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Foto: Ana Ruth Miranda |
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| O músico e escritor Vitor Ramil:
"escrever é descrever algo que estou vendo"
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"O UNIVERSO PASSA NA MINHA RUA"
Entrevista para Livia Deorsola
A própria alma vista num bafejo no vidro de um bar.
Não qualquer bar, mas justamente aquele que, antigamente,
lhe era proibida a entrada. A alma do homem na cidade; a cidade
impressa no homem. É este tom intimista que o leitor
encontrará em Satolep, do músico, compositor
e escritor Vitor Ramil. A originalidade do romance é
indício do caminho trilhado por Ramil, prova de seu
interesse em criar uma obra substancial, também na
literatura (antes viera a novela Pequod, que terá
edição pela Cosac Naify).
Satolep nasceu a partir de fotografias
reunidas no Álbum de Pelotas, de 1922 ("Minha
imaginação é visual", diz Ramil), essenciais
na criação da atmosfera úmida, feita de
névoa, devaneio e mistério, características
do lugar para onde volta o fotógrafo Selbor, vinte anos
após deixar a cidade. Tateando seu passado, o protagonista
segue por uma viagem em espiral durante a qual encontra personagens
reais da história pelotense, como o escritor João
Simões Lopes Neto e o poeta e jornalista Lobo da Costa.
Ali também estão Jorge Luis Borges, Fernando
Pessoa, Alejo Carpentier e Ernesto Sábato, escritores
cujas obras aparecem como pinceladas ou que emprestam algo
de si a personagens da narrativa, como o Cubano ("sutil homenagem
a Carperntier"), que profere a frase "o frio geometriza as
coisas". As reflexões de Vitor Ramil sobre a estética
do frio, aliás, estão ali, ele avisa, mas sem
significar uma amarra temática: "Satolep
conta uma história que poderia se passar em qualquer
lugar", na melhor tradição dos romances universais.
Leia, a seguir, entrevista com Vitor Rami, autor convidado
da FLIP
2008 (Festa Literária Internacional de Paraty).
Embora trate de uma cidade específica, Satolep
possui um alcance maior, o que remete
à tradição dos romances de viés
universal. Como se dá esta transcendência em
seu romance?
O universo passa na minha rua. Não penso sobre
essa transcendência. Quando eu era criança, ouvia
falar na lendária Pelotas, rica e cosmopolita,
e acreditava que no futuro o lugar em que eu vivia seria uma
espécie de Paris. Meu pai me chamava muito a atenção
para o aspecto físico da cidade, descrevia até
seu subsolo, que ele, como engenheiro, conhecia. Eu me criei vendo
uma cidade que talvez não existisse. Acho que hoje
habito uma cidade que de fato não existe. Quando as
reflexões sobre a estética do frio apareceram
no texto, foi muito naturalmente, no contexto das relações
de amizade e trabalho do grupo de artistas amigos do personagem
narrador. Trata-se de um tema que está longe de ser
local. Se fosse diferente, talvez não aparecesse em
Satolep.
Este movimento intimista, o de colocar "o homem no
mundo e o mundo no homem", sempre foi uma questão para
você?
Sim, isso traduz uma questão íntima
minha. Venho me aproximando do mundo lentamente, desde que
me lembro de mim. Também acredito que meus conflitos
e os de Selbor [protagonista de Satolep ] espelhem os conflitos
de muita gente. A cidade é, em parte, uma representação
disso. Essa questão nos remete à pergunta
anterior, ao universal versus local. Não
é à toa que entre os personagens de Satolep
aparecem um Cubano que vive em Madri; Calvero, um cômico
inglês (Calvero é o nome do personagem de Charles
Chaplin em Luzes da Ribalta); Bernardo Soares (Fernando
Pessoa) e Mário de Sá-Carneiro (destinatário
de uma carta). Satolep trata do homem no
e do mundo.
Fotografias antigas de Pelotas [organizadas em livro
em 1922] dão base à
narrativa. Como este registro visual o inspirou a escrever?
Minha imaginação é visual. Fui
influenciado pelos pintores e suas reflexões sobre
arte, pelas fotografias antigas ou não, pelos filmes,
pelas ilustrações dos livros e pelas primeiras
séries de TV que eu vi em preto-e-branco quando era
criança. Para mim, escrever é descrever
algo que estou vendo. Não é à toa que
o personagem, que é o suposto autor dos pequenos textos
que acompanham as fotos em Satolep, é um visionário.
