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Foto: Coleção
Otto Lara Resende / IMS |
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| Ovalle, Otto Lara Resende e Vinicius
de Moraes, durante a célebre entrevista para o
Flan |
O IMPOSSÍVEL ACONTECE COM JAYME
OVALLE
Leia, abaixo, trechos da entrevista feita por Vinicius
de Moraes com Jayme Ovalle, publicada no Flan, em
maio de 1953, p. 5 do Primeiro Caderno (RJ)
Em sua única entrevista exclusiva, um homem que influenciou
três gerações com o milagre de sua sabedoria
poética responde ao questionário mais surpreendente
que se possa imaginar - poeta, músico e... Jayme Ovalle:
que mais se poderia dizer do ser de maior discernimento que
já foi dado ao repórter conhecer? - criador
da "Nova Gnomonia". Uma teoria do conhecimento que
mereceu um estudo de Manuel Bandeira e que, ao ver do repórter,
constitui a grande contribuição do Brasil à
filosofia do conhecimento do universo. - Duas noites emocionantes
com um homem de "antenas ligadas" com o mistério.
Esses impossíveis aconteceram a Jayme Ovalle:
- Já teve a impressão de estar no céu;
- Já se apaixonou por uma pombinha;
- Já foi traído por um pombo;
- Já conversou com Deus;
- Já escreveu vários livros de poesia em inglês
sem saber falar a língua.
A NOVA GNOMONIA
A coisa mais Dantas: a primeira lua nova quando fica pertinho
de Vênus.
A coisa mais Pará: aliança de diamantes.
A coisa mais Mozarleca: Dom Pedro II.
A coisa mais Kerniana: pintinhos saindo do ovo.
A coisa mais Onésima: um árabe num elevador.
ENTREVISTA DE VINICIUS DE MORAIS
Jayme Ovalle é inclassificável. Tudo que pretenda
defini-lo, encerrando-o numa classificação sumária,
ficará aquém da realidade complexíssima
que tem, no registro civil, o nome de Jayme Ovalle. Pode-se
dizer que é músico, que é poeta, que
é católico, que é amigo. É isso
com efeito, e é muito mais: é Jayme Ovalle,
um homem humano que impregnou, com a sua presença peculiaríssima,
três gerações de homens igualmente humanos,
desde Manuel Bandeira ao poeta, "doublé"
de repórter, que assina esta reportagem, Vinicius de
Moraes. Por isso mesmo, a obra de Jayme Ovalle não
se encontra relacionada em nenhuma bibliografia acadêmica,
nem pode servir de ponto de partida para erigir-se-lhe uma
estátua, uma instituição, de resto, profundamente
"onésima". Jayme Ovalle é gente, cem
por cento gente, a que uma estupenda intuição
poética acrescenta uma dimensão a mais.
O melhor que há a fazer, aqui, não é
tentar definir, ainda que pelo método das indefinições,
a personalidade de Ovalle. O leitor vai encontrá-lo
na entrevista que segue, e tomará o pulso do homem.
No mais, se quer ilustrar-se a respeito, leia a crônica
que Vinicius de Moraes escreveu na página de literatura,
no segundo caderno do nosso número anterior.
Deus e o cosmos
Não foi propriamente uma entrevista, foi um
corpo a corpo com o Mistério. Tomou-nos duas noites
apenas, mas no fim de cada uma delas tanto Jayme Ovalle quanto
eu estávamos exaustos. E aqui vão as perguntas
e as respostas, sem maiores comentários, a começar
da grande e eterna indagação:
PERGUNTA - Que é Deus?
RESPOSTA - Deus é o movimento. O movimento à
imagem do desenrolar-se de uma missa. O movimento em liturgia.
Deus é a grande força harmonizadora, o equilíbrio
entre o Filho e o Espírito Santo, que são forças
contrastantes. Deus é o fiel da balança.
P. - O sacrifício de Cristo vale para todo o Cosmos,
caso sejam os outros planetas habitados?
R. - Os outros planetas não são habitados, só
a Terra. Todo o resto é luxo, prodigalidade de Deus.
É como o carpinteiro que para fazer um móvel
deixa se espalhar uma quantidade de pó de serragem.
No caso, pó luminoso de astros e estrelas. Deus é
um esbanjado. Deus fez muito rascunho. O hipopótamo,
por exemplo, é um rascunho de Deus.
P. - Por que fez Deus mulheres feias?
R. - As normalmente feias Deus fez para casar com homens bonitos.
Quanto às irremediavelmente feias, foram feitas por
Deus para povoar as igrejas de madrugada, para usarem grandes
rosários e serem beatas.
P. - Qual a posição política do Demônio?
R. - É da natureza do Demônio mudar de política
conforme os acontecimentos.
P. - Como classifica o Demônio dentro da Gnomonia?
R. - O Demônio é Dantas.
P. - Como católico, como explica o incesto certo que
houve entre Adão e Eva e sua progênie, sem o
qual o mundo não poderia ser habitado?
R. - Não havia ainda a noção do incesto
como não há entre os bichos. A noção
do incesto cresceu com o homem.
P. - Aceita que os justos paguem pelos pecadores, pelo fato
da existência do pecado original?
R. - Quanto mais justo, mais paga. Quem pagou mais que o Grande
Justo, que se fez homem e foi crucificado?
P. - O poeta Augusto Frederico Schmidt irá para o céu,
inferno ou purgatório?
R. - Schmidt vai para o limbo, onde ficará levitando
até que possa ser rebatizado no final dos tempos.
P. - Qual a sua interpretação do número
666 do Apocalipse?
R. - É o exagero da Trindade. A superfetação,
o desdobramento da Santíssima Trindade.
P. - Quais os arquitetos, músicos, poetas, pintores
e romancistas brasileiros preferidos por Deus?
R. - Bom, arquiteto é o Niemeyer mesmo. Poeta, é
o Bandeira. Pintor, é Portinari. Mas Deus anda meio
zangado com Portinari, desde que ele fez aquela Ceia, e agora
anda indeciso entre ele e Di Cavalcanti. Agora, uma coisa
eu sei - Deus não lê romance moderno brasileiro.
P. - E músico, Ovalle? Não será você
mesmo o preferido de Deus?
R. - Não tenho muita certeza não, neguinho.
(...)
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