiramos o dinheiro de outro livro. Corremos o risco".
Eu estive presente durante a impressão do livro e surgiram
muitos contratempos. Estávamos tomando uma direção
muito difícil de levar a cabo. Frente às dificuldades,
tivemos de tomar certas medidas técnicas, a editora
precisou pôr mais dinheiro, mas o resultado foi o que
você viu. Todo mundo ficou muito contente.
O mais surpreendente foi que pensamos que Lampião
& Lancelote ia vender pouco. É um livro caro
e experimental. Mas o governo do Brasil foi o primeiro a valorizar
sua qualidade e a comprar uma boa quantidade. Isso demonstra
que é viável fazer um livro mais sofisticado
e custoso, porque existe um mercado que demanda. No Brasil
se considera que, para que um livro venda, tem de ser barato,
fácil, pequeno e com baixo custo de produção.
Isso não é necessariamente verdade, também
existe esse outro mercado.
Mas o seu trabalho também mostra que é
possível fazer um excelente livro com meios escassos.
Isso tem a ver com o desafio sobre o qual tínhamos
conversado antes. A gravura em madeira pode servir de metáfora,
só precisa de poucos materiais: a madeira, o papel,
a goiva, elementos acessíveis a qualquer pessoa. Mas
isso não é tudo. Quando o editor da Autrement
me disse: "Tenho um formato fixo, umas cores, doze páginas
duplas, faz você a história", me propôs
uma meta. Assim surgiu Le Chemin. A coleção
Histoire sans paroles estabelece uns requisitos muito precisos,
mas esses limites também são um desafio. No
meu caso, essa exigência externa se converteu em uma
meta própria.
Trabalhar com poucos recursos é um bom desafio. No
Brasil, se você trabalha com educação,
trabalha com pouquíssimos meios. A Stela, por exemplo,
conseguiu resultados em que não chegam pessoas que
possuem muitos meios. Não existe limites para a imaginação.
[Já havíamos apagado o gravador e nos dispúnhamos
a ir à feira. Mas a partir de um comentário
banal surgiu um novo e interessante tema. Cada um de nós
tem uma longa jornada de trabalho, mas não queremos
deixar passar a oportunidade. Encontro em Fernando Vilela
uma claridade e um vôo reflexivo sobre o seu trabalho
pouco habitual. E, por conta disso, me animo a ligar de novo
o gravador.]
Vendo sobre essa mesa o trabalho que você desenvolveu
desde o início, me surpreende que, apesar de serem
muito diferentes entre si, existe uma certa continuidade entre
eles. Você procurou isso ou foi o acaso?
Meu processo criativo é a experimentação.
Em cada trabalho que faço surge uma busca que empreenderei
no futuro. Os resultados que alcanço sempre abrem novos
caminhos, apontam para outras direções. Às
vezes vejo os primeiros livros que ilustrei e encontro em
um detalhe técnicas e motivos que pesquiso hoje em
dia. Esse trabalho que fiz há quinze anos já
está como potência no meu trabalho atual. É
como uma semente, que tem uma árvore dentro dela.
Faz pouco tempo mostrei minhas gravuras para Evandro Carlos
Jobim, um artista brasileiro de 75 anos que admiro muito.
Ele me disse: "Me fascina o que você chegará
a fazer. Vendo o que você me mostra, eu consigo imaginar.
Não sei como serão essas gravuras, mas o que
eu vejo é o processo que você vai seguir".
Vendo os quadros de Picasso de 1908, podemos sentir que em
1920 vai chegar ao cubismo sintético, porque existe
ali um movimento latente. Na arte é mais importante
compreender o processo que uma obra específica.
Você considera a sua obra um progresso linear
ascendente?
Acho que é um processo ascendente. A linha não
é reta: às vezes dou voltas, tenho subidas e
descidas, existem momentos de mudança... Mas, vendo
desde certa distância, acredito que é um processo
ascendente de constante transformação.
Uma dessas constantes que se mantêm apesar
das mudanças é a condição narrativa
da sua ilustração. Sua forma de seqüenciar
e alcançar uma unidade através da imagem.
Quando escuto uma história e começo a ler um
texto, tenho a necessidade de desenhar a história inteira.
Não ilustrações ilhadas, mas imagens
interconectadas. Para mim o grande desafio da ilustração
não é representar cenas, mas sim construir um
todo. Um livro é uma conexão que vai desde a
capa até a vinheta da página com informação
sobre os autores. Quando projeto um livro, eu o penso como
um objeto único, não me limito a conceber unicamente
as ilustrações que irão dentro dele.
Nesse sentido, o desafio é pensar o livro como uma
seqüência narrativa.
Nota
(1) Recomendamos ao leitor interessado na experiência
da editora brasileira Cosac Naify a leitura do artigo "Uma
editora chamada Cosac Naify", escrito por Isabel Lopes
Coelho e publicado no número 159 de EDUCACIÓN
Y BIBLIOTECA (maio/junho 2007).
SAIBA
MAIS SOBRE FERNANDO VILELA
LIVROS DO AUTOR NA COSAC NAIFY
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