Dentre as impressões visuais, as das cidades sempre
foram muito marcantes para mim. Escrevi canções
para Porto Alegre, Rio, Montevidéu, Buenos Aires, São
Paulo, Pelotas... No caso dessas fotos, bem, elas mostram
Satolep, que, em parte, é Pelotas antes de sua
destruição arquitetônica. Olhei tanto
para elas que em certo momento sonhei em preto-e-branco. Andei
em sonhos por essas ruas. Meus sonhos favoritos são
com Satolep, mas acontecem muito raramente. Então trato
de sonhar acordado. Trabalhando em Satolep, me dei
conta de que essa combinação de fotos e ficção era
muito original. Pelo menos eu não conheço outro
livro assim. Lidar com uma forma que me parecia
inédita foi também muito inspirador.
O escritor gaúcho João Simões
Lopes Neto é personagem fundamental do livro. Quais
as características dele o fizeram ser uma espécie
de orientador de Selbor na busca de si mesmo?
Antes de mais nada, o que está no livro é
o "meu" João Simões. Não poderia haver
alguém mais representativo de Pelotas e de Satolep
do que ele. Penso que João Simões foi um
artista numa época e lugar em que ser um artista era,
em princípio, ser nada - ainda mais no caso dele, filho
de uma família rica e poderosa. Tendo se dedicado aos
mais variados empreendimentos "respeitáveis", possivelmente
para corresponder a expectativas familiares e sociais, fracassou
em todos eles, menos na literatura (embora não tenha
vivido para testemunhar isso). Seus dois livrinhos, Contos
Gauchescos e Lendas do Sul, que marcaram o imaginário
do Sul e influenciaram autores como Guimarães Rosa,
foram escritos já no final da sua vida. Sua fama
é póstuma.
O narrador diz-se um fotógrafo, não um artista. Para tal, precisaria "aprender a ver". Sem tocar na antiga questão de a fotografia ser ou não arte, esse "precisar aprender a ver" é, antes de tudo, um tema existencial, o tema de toda a vida de Selbor. E esse é o principal ponto em que ele e João Simões se conectam. Mas os "joões simões", o João Simões plural, mundano, homem metido em mil coisas, conhecedor de todo mundo, é também emblemático para Selbor, porque ele é a própria agitação da cidade, a vida de todo mundo numa pessoa só. Ele ajuda Selbor não só a chegar a Satolep, mas a transformar-se a partir dela e de seus habitantes.
Paralelamente há a lenda do Negrinho do Pastoreio, cuja versão definitiva é de João Simões, e que perpassa todo o livro, fazendo uma espécie de ponte entre Selbor e Satolep e seus mistérios.
 Pequod

A estética do frio
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Em seu livro Pequod [que terá
nova edição pela Cosac Naify], a busca por entender
o passado, a relação com o pai, o silêncio,
a quietude são elementos também presentes. Poderia
comentar estes traços semelhantes em ambas as obras?
Acho que as histórias se ligam antes de mais
nada por trazerem muito da minha própria vida. Nos dois
livros há essa presença impositiva e enigmática
do pai e toda a atmosfera da cidade, em especial de seu
aspecto físico como sugestão formal para o texto.
O silêncio e a quietude podem ser vistos como marcas dessas
planícies frias, mas são principalmente traços
de meu pai, e de minha relação com ele, que ficarão
comigo para sempre.
Jorge Luis Borges [ Ficções ]
e Alejo Carpentier [ Cidade das colunas ]
estão em Satolep também
como importantes referências. Qual sua relação
com a literatura hispano-americana?
Alejo Carpentier, a quem homenageio sutilmente através
do personagem Cubano, é o provável autor da
frase "o frio geometriza as coisas", recorrente no livro. Digo
"provável" porque não pude encontrá-la em
nenhum texto dele (embora eu esteja seguro de não
ter pesquisado o suficiente). Desconfio que Felipe Elizalde,
um amigo, filósofo e compositor, é que deu forma
a ela. Essa frase foi muito importante em minhas reflexões
sobre a estética do frio, na qual as idéias
de Borges - "a arte deve ser como um espelho que nos revela
a própria face" -, também aparecem.
Sua figura é imensa no Rio Grande do Sul, e aparece
naturalmente em minhas
produções (musiquei oito milongas de Borges;
cito-o em A estética do frio).
Li Borges numa idade em que quase não podia compreendê-lo, por volta dos 13 anos, e acho que isso marcou minha maneira de escrever. Era como se ele se ocupasse de algo que não era nem real nem irreal, como se ele fosse capaz de ver o que se situava em um plano intermediário. Marcou-me seu texto conciso, austero e poético, e também os mundos que ele me abria com sua imaginação. Também sua visão do gaúcho, seu trânsito livre da alta cultura para o mundo campeiro, como se fossem coisas que, em essência, não diferissem entre si.
Mas minha relação com a literatura hispano-americana
não vai muito além de Borges, Cortázar, Bioy
Casares, autores argentinos, enfim. Certamente foi importante
ter lido García Márquez - Satolep é a
minha Macondo. Ultimamente, tenho me aproximado mais da América
Latina graças à música e, com isso, começo
a despertar fortemente para sua literatura.
Em Facundo, de Domingo
Sarmiento [no prelo, pela Cosac Naify], fundamental na formação
literária da Argentina, o autor afirma que la pampa
imprime nos gauchos
uma resignação paralisante. Qual é sua
interpretação sobre a visão das planícies?
As planícies, o pampa, são mesmo lugares
para visões (lembre-se do visionário, do
fotógrafo e dos artistas de Satolep). Acho que
para nós do Rio Grande do Sul as planícies são
muito simbólicas. Elas são território
brasileiro, mas ao mesmo tempo nos vinculam aos países
do Prata. Barbosa Lessa, escritor seminal e compositor
rio-grandense, já falecido, descreve essas planícies
inóspitas, nossa costa sem enseadas, em que os portugueses
não puderam atracar seus navios (o que contribuiu para
a ocupação tardia do nosso território),
e chama a tudo isso de "país da solidão".
O pampa tem presença maior em nosso imaginário
que em nosso Estado. Bioy Casares, que cito em A estética
do frio, chega a questionar a existência do pampa
e do próprio gaucho. Comigo não é muito
diferente. Extraio das planícies uma grande sugestão
formal, antes de tudo: lugar profundo e melancólico,
mas também puro, leve, claro, conciso e rigoroso.
Em Satolep , o protagonista
escolhe passar seu aniversário de 30 anos na cidade
onde nasceu e viveu a infância. Há algum motivo
especial para a escolha desta idade? O que a chegada aos 30
representou para você?
Acho que os 30 anos são aquela idade
em que ainda conservamos os ímpetos e inquietudes da
juventude, mas já começamos a manejar algumas
coisas com a destreza da maturidade. Pareceu-me a idade perfeita
para que Selbor vivesse a crise que o traria de volta
a Satolep. Só depois de ter escrito mais da metade
do livro é que me dei conta de que eu mesmo voltara
a Pelotas por volta dos 30 anos. Vim para cá com muitas
inseguranças: é preciso muita determinação
para lutar contra o desprestígio que significa
ser um artista do interior, alguém apartado de todas
as circunstâncias de poder. Eu não sabia como
me sairia desse desafio. Mas com o tempo, percebi
que fizera a coisa certa. Voltar para o interior soa
quase como uma sentença de morte profissional, especialmente
para um compositor e escritor iniciante. Porém, foi
aqui em Pelotas que o "ser artista" ganhou sentido para mim.
Ganhei uma substância que não ganharia na superficialidade
vertiginosa do centro do país. Foi como se o tempo
parasse subitamente só para mim, e então eu
pudesse dar conta de mim mesmo e do meu trabalho enquanto
o mundo seguia sua correria lá fora. Sempre levei minhas
coisas de um jeito meio quixotesco, mas recomeçar
do zero no interior do Rio Grande do Sul, perto da fronteira
com o Uruguai, foi a atitude mais doida de todas. Só
mesmo por volta dos 30 anos... Eu não correria
esse risco nem antes nem depois. Parafraseando meu personagem,
se esperavam de mim uma árvore frondosa, Satolep me
fez puro cerne.
Recordo aqui a frase "Nascer leva tempo", dita por
Cubano a Selbor. Como é este processo para você?
Em que medida vivenciou isso na ocasião de sua volta
do Rio de Janeiro a Pelotas?
Decidi ser artista ainda criança; comecei
muito precocemente. Ganhei, pela Região Sul, um
concurso literário nacional aos 11 anos; aos 18
gravei no Rio meu primeiro disco com canções
compostas a partir dos 14. De lá pra cá nunca
fiz outra coisa que música e literatura. Mas se nunca
fui ambicioso no sentido de me tornar conhecido, sempre o
fui no sentido artístico. Sempre quis criar algo
pertinente, relevante. Como artista, venho nascendo durante
todo esse tempo, porque criar algo relevante no Brasil, com
toda a sua riqueza artística, não é coisa
que se faça da noite para o dia. Na epígrafe
de A estética do frio, escrevi: "Sinto-me
um pouco discípulo daqueles para quem, na descrição
de Paul Valéry, o tempo não conta; aqueles
que se dedicam, a uma espécie de ética da forma,
que leva ao trabalho infinito". Como já disse antes,
voltar para Pelotas por volta dos 30 anos foi como recomeçar
do zero. Vem sendo realmente um processo de nascimento, em
muitos sentidos, não só no artístico.
Isso está lá em Satolep, algo que não
planejei. Quando vi, estava escrito; quando vi, era
algo da minha própria vida.
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